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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Como o pai o queria inocente e dócil, ele afetava grande toleima, fazia-se muito ingênuo, muito admirado das cosas mais simples.

— É uma menina!...dizia a mãe, convicta — Amancinho tem já dez anos e conserva a candura de um anjo!

Vasconcelos nunca o puxava para junto de si, nem conversava com ele, nem o interrogava ;e, quando a infeliz criança, justamente na idade em que a inteligência se desabotoa, ávida de fecundação, fazia qualquer pergunta, respondiam-lhe com um berro: “ Não seja bisbilhoteiro, menino!”

Amâncio emudecia e abaixava os olhos, mas, logo que o perdiam de vista, ia escutar e espreitar pelas portas.

Com semelhante esterco, não podia desabrochar e melhor no seu temperamento o leite escravo, que lhe deu a mamar uma preta da casa.

Diziam que era uma excelente escrava: tinha muito boas maneiras ;não respingava aos brancos, não era respondona: aturava o maior castigo, sem dizer uma palavra mais áspera, sem fazer um gesto mais desabrido. Enquanto o chicote lhe cantava nas costas, ela gemia apenas e deixava que as lágrimas lhe corressem silenciosamente pelas faces.

Além disso — forte, rija para o trabalho. Poderia nesse tempo valer bem um conto de réis.

Vasconcelos a comprara, todavia, muito em conta, “uma verdadeira pechincha! ” porque o demônio da negra estava então que não valia duas patacas mas o senhor a metera em casa, dera-lhe algumas garrafadas de laranja-da-terra, e a preta em breve começou a deitar corpo e a endireitar, que era aquilo que se podia ver!

O médico, porém, não ia muito em que a deixassem amamentar o pequeno.

— Esta mulher tem reuma no sangue ...dizia ele — e o menino pode vir a sofrer no futuro.

Vasconcelos sacudiu os ombros e não quis outra ama.

— O doutor que se deixasse de partes!

A negra tomou muita afeição à cria. Desvelava por elas noites consecutivas e, tão carinhosa, tão solícita se mostrou, que o senhor, quando o filho deixou a mama, consentiu em passar-lhe a carta de alforria por seiscentos mil-réis, que ela ajuntara durante quinze anos. Mas a preta não abandonou a casa de seus brancos e continuou a servir, como dantes ;menos ,está claro, no que dizia respeito aos castigos, porque a desgraçada, além de forra ia já caindo na idade.

Amâncio dera-lhe bastante que fazer. Fora um menino levado da breca ;só não chorava enquanto dormia e, quando se punha a espernear, não havia meio de contê-lo.

Era muito feio em pequeno. Um nariz disforme, uma boca sem lábios e dois rasgões no lugar dos olhos. Não tinha um fio de cabelo e estava sempre a fazer caretas.

A princípio — muito achacado de feridas, coitadinho! Os pés frios, o ventre duro constantemente.

Levou muito para andar e custou-lhe a balbuciar as primeiras palavras :Ângela adorava-o com entusiasmo do primeiro parto ;por duas vezes supôs vê-lo morto e deu promessas aos santos da sua devoção.

Conseguiram fazê-lo viver, mas sempre fraquinho, anêmico, muito propenso aos ingurgitamentos escrofulosos.

Quando acabou as primeiras letras, não era, entretanto, dos rapazes mais débeis da aula do Pires. Para isso contribuíram em grande parte uns passeios que costumava dar, pelas férias, à fazenda de sua avó materna, em São Bento.

Esses passeios representavam para Amâncio a melhor época do ano. A avó, uma velha quase analfabeta, supersticiosa e devota, permitia-lhe todas as vontades e babava-se de amores por ele. O rapaz escondia-lhe o cachimbo, pisavalhe os canteiros da horta, divertia-se em quebrar a pedradas as lamparinas dos santos, suspensas na capela, e, à vezes, quando não estava de boa maré, atirava com os pratos nos escravos que serviam à mesa.

A avó ralhava , mas não podia conter o riso .O netinho era o seu encanto, o fraco de sua velhice; só um pedido daquele diabrete faria suspender o castigo dos negros e desviar do serviço da roças algum dos moleques — para ir brincar com Nhozinho. Estava sempre a dizer que se queixava ao genro e que o devolvia para a cidade; mas, no ano seguinte, se Amâncio não aparecia logo no começo das férias, choviam os recados da velha em casa de Vasconcelos, rogando que lhe mandassem o neto.

— Mande! mande o pequeno! aconselhava o médico.

E lá ia Amâncio.

Só aos doze anos fez o seu exame de português na aula do Pires.

Houve muita formalidade. A congregação era presidida pelo Sotero dos Reis; havia vinte e tantos examinandos. Amâncio tremia naqueles apuros. Não tinha em si a menor confiança.

Foi, contudo, “aprovado plenamente” .Mas não sabia nada, quase que não sabia ler. Da gramática apenas lhe ficaram de cor algumas regras, sem que ele compreendesse patavina do que elas definiam. O Pires nunca explicava: — se o pequeno tinha a lição de memória, passava outra, e, se não tinha, dava-lhe algumas palmatoadas e dizia-lhe que trouxesse a mesma para o dia seguinte.

Mas, enfim, estava habilitado a entrar para o Liceu onde iria cursar as aulas de francês e geografia.

(continua...)

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