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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— É que V. Exa. pode perder-se...

— Não deve ser tanto assim, replicou ela.

— Todavia, é bom não se fiar muito, minha senhora! volveu o padre, pondo intenção nas suas palavras.

— Não tenho medo! disse Olímpia, sacudindo os ombros. E resolveu que depois do almoço faria uma excursão à gruta. Gregório ofereceu-se logo para acompanhá-la.

— Aceito com muito prazer, respondeu ela, agradecendo-lhe o oferecimento. Outras pessoas aderiram em seguida à idéia, e ficou decidido o passeio.

— Queira Deus que te não suceda alguma coisa!... observou o pai de Olímpia, assim que a pilhou só. Tu andas fraquinha, minha filha; não deves abusar muito!...

— Ora! redargüiu ela, sacudindo os ombros; não hei de morrer de velhice!... Além de que, o médico me aconselhou fazer exercício!...

— Mas não indo à tal gruta, que, ouvi dizer, é muito longe daqui e quase inacessível!

— Não deve ser tanto assim!...

E às duas horas puseram-se todos a caminho. O comendador não resistiu ao desejo de acompanhar a filha; mas, depois de subir uns duzentos passos, já não podia ir adiante e debalde procurava convencê-la de que devia voltar com ele. Olímpia, apesar de muito cansada, declarou que o pai queria um absurdo, e continuou a excursão.

O comendador ainda tentou prosseguir na viagem, mas toda a sua boa vontade foi inútil. Assentou-se por terra com outros companheiros que haviam desistido igualmente, e pouco depois voltava com estes para casa.

Só três não desistiram: Olímpia, Gregório e o Augusto.

Este último ia à frente rompendo a marcha, o que aliás pouco lhe custava, graças à destreza de que dispunha e ao seu vivo instinto de fragueiro. Às vezes o caminho se fechava de todo ou tomava uma direção despercebida à primeira vista, Augusto suspendia-se então por um cipó, ou singrava por entre o mato, gritando pouco depois aos companheiros.

— Tomem a esquerda! Cá está o caminho! Cuidado com os espinhos à direita!

Outras vezes era a ladeira que se fazia mais íngreme, e Augusto tinha de improvisar um corrimão para que os outros dois a pudessem galgar.

E, só depois de muito matejar, foi que os três chegaram a um ponto mais elevado da montanha, planalto que se debruçava pitorescamente sobre um vale profundo e sombrio.

— É ali em baixo a gruta! exclamou Augusto, apontando para a várzea. — preciso agora descobrirmos a descida. Ah! ei-la! Por aqui! por aqui! Cuidado no sentar o pé, porque esta pedra escorrega muito!

Gregório dava a mão a Olímpia, para ajudá-la a descer. Ela quase não falava por toda a viagem, mas sentia um grande encanto em tudo aquilo. Nunca fizera um passeio tão penoso e tão agradável; nunca houvera visto de perto os rebentões das matas, formando os mais caprichosos arabescos; nunca se penetrara desse ar embalsamado dos campos, que nos alegra o sangue e nos faz amar a natureza; nunca ouvira os sons eólios da floresta, que nos despertam na alma as notas adormecidas da infância; nunca bebera a luz do sol depois de filtrada por uma abóbada de verdura, e nunca ouvira tão perto o concerto amoroso dos pássaros e o crepitar harmonioso das folhas secas estalando ao sol.

Ao chegarem ao fundo sombroso do vale, Olímpia não pôde conter a comoção. Era um lugar ameno, misterioso, cheio de encantos. De lá não se via a terra nem se via o céu; tudo era verdura. O chão desaparecia, alastrado pelas trapoerabas, que recamavam a grama com as suas mimosas florzinhas azuis. Das árvores só se viam as grandes copas aveludadas, porque os troncos desciam obliquamente dos montes que sitiavam o vale; algumas se equilibravam de cima, presas pelos pés, como enormes ramalhetes voltados para a terra. As infinitas trepadeiras, as caprichosas parasitas vingavam e serpenteavam por todos os lados, como se quisessem enastrar interiormente aquele ninho ideal de verdura pelo modo por que fazem os pássaros seus ninhos.

Por todos lados rebentavam flores, por todos lados se penduravam cipós, entrelaçados de avenca, e se agitavam as palmas esteadas dos coqueiros, forcejando para romper por entre as largas palhetas dos tinhorões e as línguas espinhosas da babosa.

A luz do sol só penetrava naquele doce interior de verdura depois de peneirada pela folhagem, pálida e amortecida como a claridade melancólica de um crepúsculo.

Os três excursionistas estacaram sem dar palavra, inteiramente dominados pelo religioso aspecto daquele rústico santuário panteísta. Tudo ali respirava uma grande paz, que ia, pouco a pouco, voltando nossos olhos para Deus, chamando nossos joelhos para a terra e nos abrindo o coração aos êxtases da prece.

Depois de mais alguns instantes de mística contemplação, os três seguiram para a gruta.

(continua...)

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