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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Não falava para D. Firmina, que talvez não o compreendia, nem para Aurélia que certamente não o escutava. Era para si mesmo que expandia as abundâncias do espírito; o ouvinte não passava de um pretexto para esse monólogo. 

Às vezes repetia as traduções que havia feito das poesias soltas do bardo inglês; essas jóias literárias, vestidas com esmero, tomavam maior realce na doce língua fluminense, e nos lábios de Seixas que as recitava como um trovador. 

Aurélia a princípio entregara-se ao encanto daquela noite brasileira, que lhe parecia um sonho de sua alma pintado no azul diáfano do céu. 

Umas vezes ela refugiava-se no mais espesso da sombra, como se receasse que os raios indiscretos da lua viessem espiar em seus olhos os recônditos pensamentos. Daí, da escuridão em que se embuçava, entretinha-se a ver as árvores e os edifícios flutuando na claridade que os inundava como um lago sereno. 

Outras vezes inclinava a medo e lentamente a cabeça até encontrar a faixa de luar que passava entre as duas folhas de palmeira, e vinha esbater-se na parede. Então essa veia de luz caía-lhe sobre a fronte e banhava-a de um cândido esplendor. 

Ficava um instante nessa posição com os olhos engolfados no luar e os lábios entreabertos para beberem os eflúvios celestes. Depois, saciada de luz, recolhia-se outra vez à sombra; e como a árvore que desabrocha em flores aos raios de sol, sua alma transformava os fulgores da noite em sonhos. 

Ali perto recendiam os corimbos de resedá, balouçados pela brisa, e foi através desse enlevo de luz e fragrância, que a voz sonora de Seixas penetrou nas cismas de Aurélia e enleou-se nelas, de modo que a moça imaginava escutar não a conversa do marido, mas uma fala de seu sonho. 

Para ouvir apoiara-se no braço da cadeira e insensivelmente a cabeça descaindo reclinou sobre a espádua de Seixas com um movimento de graciosa languidez. 

- Um dos mais lindos poemetos de Byron é o Corsário, dizia Seixas. 

- Conte! murmurou-lhe ao ouvido a moça com a voz que teriam sílfides se falassem. 

Fernando cedia nesse instante a uma suavíssima influência, contra a qual desejava reagir, mas faltava-lhe o ânimo. A pressão dessa formosa cabeça produzia nele o efeito do toque mágico de uma fada; presa do encanto não se lembrou mais quem era e onde estava. 

A palavra fluía-lhe dos lábios trêmula de emoção, mas rica, inspirada, colorida. Não contou o poema do bardo inglês; bordou outro poema sobre a mesma teia, e quem o ouvisse naquele instante, acharia frio e pálido o original, ante o plágio eloqüente. É que neste havia uma alma a palpitar, enquanto que no outro apenas restam os cantos mudos do gênio que passou. 

- O senhor deve traduzir este poema. É tão bonito! disse D. Firmina. 

- Já não tenho tempo, respondeu Seixas; nem gosto. Sou empregado público e nada mais. 

- Agora não precisa do emprego; está rico. 

- Nem tanto como pensa. 

Aurélia levantou-se tão arrebatadamente, que pareceu repelir o braço do marido, no qual pouco antes se apoiava. 

- Tem razão; não traduza Byron, não. O poeta da dúvida e do cepticismo, só o podem compreender aqueles que sofrem dessa enfermidade cruel, verdadeiro marasmo do coração. Para nós, os felizes, é um insípido visionário. 

Depois de ter lançado envoltas em um riso sardônico estas palavras a Seixas, a moça afastou-se da calçada. Mal entrou na zona de luz que prateava a fina areia, teve um calafrio. Esse esplêndido luar, onde suave, em que ela banhava-se voluptuosamente momentos antes, a transpassara como um lençol de gelo. 

Voltou precipitadamente e entrou na sala, onde apenas havia a frouxa claridade de dois bicos de gás em lamparina. Fora ela mesma quem dispusera assim, para que a luz artificial não perturbasse a festa da natureza. Agora batia o tímpano, chamando o criado para fazer inteiramente o contrário. Os lustres acesos entornaram as torrentes deslumbrantes do gás, que expeliram da sala os níveos reflexos do luar. 

- Pretendem ficar aí toda noite? perguntou Aurélia. 

- Estávamos gozando do luar, disse D. Firmina entrando com Seixas. 

Há quem admire as noites de luar! Eu acho-as insuportáveis. O espírito afoga-se nesse mar de azul, como o infeliz que se debate no oceano. Para mim não há céu, nem campo, que valha estas noites de sala, cheias de conforto, de calor e de luz em que nos sentimos viver. Aqui não há risco de afogar-se o pensamento. 

- Não; mas asfixia-se! Observou Fernenado.

- Antes isso. 

Aurélia sentou-se à mesa de mosaico, voltando as costas ao jardim para não ver a 

formosa noite que lhe caíra no desagrado. Como porém no espelho fronteiro reproduzia-se com a cintilação do cristal uma nesga do jardim, onde a claridade argentina da lua parecia coalhar-se nos lírios e cactos, a moça chamou novamente o criado e ordenou-lhe que fechasse a janela pela qual entrava aquele importuno bosquejo do soberbo painel da noite. 

Havia em cima da mesa uma caixa de jogo, donde Aurélia tirou um baralho, com que se entreteve a fazer sortes. 

- Vamos jogar? disse dirigindo-se ao marido. 

(continua...)

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