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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Álvaro fascinado a admirava; nunca a vira tão bela; o moreno suave do rosto e do colo da moça iluminava-se de reflexos doces e tinha ondulações tão suaves, que o pensamento ia, sem querer, enlear-se nas curvas graciosas como para sentir-lhe o contato, espreguiçar-se pelas formas palpitantes. 

Tudo isto passara rapidamente enquanto Isabel hesitava ao preferir -a primeira palavra. Por fim vacilou: reclinando sobre o ombro de Álvaro, como uma flor desfalecida sobre a haste, murmurou: 

— Porque... vos amo! 

XII 

PELO AR 

 

Álvaro ergueu-se como se os lábios da moça tivessem lançado nas suas veias uma gota do veneno sutil dos selvagens que matava com um átomo. 

Pálido, atônito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração leal exagerava a afeição pura que votava a Cecília a tal ponto, que o amor de Isabel lhe parecia quase uma injúria; era ao menos uma profanação. 

A moça com as lágrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento rápido de Álvaro tinha trocado as posições; agora era ela que estava ajoelhada aos pés do cavalheiro. 

Sofria horrivelmente; mas a paixão a dominava; o silêncio de tanto tempo queimava-lhe os lábios; seu amor precisava respirar, expandir-se, embora depois o desprezo e mesmo o ódio o viessem recalcar no coração. 

— Prometestes perdoar-me!... disse ela suplicante. 

— Não tenho que perdoar-vos, D. Isabel, respondeu o moço erguendo-a; peço-vos unicamente que não falemos mais de semelhante coisa. 

— Pois bem! Escutai-me um momento, um instante só, e juro-vos por minha mãe, que não ouvireis nunca mais uma palavra minha! Se quereis, nem mesmo vos olharei! Não preciso olhar para ver-vos! 

E acompanhou estas palavras com um gesto sublime de resignação. 

— Que desejais de mim? perguntou o moço. 

— Desejo que sejais meu juiz. Condenai-me depois; a pena vindo de vos será para mim um consolo. Mo negareis? 

Álvaro sentiu-se comovido por essas palavras soltas com o grito de um desespero surdo e concentrado. 

— Não cometestes um crime, nem precisais de juiz; mas se quereis um irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero. 

— Um irmão!... exclamou a moça. Seria ao menos uma afeição. 

— E uma afeição calma e serena que vale bem outras, D. Isabel. 

A moca não respondeu; sentiu a doce exprobração que havia naquelas palavras; mas sentia também o amor ardente que enchia sua alma e a sufocava. 

Álvaro tinha-se lembrado da recomendação de D. Antônio de Mariz; o que a princípio fora uma simples compaixão tornou-se simpatia. Isabel era desgraçada desde a infância; devia pois consolá-la e desde já cumprir a última vontade do velho fidalgo, a quem amava e respeitava como pai. 

— Não recuseis o que vos peço, disse ele afetuosamente, aceitai-me por vosso irmão.

— Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente. Cecília me chama sua irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim? 

— Sim, D. Isabel. 

— Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome simplesmente? perguntou ela com timidez. 

Álvaro hesitou. 

— Sim, Isabel. 

A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os lábios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, a acariciavam. 

— Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É preciso ter sofrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco. 

— Contai-me as vossas mágoas. 

— Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais. 

— Culpada! Em quê? 

— Em querer-vos, disse Isabel corando. 

Álvaro tornou-se frio e reservado. 

— Sei que vos incomodo; mas é a primeira e a última vez; ouvi-me, depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã. 

A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão suplicante, que Álvaro não pôde resistir. 

— Falai, minha irmã. 

— Sabeis o que eu sou; uma pobre órfã que perdeu sua mãe muito cedo, e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me queixo, mas sofro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas; entretanto minha mãe desgraçada fez-me odiar a uma, o desdém com que me tratam fez-me desprezar a outra. 

— Pobre moça! murmurou Álvaro lembrando-se segunda vez das palavras de D. Antônio de Mariz. 

— Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo que minha mãe deixara no meu coração, sentia a necessidade de amar alguma coisa. Não se pode viver somente de ódio e desprezo!...

— Tendes razão, Isabel. 

— Inda bem que me aprovais. Precisava amar; precisava de uma afeição que me prendesse à vida. Não sei como, não sei quando, comecei a amar-vos; mas em silêncio, no fundo de minha alma. 

A moça embebeu um olhar nos olhos de Álvaro. 

— Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o percebêsseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e conversava com ela, ou adormecia sonhando bem lindos sonhos. 

O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel. 

(continua...)

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