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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Quando ficara só com o padrinho e os remadores na galeota de negócio, dera-lhe uma grande dor de perder o seu arco de caça, as suas belas flechas empenadas, o cavalo de campo, a corda de laçar bois, o belo chapéu de couro com que o haviam presenteado no seu último aniversário natalício. Que funda saudade daquela vida livre de campônio desocupado, enquanto a galeota singrava as águas ao som cadenciado dos remos! E depois, quando chegara ao Pará, ao cair da noite, deslumbrado pelos centenares de luzes da grande cidade ativa, quando pernoitara na casa do Filipe do Ver-o-peso, estranhando a cama, a linguagem, os hábitos todos, quando entrara afinal no Seminário, numa grande sala branca e nua, à hora do almoço, tropeçando no limiar com os seus sapatos grossos de Igarapé-mirim, e provocando o riso zombeteiro de algumas dezenas de rapazes famintos e hostis, a negra saudade da sua vida passada o acompanhava, fazendo-o alheio a tudo que o cercava. No correr dos tempos, na marcha gradativa do seu espírito, nas horas de desalento, quando a atenção cansada do agro labor dos estudos repousava na contemplação de um cantinho qualquer da natureza, entrevisto através das vidraças poeirentas do Seminário, a pungente saudade o torturava ainda e o perseguia sempre, no intervalo de projetos ambiciosos, no fim das meditações filosóficas e dos arroubos de entusiasmo místico que entrecortavam a sua existência, toda feita de lutas íntimas e de ansiedades dolorosas. E agora que soube os ardores da mocidade impetuosa passara a calma da reflexão e das conveniências, agora que a realidade desconsoladora e fria devera ter sopitado aquele amor invencível de um passado morto, e a idade, a posição, o hábito que vestia e o destino que a si mesmo traçara, deviam trazer-lhe o completo esquecimento das sensações da infância, voltavam as recordações de chofre, e os quadros da meninice, reaparecendo com todo o brilho e frescura dos tempos idos, de novo e com maior força ainda, evocavam idéias, sentimentos e sensações que em tropel confundiam-se no seu cérebro, e davam-lhe um apetite monstruoso de ar, de gozo, de liberdade sem peias, pondo-o numa espécie de demência, como se um perfume sutil o entontecesse...

O dia ia passando. O ruído cadenciado dos remos, durante horas a fio, embalava o sonho de padre Antônio de Morais. O sol do Amazonas punha cintilações de cobre polido na superfície do rio e aquecia a igarité, cuja tolda de palha dava estalidos secos ao leve balanço que o movimento lhe imprimia.

Macário acordou com a luz do sol a requeimar-lhe o rosto. Mal embarcado adormecera, reatando o sono interrompido, mas agora, tendo completado a sua conta, despertava bem disposto, e achando-se deitado sob a tolda da igarité, vendo a batina do vigário caindo da coberta, e pelas costas as camisas de riscado dos dois remeiros, não pode deixar de pensar com um sorriso de malícia no modo por que a sua diligência conseguira pôr em caminho de realização o sonho extravagante de padre Antônio de Morais.

Depois que o vigário havia recusado o oferecimento do Totônio Bernardino, Macário vira-se novamente entalado entre as pilhérias do Chico Fidêncio e as instâncias do sacerdote que falara em procurar um companheiro mais ativo do que o Macário e menos criança do que o Totônio Bernardino. Havia nas palavras de S. Rev.ma uma referência clara àquele bêbado do José do Lago, que ia visivelmente ganhando terreno. Felizmente Macário tivera uma concepção luminosa, em que punha à prova o seu tão estimado maquiavelismo, salvador das apuradas circunstâncias em que se via. O passo era realmente digno de um rapaz inteligente, de uma sagacidade rara. Tratava-se de satisfazer o senhor vigário, facilitando-lhe os meios de sair da vila, na intenção de dirigir-se ao porto dos Mundurucus, mas era preciso prever o caso, embora improvável, de perseverar padre Antônio naquela loucura de catequese, a qual, era coisa decidida, deveria cessar nos três primeiros dias de viagem,' quando S. Rev.ma se visse sem o belo cômodo da macia rede de linho, sem o pãozinho fresco pela manhã, barrado de alva manteiga inglesa, regado por um delicioso café com leite, feito à moda de padre José, nutriente e espesso. Padre Antônio não resistiria às saudades de tanta coisa boa, todavia era preciso estar de prevenção; S. Rev.ma era um homem diferente dos outros, tinha alguma coisa de esquisito e trazia ultimamente no olhar a fixidez absorvente de uma idéia.

(continua...)

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