Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Depois da volta de Henrique à pátria, acompanhava-o ao “Céu cor-de-rosa”, e observava...
Os dois amigos estavam juntos na manhã que se seguia depois da noite dos anos de Celina.
Henrique achava-se pensativo e profundamente melancólico.
– Previ que estimarias ver-me hoje cedo, disse Carlos.
– Estimo ver-te sempre; que quer porém dizer a tua previsão?
– Adivinhei que estarias pensativo e triste.
– Então adivinhaste também o motivo?
– Também.
Henrique corou sem querer; ensaiou um sorriso, e perguntou:
– E qual é?...
– Sou teu médico, Henrique, e vi que a noite de ontem deveria fazer-te mal.
– E fez-me.
– Portanto, fiz bem em vir conversar contigo: necessáriamente tens muito que dizer-me.
– Não; tenho ao contrário alguma coisa que perguntar.
– Vamos, pois.
– Que observaste ontem à noite, Carlos?
– Provavelmente menos do que tu, Henrique.
– Menos do que eu?...
– Sim; porque eu examinei tudo com o olhar frio do observador, e tu viste tudo com os olhos enganadores da paixão.
– E então?...
– Então tu deixaste ontem o “Céu cor-de-rosa” com a convicção terrível de que tinhas um rival poderoso no jovem Salustiano.
– E tu?...
– E eu vim com a certeza de que a bela viúva detesta esse homem mais do que tu mesmo.
– É possível?!
– Mas eu trouxe também a certeza de que entre ela e Salustiano existe um segredo, que é uma barreira que se levanta contra o teu amor.
– Oh!... mas esse fatal segredo...
– É um segredo... não o saberás... não o saberemos.
– Mas eu daria meu sangue... metade de minha vida para poder arrasá-lo.
– E nunca o saberás.
Henrique torceu as mãos com violência, e depois exclamou com acento de dor profunda:
– Que eu não possa esquecer essa mulher!
E começou a passear por toda a extensão da sala visivelmente alterado.
Carlos acompanhava-o em silêncio e com os braços cruzados, até que enfim Henrique principiou a desabafar seus sofrimentos, falando.
– É incrível! exclamou ele: como se pode explicar este sentimento que tem
feito o constante padecer de minha vida?... como é que pode em mim tanto essa mulher, que nem a razão, nem a ausência, nem a amizade poderão conseguir fazerme esquecê-la?... como é que eu me prendo assim a uma rosa que me espinha; que me ofereço a um raio que me abrasa?! Oh! Carlos! Carlos! este amor é fatal como a maldição de um pai!...
– Eu to predisse: no seu começo fora possível vencê-lo; agora é tarde.
– Possível vencê-lo?! se não foras meu amigo, eu te desejaria um amor como este, para sentires como foi ele no seu começo; sabes o que é estar um homem devorado pela sede, e preso a uma coluna de ferro a dois passos de um rio de águas límpidas?... pois foi assim que eu vivi enquanto Mariana esteve casada; a minha sede era de amor, minha coluna de ferro era a honra, e essa mulher era para mim uma fonte de angélica pureza... oh!... foi muito horrível a minha vida!... foi muito horrível!
Carlos guardou silêncio.
– E agora? prosseguiu o apaixonado mancebo; – agora que nenhuma consideração digna de respeitar-se opõe-se ao meu amor; agora que eu não me envergonho declarando-o à mulher que tanto pode sobre mim; agora que eu a ouço todos os dias dizer que me ama, há de vir um homem, que até hoje desprezei, ostentar a meus olhos o poder que exerce sobre ela?... isto não é uma tentação abominável?... dize Carlos, dize, isto não é uma tentação capaz de perder-me para sempre?
Os olhos de Henrique flamejavam.
– O que queres dizer?... exclamou Carlos.
– Quero dizer, respondeu Henrique tremendo, que ontem à noite eu vi a mulher que adoro, levada pelo braço desse homem, pálida, abatida, trêmula como uma criminosa; e ele, arrogante, soberbo, terrível e feroz como um algoz; quero dizer que de então até agora eu tenho sonhado com um punhal... com a desonra...
– Insensato! bradou Carlos.
– Mais do que isso!
– Compreendes bem todo o sentido das palavras que pronunciaste?..
– Perfeitamente.
– Serás capaz de repeti-las?...
– Sem dúvida.
– Henrique, disse Carlos com voz triste e grave; falas com o teu amigo, responde pois seriamente. Pensaste já uma só vez em realizar esse pensamento abominável?...
Henrique hesitou.
– Esse pensamento é um crime, tornou Carlos, mas eu sou teu amigo para to perdoar; responde pois, pensaste já uma só vez em realizá-lo?.
Henrique empalideceu como um moribundo, e disse:
– Já... esta noite.
– Estás quase perdido! exclamou dolorosamente o amigo. a Henrique, escutando esse grito da amizade, atirou-se no sofá chorando desabridamente.
Carlos sentou-se, e refletiu durante muito tempo; o médico procurava um remédio para o seu doente; e o doente tinha medo daquele médico, que sempre se havia oposto ao seu amor.
No fim de meia hora, Carlos chegou-se para junto do amigo, e tocando-lhe no ombro, disse:
– Sê homem.
Henrique levantou a cabeça.
– Tenho pensado bem, continuou aquele; não vejo razão para tão grande dor.
– Como? perguntou Henrique.
– A bela viúva te ama.
O mancebo suspirou, e disse:
– E aquele homem?...
– É um vil... despreza-o...
– Era só isso o que tinhas para me dizer?...
– Não.
– Que mais então?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.