Por Machado de Assis (1886)
Emília desfez-se em prantos.
Mas Vicente consolou-a dizendo que tudo podia ter explicação; que naturalmente a missão a que fora Valentim o explicasse, e só daí a dias o pudesse fazer. Esperaram uma carta de explicações, um, dois, três, cinco e dez dias: nada. — Nada, meu pai! Nem uma carta! dizia ela. Ele não me ama.
Vicente sofria vendo a dor de Emília. Não podia convencer pelo raciocínio a uma mulher que se dirigia pelo sentimento. Preferiu deixá-la desabafar e escrever a Valentim, ao mesmo tempo que procurava informar-se, como empregado público, dos motivos que teriam demorado Valentim na província.
A carta de Vicente contava tudo o que se passara, o desespero e a dor de Emília vendo se malograda, como ele próprio, na expectativa de ver chegar Valentim. Expedida a carta, Vicente procurou indagar as razões poderosas que tinham demorado o noivo de sua filha; mas desde as primeiras tentativas viu logo que não se lhe seria fácil entrar no conhecimento desses motivos atenta a gravidade da questão, e a gravidade estava no segredo guardado pelo próprio mensageiro. Todavia uma consideração se apresentou ao espírito de Vicente: a missão, por grave que fosse, não era política; o ministro podia, sem entrar na explicação por menor dessa viagem, dizer-lhe se Valentim voltava ou não cedo.
Quando se resolveu definitivamente a ir ao ministro e dizer-lhe, se necessário fosse, as razões de seu passo, chegou novo vapor e não trouxe carta alguma em resposta à escrita por Vicente.
Diante desse fato Vicente não hesitou.
Foi ao ministro.
Não era esse o mesmo chefe da repartição em que Vicente era empregado, mas não era absolutamente estranho ao velho pai, por já ter servido na pasta correspondente à sua repartição.
Vicente declarou-lhe os motivos que o levavam, e esperou, adiantando palavra de honra, que o ministro lhe dissesse qual a demora de Valentim.
O ministro pareceu não perceber a pergunta e pediu que ele a repetisse mas nem depois da repetição ficou mais instruído.
O ministro não só não tinha prometido nada a Valentim, como até nem o conhecia. Vicente enfiou.
O caso parecia-lhe tão extraordinário que não quis acreditar em seus próprios ouvidos. Mas o ministro repetiu o que dissera e deu-lhe palavra de honra e que dizia a verdade. Vicente despediu-se do ministro e saiu.
Que iria dizer a sua filha? Como dar-lhe parte do ocorrido? Como evitar os perigos que já se lhe antolhavam nesta revelação?
Vicente hesitou, e caminhando para sua casa foi ruminando mil projetos, a ver qual era melhor para sair desta dificuldade.
Mas na confusão que naturalmente estas idéias lhe traziam, Vicente fixou o espírito no ponto principal da questão: a perfídia de Valentim.
Essa perfídia não carecia de provas. Estava patente, clara, evidente. Valentim tinha usado de uma fraude para enganar Emília. Ou, se tinha motivo de sair, quis aproveitar uma mentira, para mais a salvo poder escapar às promessas anteriores.
Tudo isso é evidente; Vicente via em toda a nudez a triste situação em que ficava colocado.
As circunstâncias contribuíam para aumentar a evidência dos fatos; o silêncio, o anúncio mentiroso da próxima chegada, tudo.
Fazendo todas estas reflexões, Vicente chegou à porta de casa.
E não tinha inventado nada para dizer a Emília. Em tal caso o que cumpria fazer era calar-se e esperar que o tempo tivesse, desfazendo o amor, minorado o sofrimento do desengano.
Calou-se, portanto.
Quando pôde estar a sós refletiu no procedimento de Valentim; uma soma enorme de ódio e despeito criou-se no seu coração. Vicente desejava estar naquele momento diante de Valentim para lançar-lhe em rosto a sua infâmia e a sua baixeza. Mas todas essas raivas contidas e tardias nada mudavam a situação. A situação era: Emília definhando, Valentim ausente. O que cumpria fazer? Distrair a moça para ver se ela voltava à vida, e ao mesmo tempo se o primeiro amor se desvanecia naquele coração.
Nesse sentido Vicente fez tudo quanto o amor de pai lhe sugeriu, sem que nos primeiros dias nada pudesse conseguir. Mas os dias se passavam e a dor, se não desapareceu de todo, ao menos não era tão ruidosa como outrora. Três meses se passaram assim, e desde a única carta que Valentim escreveu a Vicente, nunca mais houve uma só letra, uma só palavra dele.
Mas no fim desses três meses apareceu uma carta. Enfim! Vicente recebeu-a contente e não quis logo comunicá-la a Emília. Quis lê-la antes. Era longa: leu-a toda. Dizia Valentim:
Meu caro sr. Vicente. Se V. Sa. não compreendeu que a minha união com D. Emília era desigual, mostra ter muito pouca prática do mundo. Em todo o caso é digno de desculpa, porque eu também tive um momento em que não reparei nisso, que aliás não era muito de admirar, atenta a maneira por que tinha preso o coração. Tinha preso, tinha. Para que negá-lo.? D. Emília é cheia de encantos e de graças; eu sou moço e ardente. O amor pôs me poeira nos olhos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.