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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Ou fosse um amor verdadeiro, intimo e profundo, que lhe revolucionasse a alma, o que era bem possivel á vista da seductora belleza da captiva, ou fosse o demonio da libidinagem, que lhe turvava o espirito e lhe inflammava o sangue, o que é ainda mais provavel, o certo é que Moraes, sem attender nem ao menos ás conveniencias e ao decoro da familia, deixou entrever a cega paixão que o dominava. Um dia não podendo mais conter-se declarou suas impudicas intenções á ingenua e virtuosa escrava, que mal as podia comprehender. Senhor quasi absoluto da casa fazia quotidianamente á inexperta rapariga pomposas promessas de liberdade, dinheiro e mil felicidades, ás quaes a singela menina oppunha sempre a mais rude e obstinada negativa. Com as repulsas e esquivanças ainda mais recrudecia a febre de ardente sensualismo que abrazava o sangue de Moraes ; depois de ter empregado em vão todos os meios de seducção a seu alcance, lançou mão tambem da mais terriveis ameaças.

Si não cederes a meus desejos, Rozaura, dizia-lhe elle nos transportes de sua insensata e lasciva paixão, — vendo-te ahi a qualquer senhor libertino e sem coração, que fará comtigo o que eu não posso, nem tenho animo de fazer; que te amarrará de pés e mãos, e fará de ti o que muito bem quizer.

— Senhor, — respondia a escrava com uma resolução e firmeza para admirar em sua edade e condição, — é escusado ameaçar-me, pcrdc seu tempo ; nunca cederei, nunca ! faça de mim o que quizer, tenho fé que Deus me hade valer.

Moraes rugia de raiva e desespero, mas emn assim deixava de proseo•uir cada vez com mais ardor em seus assaltos brutaes contra a pudicicia da gentil escrava. Estes torpes manejos' por mais que Moraes se esforçasse por occultal-os não puderão escapar por muito tempo á sagacidade de Adelaide, que depressa colheo provas manifestas do indigno procedimento de seu marido. Ella amava-o sinceramente, e esta triste descahida do esposo magoou-lhe cruelmente o coração. Ha doze annos era casada, e nunca até alli a mais ligeira nuvem de discordia viera perturbar a harmonia conjugal, e toldar a serenidade do lar domestico. Foi portanto um rude golpe para sua alma, golpe, que a feria e humilhava ao mesmo tempo, ver a paz, que até então tinha reinado no seio da familia, perturbada por tão ignobil e vergonhoso motivo. Era Adelaide, como sabemos, de temperamento ardente e irascivel ; não sabia abafar seus resentimentos ; elles fazião explosão com violencia. Todavia desta vez corando por seu marido, o pejo e o pundonor tolherãolhe a principio as expansões de despeito e indignação, de que trazia saturado o coração. A tal ponto porém chegárão os desmandos do senhor Moraes, que ella não poude conter-se por mais tempo. Rubra de pejo e de resentimento exprobrou ao marido seus vergonhosos desvarios.

— O senhor, disse ella depois de amargas queixas e pungentes invectivas, quer me pôr na dura necessidade de communicar tudo a meu pae, a fim de que elle mande para longe, forre ou venda essa pobre menina, causa por certo innocente de semelhantes escandalos, e isto seria uma crueldade. Não, meu, amigo, accrescentou ella ameigando a voz e abraçando o marido, — espero que não continuará mais nesse máo caminho. É tua mulher quem te pede em nome de nosso amor de doze annos, em nome de nossos innocentes filhinhos.

Moraes sentio-se algum tanto abalado com estas ternas e sentidas palavras da esposa, e quasi sentio remorsos por affligil-a tanto com seu máo procedimento.

— Minha querida Adelaide, — disse com a mais bem fingida e refinada hyprocrisia que se póde imaginar, como pudeste dar entrada cm teu coração a tão injustas suspeitas contra teu marido como pudeste imaginar nessa louca cabecinha que eu seja capaz de ter tão depravadas intenções contra uma pobre e interessante menina, que só me inspira compaixão, interesse e sympathia ! . . . Gosto muito de Rozaura, acho-a muito engraçada e bonitinha, amo-a mesmo si assim o queres, mas com esse amor, de qun fallava um dos meus collegas, mettido a poéta ; amo-a como se ama as flÔres do campo, as estrellas do céo, o canto dos passarinhos; amo-a como se ama tudo quanto é bello na creação. É verdade, que ás vezes procuro beijal-a na fronte e mesmo na face mas ella foge toda espantadiça e coitadinha, não sabendo talvez que a procuro beijar, como beijo a meus filhinhos.

Ah ! senhor, — disse a moça fitando os lindos olhos no marido como procurando ler-lhe no fundo da alma, será sincero o que me está dizendo ?

(continua...)

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