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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

E nesse mesmo dia, o Borges, logo que pilhou o Imperador, foi-se atravessando defronte dele e dizendo abertamente que não podia aceitar o cargo de superintendente, mas que designava o Guterres para o substituir.

— É um pouco difícil de contentar seu marido! observou D. Pedro a Filomena, quando se encontrou com ela.

— Não sabia que era tão exigente!

— Exigente?!... perguntou a baronesa.

— Não se dá por satisfeito com o cargo que lhe ofereci. E, no entanto, agora é quase impossível dar-lhe coisa melhor!...

Filomena surpreendeu-se muito agradavelmente com essas palavras do monarca: — Pois seria possível que o Borges já fizesse daquilo?... Ah! Não julgava que o marido fosse capaz de um rasgo de ambição!

— Bravo! bravo! aplaudiu ela consigo. E tratou logo de confirmar a opinião do esposo. — No fim de contas, ele não deixa de ter alguma razão, coitado! Vossa Majestade há de concordar que o tal cargo é muito insignificante para um homem de aspirações e de talento! Superintendente! Ora, que vale isso!

Bom! bom! Já sei! já sei o que devo fazer enquanto não lhe arranjo melhor emprego! Vou trocar-lhe o título por outro, por um título brasileiro e mais alto — vou fazê-lo visconde! Não ficará ele satisfeito?!

Filomena apressou-se a beijar a mão de seu augusto padrinho: — Oh! Vossa Majestade é magnânimo!

— Engana-se! Não sou: — faço-me, para dar-lhe o exemplo disse o monarca piscando o seu olho azul do lado esquerdo.

Mas teve logo de disfarçar, porque alguém se aproximava.

CAPÍTULO XXI

TORNIQUETES

Foram inúteis todos os novos esforços do Borges para recusar o cargo. Teve de entrar logo em exercício de suas funções.

Ora a minha vida! lamentava ele, sozinho, a espacear pela quinta do Imperador. Ter de entrar na carreira pública depois dos cinqüenta anos de idade!

Esta só a mim sucede!

Sua Majestade não tardou a puxá-lo bem para junto de si fazê-lo dos do seu peito. E, com enorme espanto do Borges, chegava a consultá-lo em questões completamente estranhas ao pobre homem. Ás vezes, pedia-lhe conselhos.

— Homem, majestade!... para falar com franqueza, eu...

— Já sei, já sei! Não lhe é simpático o negócio! Eu também sou quase desse parecer...

Perdão, perdão! não é isso!... mas é que...

E o Borges, a contragosto, ia pesando nas coisas do Estado, ia-se articulando às engrenagens do governo, ia-se deixando invadir secretamente por todas as sutilezas da política.

Eu, jurava ele com os seus botões — eu, quando menos o esperarem, fujo!

desapareço por uma vez, e ninguém saberá para onde fui! Posso lá com semelhante modo de vida!

Não obstante, quatro meses depois disso, a condessa de Itassu era já o melhor empenho para o Sr. D. Pedro de Alcântara. Pretendente que se apadrinhasse com ela podia ter a certeza de obter o que desejasse.

De suas mãozinhas aristocráticas saíram nomeações importantíssimas, licenças escandalosas, remoções, transferências, acessos de empregos, privilégios de companhias, concessões de engenhos centrais. Muita questão importante se resolveu com um simples sorriso.

Quando regressaram de Petrópolis foram habitar em S. Cristóvão, perto do palácio de sua Majestade. O monarca não queria o visconde de Itassu muito longe de si.

A casa deste transformou-se logo em um centro político. Aí, todas as noites se reuniam as figuras mais volumosas dos poderes públicos; aí se discutiam as mais graves questões do Estado; formavam-se e destruíam-se gabinetes; criavam-se e resolviam-se crises, conforme o capricho de Filomena.

— Ora, dá-se por isso?... Será crível que eu nunca mais obtenha um momento de repouso?... pensava o Borges.

Com efeito, sua pobre vida jamais esteve tão cheia de preocupações e tão carregada de responsabilidade. Quando o desgraçado saía do quarto, depois de uma noite mal dormida, já uma enorme selva o esperava, transbordante de jornais de cartas, requerimentos, ofícios, comunicados e o diabo, cujo expediente era preciso aviar e fazer subir quanto antes ao conhecimento de seu augusto amo.

Depois, tinha audiências; negócios inteiramente fora de sua competência vinham-lhe suplicar um parecer, pedir um auxílio.

Que luta!

Mas, além de tudo isso, era preciso atender aos colegas, aos amigos, aos políticos em atividade, que o procuravam todos os dias. De certo, era preciso constantemente envergar à farda, suportar as exigências do cargo, acompanhar o monarca, comparecer aos atos solenes da corte ou às reuniões particulares dos ministros.

E o Borges em vão se arrepelava, se maldizia e se punha fora de si.

Filomena, ao contrário, à semelhança de certas plantas caprichosas, que só vingam bem nos abrasados e altaneiros píncaros do rochedo, cada vez mais e mais se identificava às exigências do seu novo meio.

E protegia o marido à sombra de seus conselhos, amparava-o, conduzia-o, emprestando-lhe um lugar no, ginete de suas ambições e cedendo-lhe liberalmente todas as armas do seu espírito e toda a força da sua vontade.

O Imperador não disfarçava o bom conceito em que tinha a opinião do experimentado e sensato visconde de Itassu.

(continua...)

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