Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Como insolente?... acudiu Lucrécia, que se apraziava com o desgosto de Otávio; eu me confundo decerto!... Supunha que nada havia mais natural do que um bateleiro fazer demorar sua viagem para ouvir a voz de uma moça que cantava; nada mais agradável do que responder o canto, que acabava de ouvir, com outro da mesma natureza.
— Mas o homem que cantou não pode ser um rude bateleiro...
— E que podemos nós fazer?... disse Hugo: porventura está no nosso direito impedir que se cante no mar?... deverá Honorina privar-se de sua mais bela prenda só porque houve um homem que, de longe, respondeu uma vez a seu canto?...
— Deus nos livre disso! acudiu Otávio.
— Seja embora um atrevido, continuou Hugo, devemos confessar que causou-nos uma surpresa.
— Mesmo uma agradável surpresa, ajuntou Tomásia.
— Não tem dúvida; uma agradável surpresa, repetiu Venâncio.
— Mas que é isso, Honorina?... tão melancólica de repente?... Será possível que aquele harmônico bateleiro chegasse a incomodar-te até o ponto de te entristecer assim?...
— Meu pai... é que eu não esperava...
— Graças a Deus temos todos essa certeza. Nada... nada de nos ofendermos por tão pouco... Querem saber? se eu pudesse, faria com que o nosso bateleiro repetisse uma outra vez o seu canto...
— Meu pai!
— Não é graça... tem uma bela voz de tenor...
— E o efeito, disse Lucrécia, o grande efeito que produz o canto no silêncio da noite e no mar...
— É verdade!... é verdade!...
— A propósito! exclamou Hugo de Mendonça, daremos uma lição ao nosso bateleiro.
— Como?...
— Se Honorina quiser, aproveitaremos uma ou duas destas belas noites de luar, faremos um passeio marítimo, e no mar... defronte da mais linda praia... levantam-se os remos, e Honorina entoa a sua lira da virgem inocente.
— Oh! não, meu pai!...
— Sim... sim, minha senhora... ceda...
— Porventura tens medo de bateleiro?... lá... o caso é outro: estaremos no mesmo campo, e se ele aparecer veremos qual é o batel que mais voa... então que dizes?...
— Ceda... ceda...
— Eu farei o que meu pai quiser.
— Pois muito bem: estamos tratados; resta marcar a noite; quando deverá ser?...
— A Sr.ª D. Honorina que decida...
— Para mim é indiferente... pode ser qualquer...
— Honorina, disse Raquel, marca a noite de amanhã: eu fico contigo até terça-feira, não é assim, meu pai?...
— Sim, minha filha, respondeu Jorge.
— Amanhã, amanhã, Sr.ª D. Honorina, disse Tomásia, nós temos de passar o dia de amanhã com minha comadre, e pediremos licença para tomar parte em tão agradável passatempo.
— Pois se meu pai quiser, tornou Honorina, seja amanhã.
— Está dito, concluiu Hugo, seja amanhã.
E ao mesmo tempo que todos se levantavam, ouviu-se ao longe muito ao longe, a voz do bateleiro, que repetia:
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!
XVIII
As duas amigas
Enfim, elas se viam sós; não como da outra vez, recostadas na janela, que deitava para o jardim, porque Honorina receava uma aparição noturna e repentina daquele homem singular, que em toda a parte e a todas as horas velava por ela. Mas agora, sentadas ambas em um sofá, e livres de seus atavios, com a liberdade da solidão, independentes das prisões das modas, esquecidas de si próprias no doce enleio da amizade, Honorina e Raquel se dispunham para encetar a conversação que tanto desejavam; e, todavia, ainda em silêncio se conservavam, e já uma vez tinha cantado o galo.
O silêncio de Honorina não era difícil de explicar-se: havia nela por força todo esse belo receio, todo esse encantador acanhamento de virgem, que, quando ama pela primeira vez, hesita e treme ao falar de seus sentimentos à própria amiga de seu peito, e até cora, quando pensa consigo mesma... nele.
Mas Raquel?... a jovial e feliz Raquel, por que não compreende a hesitação da pobre Honorina?... por que também docemente melancólica deixa ir correndo assim a noite?...
O galo cantou segunda vez; e Honorina, como para a todo custo dar princípio à conversação, disse:
— Que dia! Raquel, que dia enfadonho passamos!...
— Eu o sinto, Honorina; melhor valera se sós o tivéssemos gozado.
— Oh! é verdade... e tanta gente... e esses homens!
— Que te perseguiram, não é assim?...
— É que eu sou bem infeliz, Raquel; não bastava Otávio, que me diz tantas coisas; que me obriga a ouvi-las; que se enche de esperanças, que eu não alimento!... eram precisos ainda mais dois que me atormentassem todo o dia com suas loucas palavras e ridículas ações!... — E que remédio tem uma mulher, senão às vezes deixar-se requestar por tolos?... quem diz tolo, diz vaidoso.
— Oh! mas é necessário ter ou vaidade de mais, ou então um espírito muito miserável, para que eles não compreendam que eu desprezo formalmente seus obséquios!
— Porém, quem te manda desprezá-los?... pelo menos podias animar o velho... um velho namorado, Honorina, serve muito para a gente rir-se...
— É... que... eu não posso rir-me!...
— Por que, Honorina?...
— Raquel!... exclamou a moça, escondendo por instantes o rosto no seio da sua amiga.
— Fala, Honorina; desafoga-te comigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.