Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Entretanto eram ambos liberais moderados, notáveis e ilustrados pensadores, que após a dissolução da Constituinte provavelmente entenderam que o seu dever de patriotismo exigia deles o sacrifício da popularidade que gozavam, em proveito e no interesse da monarquia constitucional representativa, que fora e era o sistema de governo de suas idéias políticas.
A história começou já a fazer justiça aos varões ilustres maljulgados pelas paixões da época.
Em frente à casa do Visconde da Cachoeira, ou do Hotel Ravot, vê-se uma outra de duas portas e de dois pavimentos, atualmente ocupada por loja francesa de toilettes.
Foi nesse modesto ubi que se fundou em maio de 1869 a Reforma, órgão do partido liberal em oposição.
Como já ficou dito, Sabino Reis, finado este ano em Paris, foi o gerente e dedicadíssimo administrador da Reforma que lhe deveu sacrifícios de tempo, de atividade e de dinheiro.
Tenho saudades da primeira época daquele diário político liberal que iniciou na sua redação a prática generosa de ser cada artigo assinado pelo seu autor: nem uma só vez deu-se abuso ou dissimulo do próprio nome com o empréstimo de alheio; nem um só dos escritores liberais recuou jamais ante a responsabilidade das suas idéias e do seu esgrimir na polêmica séria, enérgica e às vezes ardente com os adversários. Estava também sistemática ou consequentemente assentado que, dada a hipótese de responsabilidade efetiva de qualquer artigo, o seu autor se apresentasse pronto a sujeitar-se à ação da lei.
Essa prática não pôde resistir por muito mais de ano à luta desigual com os anônimos da imprensa adversária. A Reforma seguiu seu caminho prestando serviços, como ainda presta, ao partido liberal, de que é órgão na imprensa; mas eu creio que ela não teria a influência que teve e tem entre os liberais do Império, se não rompesse logo em maio de 1869, ganhando incontestável força moral com os seus artigos todos assinados por escritores liberais, todos bem conhecidos e todos tomando a responsabilidade legal de suas idéias, e do modo ou da forma com que menos ou mais fervorosos as expunham e pregavam.
Este capítulo saiu-me quase todo cheio de reminiscências políticas, de que, suponho-o, os meus leitores gostam menos do que de tradições de outro gênero.
Mas a Rua do Ouvidor é de todas as da cidade do Rio de Janeiro a mais leviana e a mais grave, a mais mentirosa e a mais verdadeira, a mais absurda e a mais profética rua política; rivaliza nesse ponto com a nossa Praça do Comércio, e, portanto, era de indeclinável dever meu registrar nestas Memórias as suas casas notáveis em relação à política.
CAPÍTULO 17
Como depois de saudar de antemão o termo da nossa viagem pela Rua do Ouvidor, paramos em frente da imensa loja de modas Notre Dame de Paris, encontramos nela compreendida a antiga e pequena casa célebre que foi loja de papel e de objetos de escritório do Passos, republicano inofensivo, mas inabalável, de cuja velha mesa de pinho na saleta do fundo ainda muita gente há de lembrar-se: como em seguida as recordações do Passos, trata-se por exceção da grande loja de modas composta de lojas confederadas com sala central, armazém no fundo, sobrado por cima, portas de entrada e de saída, aqui, ali, e acolá, e tudo de modo a tornar indispensável uma cana topográfica para uso dos fregueses, e a propósito conta-se a história ingênua de Alexandre e de Elvira, dois noivos namorados que andaram mais de uma hora perdidos um do outro na loja de modas Notre Dame de Paris. E com essa história põe-se o suspirado ponto final nas Memórias da Rua do Ouvidor.
Haja alegria!...
Hoje, sim, chega definitivamente a seu termo a nossa viagem pela Rua do Ouvidor.
Ainda em frente da casa do Visconde da Cachoeira e do atual Hotel Ravot ostenta-se conquistador de antigos humildes tetos o - armazém - ou bazar - ou loja lojíssima de modas denominada - Notre Dame de Paris.
Por exceção nas minhas abstenções de coisas e casas da atualidade, terei de contar uma história ingênua, de que foi teatro inocente essa loja lojíssima, que ainda ninguém calcula onde irá parar em suas conquistas ao norte, a sul, a leste e a oeste.
Agora lembrarei que a segunda porta e nos limites do segundo departament atual, e pouco mais de 20 anos assento ali inicial daquela Notre Dame de Paris, pouco antes era célebre pequena casa térrea de duas portas para a Rua do Ouvidor e de fundo muito limitado.
Desde anos antes de 1840 até depois de 1853, com certeza, essa casa térrea apresentava simples muito simples loja de papel e de objetos de escritório, e onde também se vendiam, com regular porcentagem, periódicos políticos, somente, porém, os do partido liberal.
Não sei bem donde provinha esse exclusivismo, se da intolerância do proprietário da loja, se da antipatia ou também da intolerância dos conservadores. É provável ou quase certo que as duas intolerâncias contribuíssem para o fato.
Era essa a célebre loja do Passos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.