Por Martins Pena (1846)
ALEXANDRE – Balbina, Balbina, o que há de ser de nós? Quem mandou-me cá vir? Mas eu te amo tanto!
PAULINO, do armário – O caso é esse, agora percebo: disfarçou-se, pintou-se de negro para cá entrar. Olhem que menino! Se eu não estivesse com tanto medo, ria-me do logro que levou o pedestre. (Ouve-se dentro gritos e bulha, como de uma pessoa que rola pelas escadas abaixo.)
BALB1NA – Meu Deus, ele matou-a!
ALEXANDRE, do buraco – Não é possível!
PAULINO, no armário, fechando a porta – Eu desmaio... Quem me acode?
ALEXANDRE – Vai ver, vai ver, já não posso estar aqui... As pernas trememme... (Sai do buraco.)
CENA IX
Entra o PEDESTRE, ainda com a espada na [mão] e muito pálido e assustado.
BALBINA – Meu pai, meu pai, o que tem? Tão pálido! Responda! E minha madrasta?
PEDESTRE, apontando para dentro, todo trêmulo – Morta!
BALBINA – Morta! Meu Deus! (Corre para dentro.)
PAULINO, à parte, no armário – Um assassinato! E eu sou a causa, oh!
PEDESTRE, como assustado – Ela me enganava... Está morta! Morta! E agora? Enterra-se... e fico descansado. Sim, descansado, tranqüilo. Amanhã perguntar-me-ão por ela e eu... Oh, talvez fizesse mal... Mal? Se ela estivesse inocente... Inocente... Oh! (Com ternura:) Anacleta, Anacleta! Mas ela traiu-me, fiz muito bem... O homem deve vingar-se... (Com ternura:) Anacleta! Vem gente...
BALBINA, entrando – Meu pai, meu pai, talvez ainda seja tempo de a salvar! Ela rolou pelas escadas abaixo e lá está caída, fria e sem sentidos... Acuda-a!
PEDESTRE – Não, ela traiu-me; esqueceu-se do meu nome, do meu amor e de minha confiança.
BALBINA – Venha, ou vá chamar um médico!
PEDESTRE, com voz terrível – Não!
BALBINA – Meu Deus, compadecei-vos de nós! (Sai.)
PEDESTRE – Morta, morta, morta! Talvez não fosse culpada; talvez, quem sabe? Que abismo! Inocente! Mas a carta, a carta? Teu marido é um animal... Animal! Oh, se tivesse o indigno sedutor debaixo dos pés, se o visse tremendo, enfiado nesta espada, ah! seria feliz! Pérfida! Insultado, desonrado! Oh, quisera nadar em sangue! Pérfida! (Passeia agitado pela sala.) Esta escada quebrada... Desceria ele por aqui? Viria pelos telhados? Ah, (vendo o boné) um boné! Um boné em minha casa? Um boné! Querem-na mais clara? Mas um boné por si só é inocente, um boné nada vale... A cabeça que ele cobria é que é tudo. Procuremos a cabeça. (Principia a procurar pela sala, furioso) Não me há de escapar. (Dirige-se para o armário e o abre.) Oh, cá está!
PAULINO – Quem me acode? Quem me socorre?
PEDESTRE, arrancando-o do armário e puxando-o para frente da cena – Oh, és tu? O algoz da minha honra, da minha tranqüilidade!
PAULINO, trêmulo de susto – Eu não senhor, não senhor!
PEDESTRE, pondo-lhe o boné na cabeça – Este boné é teu... e esta cabeça é minha!
PAULINO – Ai, ai, ai!
PEDESTRE, furioso – Ah, tu pensavas que havias de entrar no asilo conjugal pelo telhado, para roubares ao marido o seu bem! Ah, contastes com a minha fraqueza!
Tu vais morrer na maré da noite!
PAULINO – Ai, ai, quem me acode?
PEDESTRE – Podes gritar. Tenho o direito de te matar. Vou arrancar-te esse coração... Grita... e morre!
PAULINO, por um movimento rápido, desprende-se das mãos do Pedestre e corre pela sala, gritando – Ai, ai, quem me acode? Querem-me matar!
PEDESTRE o segue de perto – Não me escaparás; hás de morrer! (Atira uma estocada em Paulino, pelas costas.) Morre!
PAULINO, deixando-se cair ao chão de bruços, com os braços estendidos – Ai, estou morto!
PEDESTRE, parando repentinamente – Morto! Também ele! Matei-o! (Deixa cair a espada, trêmulo, e vem assentar-se junto à mesa, e aí permanece por alguns instantes, silencioso. Paulino, enquanto o Pedestre caminha para a mesa, e durante o tempo que aí demora-se sentado, levanta a cabeça e observa.. Pedestre, depois de alguns momentos de silêncio:) Fiz o que devia.
PAULINO, à parte – E eu também...
PEDESTRE, levantando-se, pensativo – Nasce o homem tranqüilo e inocente e depois faz duas mortes... Duas mortes! Fado e destino da humanidade! (Caminha para junto de Paulino, que se conserva imóvel.) Vil sedutor, cadáver aborrecido! (Empurra-o com o pé e ele rola.) Ressuscita outra vez, que te quero ainda matar de novo, cevar-me no teu sangue, arrancar tuas tripas! Oh, ressuscita outra vez!
PAULINO, à parte – Assim era eu tolo!
PEDESTRE – Minha vingança está satisfeita; dormirei tranqüilo... Tranqüilo? Mas a forca? A forca! Oh, que nem dela me lembrava! Oh, por que levantou a justiça este horrível fantasma entre o homem e a sua legítima vingança? Oh, bem se vê que quem inventou o Código e a forca não tinha mulher que o traísse... Que farei? Como ocultar estas duas mortes, como esconder estes dois corpos, que farei? Ah! (Como ferido de uma idéia repentina, corre para o quarto aonde está Alexandre e sai.)
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.