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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Padre Teles a pretêsto de acompanhar as senhoras, lá se foi também com elas a campear as novilhas que pastavam alíperto. A-pesar-de não ser êsse gado barbatão como o outro, todavia não era de todo manso, e às vezes a rês perseguida voltava-se para atirar uma marrada, que as destras cavaleiras evitavam no meio de risada e folgares. 

Mais tímida, Alina deixara-se ficar na colina; e depois de alguma hesitação aproximou-se de Arnaldo, o qual ainda imóvel no mesmo lugar, seguia de longe a corrida com um olhar ávido e sôfrego. 

— Não foi campear, Arnaldo? disse a moça à meia voz. 

— Não, Alina! respondeu o sertanejo concisamente sem tirar os olhos da várzea. 

— Eu sei a razão! tornou a órfã com uma reticência misteriosa. 

Arnaldo olhou-a de través para surpreender-lhe no rosto o pensamento. 

— Foi para ficar perto de mim. Não acertei? disse Alina com um sorriso de melancólica faceirice. 

Arnaldo fechou-se e retorquiu em tom breve e esquivo: 

— Não gosto destas caçadas. Campear é no largo, onde o boi acha mundo para fugir; e mão fechá-lo como num curral para ter o gôsto de o matar depois de cansado. Um vaqueiro não sofre isto. Aquí está a razão por que fiquei, Alina. 

— Ah! eu sabia que não era por mim; disse-o brincando. A sra. D. Genoveva não me chama sua noiva, Arnaldo? É para zombar de mim! 

Alina proferiu esta frase com o mesmo tom de faceira melancolia, e tão queixoso, que Arnaldo sentiu-se comovido. 

— Não é de você, Alina, que zombam; mas de mim. Eu não sou vaqueiro; sou um filho dos matos, que não sabe entrar numa casa e viver nela. Minhas companheiras são as estrêlas do céu que me visitam à noite na malhada; e a jurutí que fez seu ninho na mesma árvore em que durmo. Seu noivo deve ser outro. Eu lhe darei um que a mereça. 

— Já tenho, disse Alina. 

— Qual? perguntou Arnaldo surpreso. 

— Não é da terra, não. Esta lá perto das estrêlas, suas companheiras: é o céu. 

Arnaldo não atendeu à resposta da moça. Um acidente que ocorrera alí perto, na falda da colina, acabava de surpreendê-lo. 

D. Genoveva e a filha continuavam a perseguir as reses que lhes ficavam próximas, e padre Teles, um tanto emancipado,com a ausência do capitão-mór, acompanhando-as nesse folguedo, empunhava um ramo de cauaçú que êle quebrara para fazer as vezes de aguilhada. 

D. Flor tinha nessa manhã um pequeno chale escarlate de garça de sêda que lhe servia de gravata, e cujas pontas flutuavam-lhe sôbre o peito do vestido de montar. Lembrando-se que a côr vermelha tem a propriedade de enfurecer os touros, os quais supondo ver o sangue, tornam-se ferozes, a temerária donzela desatou a faixa, e começou a agitá-la como uma bandeirola para irritar as reses e gozar do prazer de afrontar o perigo e escapar-lhe. 

Entretanto um boi surubim, que estava escondido nas balsas de um alagado, surdiu fora, e lançou de longe para a moça, que não o via, um olhar traiçoeiro. Era um animal corpulento, de marca prodigiosa, como raros exemplares se encontram no sertão, hoje que as nossas raças domésticas estão decaídas daquele vigor primitivo que tomaram ao influxo e contacto do novo mundo. 

De repente o barbatão, levado por seus instintos perversos, e também assanhado pelo chale escarlate que a moça imprudentemente agitava, abaixou a cabeça armada de chifres enormes, e arremeteu, bufando um surdo bramido. 

D. Flor estava de costas, e não o viu. Ao vivo aceno de sua mãe assustada, voltou-se sorrindo e só então conheceu o perigo que a ameaçava. O touro vinha-lhe sôbre com a violência de uma tromba. Corajosa como era, não se atemorizou a donzela; mas tomada de surpresa como fôra, tinha hesitado um instante e tanto bastou para frustrar a sua calma e destreza. Quando o baio, obedecendo ao sofreio que o empinou, já rodava sôbre os pés para saltar e pôr-se fora do alcance do touro, êste chegava como a bala de um canhão. 

Então um urro medonho encheu o espaço abafando o grito de aflição, que ao mesmo tempo escapara dos lábios de D. Genoveva e de Alina. 

Arnaldo advertido pelo primeiro mugido do touro, volvera o olhar para o ponto, e vira a fera já no meio da carreira com que investia para a moça. Alina ouviu um arranco. Era o sertanejo que passava por diante dela, como um turbilhão. 

D. Flor que se considerava já ferida pelas pontas do touro, admirou-se de estar ainda montada no baio, o qual se arrojara ao lado; e de achar-se incólume, sem outro dano além de um leve rasgão de sua roupa de montar. Voltando o rosto para o lugar, compreendeu então a donzela o que se passara. 

Arnaldo, ao arrancar, tinha sacado o laço do arção da sela onde o trazia preso, e rolando-o acima da cabeça, o arremessara com a mão segura do vaqueiro, que nunca errou o boi à disparada. 

Apanhado pelos chifres, o sorubim estacara; e no repelão que dera para safar-se, havia furado a fralda do roupão de D. Flor. 

(continua...)

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