Por Aluísio Azevedo (1895)
- Prejuízo? Em que? Recebo porventura alguma coisa das mãos dele? Exijo algum sacrifício?
- Não, mas perturba...
- Perturbo? Como?
- Perturba a vida de Teobaldo. Olhe, enquanto a senhora estiver aqui, ele não voltará à casa e, como sabe, isto é já um sério transtorno para quem precisa cuidar do futuro... - Qual! Ele se não vem para casa, é porque anda lá por fora na pândega! Encontra por lá em que se divertir!
- Juro-lhe que se engana...
- A mim não embaçam!
- E ninguém pensa em tal; a senhora é quem procura iludir-se; já devia ter percebido que Teobaldo não está agora em circunstâncias de a tomar a seu cargo...
- Porque tem outras!
- Não sei; isso é lá com ele.
- É um ingrato!
- Pode ser.
- Um cínico!
- Não acho.
- Você é tão bom como ele!
- Quem me dera.
- Uma corja, ambos! - São opiniões! - Dois imbecis - Talvez...
- Dois idiotas!
O Coruja não replicou mais e pôs-se a passear ao comprido do quarto, muito aborrecido com o insucesso das suas palavras.
Depois, tendo ido e revindo mais de vinte vezes, voltou-se de novo para Ernestina: - Mas a senhora por que não se vai embora? É muito melhor... Em casa nada lhe falta, tem tudo! Vá! deixe em paz o meu amigo...
- Não deixo!
- Mas isso não é justo... Que interesse tem a senhora em fazer semelhante coisa...
- Não sei! Ele é o homem que eu amo, acabou-se!
- E que culpa tem ele disso, coitado?
- Não sei. Amo-o!
- Pois não o ame...
- Não posso.
- Ou, se o ama, não queira fazer-lhe mal.
- Ele que não faça a mim!
- Ele? ele não lhe faz mal.
- Como não? Pois o senhor ainda acha pouco? Pois então eu desço da minha dignidade e venho procurá-lo aqui; ponho-me aos pés dele, declaro que estou disposta a ser uma escrava, se ele me tratar com carinho, e a única resposta que recebo é um coice?
- Coice!
- Decerto; quando um homem faz com uma mulher o que Teobaldo faz comigo, dá coices! - Mas, perdão, minha senhora, Teobaldo falou-lhe com toda a franqueza. A senhora apresentou-lhe um contrato, não é verdade? pois bem, ele não o aceitou. A senhora é que faz mal em, no lugar de retirar-se dignamente, ficar aí dias inteiros e fazer o que tem feito..
- Não saio! Pode dizer o que quiser, é inútil; não saio!
- Mas há de convir que com isso pratica uma arbitrariedade. Teobaldo não lhe deve nada...
- Deve-me tudo! deve-me dedicação e amor!
- Mas os sermões, quando não são encomendados...
Nisto, o diálogo foi interrompido pelo barulho de um carro que parava à porta da rua. E logo em seguida ouviram-se ligeiros passos no corredor e uma voz de mulher, que gritava:
- O Teobaldo ainda mora aqui?
Coruja correu na direção da voz, enquanto Ernestina se instalava na poltrona, afetando ares de dona de casa e dizia com todo o desembaraço:
- Entre, quem é?
Leonília apareceu à porta do quarto, hesitante; olhou em torno de si, como quem receia haver-se enganado:
- Desculpe, mas supunha que ainda morava aqui um rapaz que procuro...
- Teobaldo?
- Justamente.
- É aqui mesmo, respondeu Ernestina. Que deseja dele?
- Desejo falar-lhe. A senhora vem a ser...
- O que não é da sua conta. Se tem algum recado a deixar, eu me encarrego de transmitilo a Teobaldo.
- A senhora então é a mulher dele?... perguntou Leonília, cuja impaciência principiava a denunciar-se.
- Não, não é! apressou-se a afirmar o Coruja, que parecia muito aflito com a situação. Não é mulher dele, não senhora.
- Quando digo - mulher - quero dizer: amante. Sei que ele não é casado...
- Também não é amante... respondeu aquele, a despeito dos olhares que lhe lançava Ernestina.
- É talvez uma criada...
A outra, então não resistiu mais, e veio colocar-se defronte de Leonília, a medi-la de alto a baixo, como se quisesse fulminá-la com os olhos.
A cortesã soltou urna risada.
- Também não é criada?... disse. Então que diabo é... Ah! já sei... talvez alguma parenta da província!
- Não, não respondeu André.
- Será simplesmente uma amiga? perguntou ainda Leonília.
- Previno-a, acudiu a outra, de que não admito debiques para o meu lado!
- Não, filha, eu apenas desejo saber a quem tenho de confiar o que trago para Teobaldo. Encontrei a senhora aqui, com ares de dona de casa, pergunto-lhe muito naturalmente se é mulher dele, ou amante, ou parenta, ou quando menos urna criada, e a senhora fica dessa forma e parece que me quer comer viva! Se alguém deve estar aborrecida sou eu, porque, no fim de contas venho fazer uma visita e, das duas uma: ou a senhora representa a dona da casa e neste caso devia ser mais cortes, ou não representa coisa alguma e por conseguinte devia ser menos intrometida...
- Isso é desaforo!
- Será, mas é um desaforo justo e merecido; quanto à decepção que acabo de sofrer, não é com a senhora que me avenho, pois nem a conheço, mas sim com Teobaldo, que me ofereceu a casa e é o único responsável por esta sensaboria.
Mal acabava Leonília estas palavras, quando se ouviu parar na rua um tílburi, e logo no corredor os passos de Teobaldo.
- E ele aí está, acrescentou ela, dirigindo-se para a porta da sala, o que fez com que o Coruja não tivesse tempo de prevenir o amigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.