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#Romances#Literatura Brasileira

Esaú e Jacó

Por Machado de Assis (1904)

Flora não disse nada, mas sentia o contrário do pai e da mãe. Pensar, não pensou — ia tão atordoada com a vista dos rapazes que as idéias não se enfileiraram naquela forma lógica do pensamento. A própria sensação não era nítida. Era uma mistura de opressivo e delicioso, de turvo e claro, uma felicidade truncada, uma aflição consoladora, e o mais que puderes achar no capítulo das contradições. Eu nada mais lhe ponho. Nem ela saberia dizer o que sentia. Teve alucinações extraordinárias.

Agora o que é mister dizer é que a idéia da hospedagem cabe toda aos dous jovens doutores. Que eles eram já doutores, posto não houvessem ainda encetado a carreira de advogado nem de médico. Viviam do amor da mãe e da bolsa do pai, inesgotáveis ambos. O pai abanou as orelhas à lembrança, mas os gêmeos insistiram pelo obséquio, a tal ponto que a mãe, contente de os ver de acordo, saiu do silêncio e concordou com eles. A idéia de ter a pequena ao pé de si, por alguns dias, e discernir qual era o melhor aceito, e o que deveras a amava, pode ser que também influísse na adoção do voto, mas não afirmo nada a tal respeito. Também não asseguro que tivesse grande gosto em agasalhar a mãe e o pai de Flora. Não obstante, o encontro foi cordial de parte a parte. Foi um abraçar, um beijar, um perguntar, um trocar de mimos que não acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra cor, outro ar. Flora era um encanto para Natividade e Perpétua — nenhuma destas sabia aonde iria parar aquela moça tão senhoril, tão esbelta, tão...

—Não digam o resto, interrompeu a moça sorrindo; eu tenho a mesma opinião.

Santos recebeu-os, à tarde, com a mesma cordialidade, — talvez menos aparente, mas tudo se desculpa a quem anda com grandes negócios .

—Uma idéia sublime, disse ele ao pai de Flora; a que lancei hoje foi das melhores, e as ações valem já ouro. Trata-se de lã de carneiro, e começa pela criação deste mamífero nos campos do Paraná. Em cinco anos poderemos vestir a América e a Europa. Viu o programa nos jornais?

—Não, não leio jornais daqui desde que embarquei.

—Pois verá!

No dia seguinte, antes de almoçar, mostrou ao hóspede o programa e os estatutos. As ações eram maços e maços, e Santos ia dizendo o valor de cada um. Batista somava mal, em regra; daquela vez, pior. Mas os algarismos cresciam à vista, trepavam uns nos outros, enchiam o espaço, desde o chão até às janelas, e precipitavam-se por elas abaixo, com um rumor de ouro que ensurdecia. Batista saiu dali fascinado, e foi repetir tudo à mulher.

CAPÍTULO LXXVIII

VISITA AO MARECHAL

D. Cláudia, quando ele acabou, perguntou-lhe com simplicidade:

—Você vai hoje ao marechal? Batista, caindo em si:

—Naturalmente.

Tinham ajustado que ele iria ter com o presidente da República explicar-lhe a comissão que exercera, toda reservada, e, sem embargo, imparcial. Diria o espírito de concórdia com que andou e a estima que adquiriu. Em seguida, falaria da conveniência de um governo que, pela fortaleza e pela liberdade, excedesse o do generalíssimo; e uma frase final bem estudada.

—Isso na ocasião, disse Batista.

—Não, é melhor levá-la feita. Eu lembrei-me desta: "Creia V. Exa. que Deus está com os fortes e os bons".

—Sim, não é má. Você pode acrescentar um gesto que indique o Céu.

—Isso é que não. Você sabe que eu não dou para gestos, não sou ator. Eu, sem mexer um pé; inspiro respeito.

D. Cláudia dispensou o gesto; não era essencial. Quis que ele escrevesse a frase, mas lá estava de cor. Batista tinha boa memória.

Naquele mesmo dia. Batista foi ao Marechal Floriano. Não disse nada às pessoas da casa; contaria tudo na volta. D. Cláudia também calou, era por pouco tempo; ficou esperando ansiosa. Esperou duas mortais horas, chegou a imaginar que lhe tivessem encarcerado o esposo, por intrigas. Não era devota. mas o medo inspira devoção, e ela rezou consigo. Enfim, chegou Batista. E]a correu a recebê-lo, alvoroçada, pegou-lhe na mão e recolheram-se ao quarto. Perpétua (vede o que são testemunhos pessoais na história!) exclamou enternecida: — Parecem dous pombinhos!

Batista contou que a recepção foi melhor do que esperava, conquanto o marechal não lhe dissesse nada, mas escutou-o com interesse. A frase? A frase saiu bem, apenas com uma emenda. Não estando certo se ele preferia bons a fortes, ou se fortes a bons...

—Deviam ser as duas palavras, interrompeu a mulher.

—Sim, mas lembrou-me empregar uma terceira: "Creia V. Ex.a que Deus está com os dignos!"

Com efeito, a última palavra podia abranger as duas, e trazia esta vantagem de dar à frase um arranjo pessoal dele.

—Mas o marechal que disse?

—Não disse nada, ouviu-me com atenção obsequiosa e chegou a sorrir, — um sorriso leve, um sorriso de acordo...

—Ou seria... Quem sabe... Você não andou bem, decerto. Comigo ele diria alguma cousa. Você expôs tudo, conforme tínhamos combinado?

—Tudo.

—Expôs as razões da comissão, o desempenho, a nossa moderação?...

—Tudo, Cláudia.

—E o aperto de mão do marechal?

(continua...)

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