Por José de Alencar (1872)
Pouco antes o compelia um ímpeto poderoso de precipitar-se para a pedra, agarrá-la com ambas as mãos, para atirá-la ao despenhadeiro, derrocando dum jacto a caverna.
Agora, porém, era a pedra que arrojava-se para ele, travava de suas mãos, e com elas arrancava-se dali, de onde estava, para aluir a gruta e sepultá-lo vivo sob a pesada abóbada.
E ele que reagia contra o impulso que o arrastava, agora pasmo e sucumbido abandonava-se àquela obsessão. Involuntariamente, como um autômato, se aproximava do seixo, acreditando em sua insânia, que era o seixo e não ele, quem se movia.
Continuava Berta a olhar pela fresta, atenta às ameaças do Gonçalo; e Jão, pasmo, sombrio, abatido, avançava lentamente aos trancos. Já ele tocava o seixo, e curvava-se.
Nesse momento Berta soltou um pequeno grito, e correu a esconder-se junto do Bugre:
- Eles vão atirar, Jão! exclamou ela.
- Nhazinha tem medo de morrer? perguntou o capanga.
- Tenho, sim! respondeu a menina assustada.
A expressão de receio, que se desenhava em sua fisionomia, a salvou. Jão ergueu-se de um salto, arrastou o calhau que obstruía uma solapa do rochedo, por onde a caverna se comunicava com a próxima encosta, e fugiu horrorizado, levando consigo Berta.
Foi então que vendo-o passar de relance pelo desfiladeiro, a gente de Filipe desfechou as armas; e o capanga urrou de sanha e furor.
Por atalhos só dele conhecidos, Jão ganhou a floresta e conduziu a menina até as plantações da fazenda; aí despediu-se dela com estas palavras, proferidas em profunda entonação:
- Nunca mais, Nhazinha, ande só por estes matos.
XIV
O beijo
Brincando e cantando, atravessava Berta os cafezais, já esquecida dos lances que passara, e contente por ter deixado Jão escapo.
Sobressaltou-a, porém, o ramalhar das árvores, agitadas por forte impulso; cuidando que a ameaçava novo perigo, voltou o rosto para descobrir a causa do rumor.
Devia ser ameaçador o que viu; pois desfechou numa carreira cega por entre o arvoredo, sem embaraçar-se com as vergônteas a lhe baterem no rosto, e os gravetos que rasgavam a saia de seu vestido novo de cassa.
Amiúde olhava para trás e redobrava de ligeireza, sentindo-se perseguida por um inimigo que vinha sobre ela com extrema velocidade e não tardaria a alcança-la.
Com efeito já o estrépito dos passos no chão se confundiam; e soava a seus ouvidos o sussurro da respiração que resfolgava com o esforço da corrida.
Ouviu-se um grito de susto.
Colhida em sua carreira, a gentil menina estremecia entre os braços de Afonso, como a rola nas mãos do travesso menino; mas não podia estanvar o riso brejeiro que, represo nos lábios mimosos, lhe estava borbulhando na covinha das faces e no gesto petulante.
- E agora! exclamou o rapaz apinhando os lábios num beijo papudo.
- Ai!
Soltando este chilro, a menina arrepiou-se toda, como para esconder-se em si mesma, e fechou os olhos.
Decorrido algum tempo, e admirada de não sentir na face calor algum, nem ouvir o estalo que esperava, abriu o cantinho do olho, e viu o camarada confuso, tímido, com a vista baixa e o rosto vermelho como um chichá.
O brincão do rapaz, tão desembaraçado e atrevido, quando bolia com Berta em presença da irmã ou perto da gente, agora que se achava só com a menina, a grande distância de casa e num sítio ermo, tomara-se de um súbito enleio, e mostrava-se constrangido.
Foi a muito custo e para disfarçar o acanhamento que ele, desviando o rosto, disse à menina:
- Você não me quer bem!
- Quero, sim! acudiu a moça que recuperara sua travessa isenção.
- E a Miguel?
- Também!
- Mas Miguel é quase seu irmão.
- E você?
- Eu não! replicou vivamente Afonso.
O dito de Berta sem dúvida o molestara; pois tão prontamente e com tamanho calor o contestou ele. Ficou séria a menina, a qual lhe tornou já amuada:
- É sim!
- Mas... arriscou Afonso titubeando, os irmãos... não... se casam, Berta.
- Porque não é preciso! replicou a travessa com um arzinho arrebitado, que enfeitiçava.
- Como assim? interrogou o rapaz cujos dezoito anos se maravilhavam da importante descoberta feita pela menina.
- Pois então! Os irmãos não vivem juntos? Não brincam diante de todo mundo, como nós fazemos? Quem não sabe que a gente se quer bem? Mas ninguém fala mal por isso. Casar para que? Agora, aqueles que estão longe, que tem vergonha de se gostarem, é outra coisa; carecem perder o medo. Como Linda e Miguel! Estes, sim, precisam muito!
- É verdade!
- Não vê como ela anda sempre desconsolada e ele tão macambúzio?
- Então nós, Berta... não precisamos? insistiu Afonso.
- Não sei! Linda há de estar cansada de esperar-me! respondeu a menina com jeito de afastar-se.
Atalhou-lhe Afonso o passo.
- Não deixo!
- Solte-me, Afonso! disse Berta querendo desprender o braço da mão do rapaz.
- Dá o que prometeu?
- Que sabido! Não prometi nada!
- Então eu tomo!
- É capaz? disse Berta em tom de desafio.
- Eu tomo mesmo!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.