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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Em Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, o folhetinista nos pega pela mão e nos leva a ver o Paço Imperial, o Passeio Público, o morro do Castelo, que já naquele tempo se falava em demolir, o Colégio Pedro II, os conventos de Santa Teresa e de Santo Antônio, a igreja de S. Pedro, a igreja e o recolhimento do Parto, a igreja da Sé, etc., contando-nos a história e a tradição de cada um desses edifícios, instituições e sítios. De cada um e a propósito de cada um, fornece-nos, com diligente e amena erudição, muitas e curiosas informações de natureza histórica, artística ou literária, entremeadas a cada passo por epigramas e alusões a certos costumes políticos da época, por oportunas reminiscências pessoais, por anedotas divertidas e maliciosas, e sobretudo por velhos casos romanescos, que o cronista recolheu da tradição popular ou desfiou por conta e risco da própria fantasia. Tais digressões nos distraem freqüentemente por atalhos imprevistos; mas também aqui por estes atalhos vamos encontrar mais de um motivo de interesse e satisfação.

Logo no início do passeio, o amável guia nos advertiu com simplicidade e honradez: “Procurei amenizar a História, escrevendo-a com esse tom brincalhão e às vezes epigramático que, segundo dizem, não lhe assenta bem, mas de que o povo gosta; juntei à história verdadeira [...] ligeiros romances, tradições inaceitáveis e lendas inventadas para falar à imaginação e excitar a curiosidade do povo que lê”... Devemos convir, em plena consciência, que não poderíamos exigir mais, nem maior rigor, no plano de um simples passeio pelas ruas da cidade, e devemos ainda confessar, ao cabo da jornada, que na realidade gostamos muito de tudo.

Joaquim Manuel de Macedo amava com infinita ternura esta boa cidade do Rio de Janeiro. Era com desvelos de enamorado que ele estudava e esquadrinhava a sua história – a história da sua formação e do seu desenvolvimento, a história das suas ruas e das suas casas, a história da sua gente e dos seus costumes. Em Um Passeio pela Cidade, traçado e realizado em plena maturidade, e mais tarde nas Memórias da Rua do Ouvidor, redigidas quando a velhice já lhe chegava, deixou ele impresso com especial carinho o preito do seu muito e comovido querer à terra carioca, que então se confundia com a do seu berço no mesmo comum designativo de terra fluminense. E é nesta fidelidade amorosa pela cidade, de que as suas melhores páginas se acham impregnadas, que reside, ao meu ver, o mérito essencial do fecundo escritor.

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Aos meus leitores

VOU ENTREGAR ao domínio e à apreciação do público reunidos em livro os artigos que sob o título “Um Passeio” tenho publicado e espero continuar a publicar nos folhetins do Jornal do Comércio, e embora não haja novidade na obra, julgo que sem inconveniente podem-se permitir ao autor algumas palavras a respeito do seu trabalho.

Quero dar aos meus leitores uma simples explicação com toda a franqueza e verdade.

Determinei escrever o que sabia e conseguisse saber sobre a história e tradições de alguns edifícios, estabelecimentos públicos e instituições da cidade do Rio de Janeiro, abundando quanto pudesse em informações relativas aos homens notáveis e aos usos e costumes do passado; porque entendi que com este meu trabalho presto ao meu país um serviço e pago-lhe um tributo de patriotismo, pois que concorro com o meu contingente, fraco embora, para salvar do olvido muitas cousas e muitos fatos cuja lembrança vai desaparecendo.

Procurando desempenhar a tarefa que tomei sobre os ombros, tenho lido e vou lendo, tenho consultado e vou consultando as obras dos antigos e modernos cronistas e historiadores da nossa terra, e, o que mais importa, sem dó nem piedade, tenho maçado e atormentado a todos os bons velhos que me honram com a sua amizade ou que têm a paciência de tolerar e atender às minhas impertinentes perguntas.

Ainda assim, escapam-me erros e omissões que vou corrigindo quanto posso e que outros mais bem informados corrigirão, se eu o não fizer.

Evidentemente o meu trabalho sairia mais limpo de senões, se menos indiferença houvesse pela matéria dele, e se não se observasse tanta avareza de conhecimentos da parte de alguns e tanta preguiça da parte de muitos.

Eu declaro alto e bom som que estou pronto para reconhecer e emendar os meus erros; o que me falta é quem os queira apontar, e me ensine a corrigi-los.

Encetando este trabalho, tive a simplicidade de supor que contaria repetidas ocasiões de agradecer a espontaneidade do favor de muitas informações curiosas. Já perdi essa ilusão! Até hoje ainda não mereci um só esclarecimento que não fosse pedido e procurado, e quando saio a esmolar informações não poucas vezes recebo em resposta um Deus-lhe-favoreça que por certo me desanimaria, se, em compensação, não fosse tão penhorador o obséquio com que tenho sido tratado por diversas pessoas.

(continua...)

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