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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Teresa de Jesus! – murmurou ele, com um suspiro, que lhe assomou aos lábios, como um silvo de tormenta – Já pedi a Deus que perdoasse os seus pecados. Estes santos, que nos acompanham, sabem que rezei por ela, como um pai reza por uma filha ingrata, perdida e morta.

Ao choque destas palavras de condenação implacável, Teresinha cambaleou, e caiu prostrada de dor, nos braços da mãe angustiada.

Maria da Graça contemplava, muito aflita, o pai e a mãe, e, no transe incompreensível, considerava a intensidade da cena, dolorosa, inconsiderável.

— É nossa filha, seu Marcos – continuou a velha, acariciando a filha e conchegando-a ao seio. – Tenha dó dela, meu marido do coração! Veja como está acabada a nossa filhinha!...

— Você sabe, mulher – gemeu Marcos – que já padeci por ela todas as dores deste mundo...

— Também ela tem sofrido... É uma infeliz...

— Infeliz! assim foi de sua vontade...

— Seu Marcos...

— Sabe que mais, mulher? Vamos cuidar deste pobre animal, nosso amigo velho, que não nos abandonou e está aqui morrendo por nossa causa ... Ah! os bichos têm, às vezes, mais coração que as criaturas.

— Meu pai! – soluçou Teresinha, como se as duras palavras lhe estrangulassem as entranhas.

Ele, porém, parecia intangível. A súplica da filha, queixumes de alma penitenciada a estorcer-se no silício da vergonha não ecoou no coração, donde ele arrancara, num paroxismo de opróbrio, a poluída imagem da pecadora, que não podia volver a profanar o tabernáculo do culto incondicional à honra e à integridade da família. No peito lhe ficara um buraco lúgubre, o ninho vazio transformado em cova, encerrando, para sempre, um sublime afeto estiolado.

A um gesto imperativo do pai, Maria da Graça, despertada da estupefação que lhe gelava o sangue nas veias, o ajudou a desatar a trouxa de redes, as azenhas dos dois baús, cobertos de coiro cru e tauxiados de pregos doirados e, por último, as cilhas da cangalha que, retirada do suarento dorso do burro, lhe expôs as mataduras da espinha, as chagas rubras dos omoplatas, sobre as quais vieram adejar, zumbindo, grandes varejeiras, de asas nacaradas e revestidos de cintilantes coiraças, oxidadas de verde metálico. No espaço voavam, em largas espirais, urubus famintos, dos quais alguns mais ousados se despenhavam, de asas quase fechadas, até perto dos rochedos, onde poisavam, aguardando o abundante repasto da carniça ainda viva.

Macaco, aliviado da carga, tentava erguer-se sobre as pernas dianteiras, rolando um olhar de terror para os lúgubres pássaros, que pontuavam de negro as arestas das rochas, mas, faltavam-lhe as forças e recaia ofegante.

— Se ao menos – dizia Marcos – houvesse por aqui uma pouca d'água e alguns retraços...

Clara, indiferente à sorte do animal, acariciava e consolava a filha desditosa:

— Tem paciência, meu coração. Teu pai tem ímpetos de crueldade, mas passam, porque a alma é de oiro. Coitado! Sofreu tanto por ti...

— Tem razão... tem razão, mamãe – gemia Teresinha. – Sou uma ingrata, uma doida, mas... assim mesmo... não sou tão ruim que mereça menos compaixão que este animal...

E entrou a chorar em convulsão, murmurando frases inteligíveis, que o pranto e os soluços entrecortavam.

— Seu Marcos, meu marido da minha alma – suplicava a mãe. – Tenha pena desta pobre.

— Ah! papai – balbuciou, trêmula, Maria da Graça – tenha compaixão dela... Coitadinha de Teresa...

— Era melhor – resmungou o velho, abalado pelas lágrimas da mulher e da filha caçula, que era o seu ídolo. – Melhor seria que essa mulher, em vez de estar ai a chorar, ela que conhece a cidade, nos ajudasse, mostrasse que ainda tem préstimo...

Teresinha ergueu-se de repente; enxugou o rosto na saia e partiu. Sabia que Rosa Veado morava perto, no renque de casas da Leonor, e foi procurá-la, seguida pelos olhares da mãe e irmã, tomadas de surpresa, ao passo que o velho teimava em reanimar o burro com palavras afetuosas.

Pouco depois ela voltou, trazendo uma grande cuia cheia d'água... Pressentindo o precioso líquido, Macaco nitriu surdamente, como se sorrisse de satisfação; ergueu a cabeça e, agitando os grandes lábios negros e ávidos, a sorveu, a longos, a ruidosos tragos.

— Deus lhe pague – disse o velho, restituindo a Teresinha, cuia vazia. – Disseram-me que era possível encontrar aqui uma, pousada, um tecto caridoso, onde pudéssemos descansar da viagem através desse sertão ingrato.

— Deram-me – balbuciou Teresinha, hesitante de medo – chave daquela casa, a casa da fortaleza, onde ninguém mora há muitos anos, porque é malassombrada...

— Virgem Maria!... Credo! – exclamaram Maria da Graça e Clara, numas projeções espavoridas de olhos sobre a velha prumada, cujas paredes, esburacadas e marcadas de grande reboco, pareciam apoiadas nos rochedos. Ervas morta das goteiras desdentadas, donde esguichavam piando, em desordenado vôo, grandes morcegos, estonteados pela tênue luz crepuscular.

(continua...)

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