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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Passava já de meia-noite. A cidade tinha o caráter especial das vésperas de São João: viam-se restos de fogueiras fulgurando ao longe, em diversos pontos, de quando em quando ouviam-se estalos destacados. Raimundo tomou a direção das Mercês. “Seria crível, pensava pelo caminho, que estivesse deveras enfeitiçado por sua prima?... ou seria tudo aquilo uma dessas impressões passageiras, que nos produz em dias de bom humor um rosto bonito de moça?... Verdade era que nunca se sentira tão preocupado por outra mulher.”

— Em todo o caso, concluiu ele, convém dar tempo ao tempo!... Nada de precipitações!

Assim raciocinando, no anteposto do seu casamento provável com Ana Rosa, chegou à casa das Sarmentos.

Nessa ocasião reuniram-se aí as velhas amizades da defunta, prevenidas logo do triste acontecimento pelos empregados de Manuel. O enterro seria no dia seguinte à tarde. Os conhecidos do comercio mandaram lá os seus caixeiros para ajudarem a encher as cartas de convite e fazerem quarto. Chamou-se logo um armador, para preparar a casa, conforme o uso da província; falou-se a um desenhista para fazer o retrato do cadáver - tomou-se medida e encomendou-se o caixão; discutiu-se a vestimenta que devia levar Maria do Carmo, e resolveu-se que seria a de Nossa Senhora da Conceição, por ser a mais bonita e vistosa. Amância ofereceu-se prontamente para talhar a roupa. “Que não valia a pena encomendá-la ao armador, sobre vir malfeita e mal cosida, sairia por um dinheirão!”

— Não sei! dizia ela. Todas estas coisas pra enterro custam sempre quatro vezes mais do que podem valer! É uma ladroeira descarada! Por isso enriquecem tão depressa os armadores! diabo dos gatunos!

Desta vez a velha tinha razão.

Mandaram comprar cetim cor-de-rosa, azul e branco, sapatinhos de baile, escumilha e filó para o véu, que seria franjado de ouro. Uns teimavam que a morta devia levar um ramalhete de cravos na mão, outros negavam, considerando, nem só a idade da defunta, como o seu estado de viúva. E choviam exemplos de parte a parte:

— Outro dia D. Pulquéria das Dores apesar dos seus sessenta anos, levou na mão um enorme ramo de rosas vermelhas! E demais, era casada.

— E o que tem isso?! D. Chiquinha Vasconcelos foi de caixão aberto, porém não levava ramalhete, e, até digo-lhe mais, nem palma nem capela! no entanto era solteira e tinha a metade da idade de D. Maria do Carmo.

— Mas ia com as faces pintadas de carmim, que é muito pior! Ora aí está!... Além disso, dizia-se da Chiquinha o que todos nós sabemos. Deus me perdoe!

Uma mulata obesa cortou o nó górdio da questão, declarando que o ramalhete bem podia ir escondido por debaixo do hábito. Todos concordaram logo.

Deu Uma hora. Vários caixeiros retiraram-se já com um maço de cartas, que entregariam pela manhã; algumas famílias, vestidas de preto, despediam-se com beijos, pedindo desculpa por não ficarem ate à hora do enterro. O armador martelava na sala. A noite cala no silêncio ouvia-se um ou outro busca-pé retardado. Na n a, grupos pândegos passavam em troça para o banho de São João do Alto da Carneira vinha um sussurro longínquo de “bumba-meu-boi”. Cantavam os primeiros galos; cães uivavam distante, prolongadamente; no céu azul e tranqüilo uma talhada de lua, triste sonolenta mostrava-se como por honra da firma, e, todavia, um homem, de escada ao ombro, ia apagando os lampiões da rua.

Raimundo parara um instante olhando o mar, defronte da casa das Sarmentos. À porta de entrada havia um grande reposteiro de veludo negro, com uma cruz de galões amarelos. Ele considerou o prédio: era um casarão velho, um desses antigos sobrados do Maranhão, que já se vão fazendo raros. Cinqüenta palmos de alto e outros tantos de largo, barra pintada de piche, mostrando a caliça em vários pontos, cinco janelas de peitoril, enfileiradas sobre quatro portas lisas, com um portão entre elas, pesado, batente de cantaria; cheirando tudo a construção dos tempos coloniais, quando a pedra e a madeira de lei estavam ali a dois passos e se levantavam, em terrenos aforados, paredes de uma braça de grossura e degrau de pau santo.

Entrou. O corredor transpirava um caráter sepulcral. Subia-se uma escada feia, acompanhada de um corrimão negro e lustrado pelo uso; nas paredes, via-se, à insuficiente claridade de uma lanterna suja, o sinal gorduroso das mãos dos escravos, e no teto havia lugares encarvoados de fumaça.

(continua...)

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