Por Martins Pena (1845)
MENINO – Vamos fazer uma fortaleza aqui. (Assenta-se no chão.) Juquinha, você faz outra lá. (Assentamse todos.) Enterra as pistolas e as bichas. Eu sou o navio. Hei-de fazer fogo, e você também ajunta a areia... Anda, vem-me ajudar. (João, ao ver os meninos que chegam, quebra uma varinha de arbusto próximo, sai de trás da casinha e caminha para eles. Ao chegar junto, açoita-os com a vara. Os pequenos levantam-se, assustados e correm para dentro, gritando e chorando.)
JOÃO, gritando – Salta para dentro! (Voltando:) Até estes demoninhos vieram atrapalhar-me! Não me fio em crianças. É isto! Convida-se a certas senhoras para passarem a noite em uma casa e levam quantos filhos têm, desde o mais pequeno até o maior, para estratagema, quebrarem e pedincharem tudo quanto vêem e tocam. E importunar a todos os convidados! Deixar-me-ão desta vez entrar? (Vai para a casinha, entra e fecha a porta. Manuel, que nesse mesmo tempo aparece, o vê entrar no seu quarto.)
MANUEL – Entra no nosso quarto? Ai, o que me vale é estar a Maria lá dentro. Ele vai espera-la... Ai! Pois são estas as lagartixas? Lagartixas! (Pega no cesto que está à porta do quarto e com ele atravessa de novo a cena, sempre correndo e sai pela direita. Assim que o ilhéu sai de cena, João abre a janela do quarto que dá para a cena e espreita por ela.)
JOÃO, à janela – Queria Deus que a minha ilhoazinha não tarde. O meu coraçãozinho está pulando de contente! Mas aonde estará ela?
CLARA, do fundo – Ah, Sr. João? Sr. João? (Chamando.)
JOÃO – Oh diabo, lá está a carocha da minha mulher chamando-me. Se ela souber que estou aqui, mata-me. Ora, que culpa tenho? Calou-se. (Debruça-se na janela, espreitando.) Como tarda!...
CENA XII
Júlio de capote e boné, João e depois Clara.
JÚLIO – Devo ausentar-me desta casa onde fui insultado e para nunca mais voltar... Mas deixá-la? E o posso eu? Não, é preciso; nem mais um instante! E não posso desprender-me daqui! Fatal amor! Ela fica no meio dos prazeres, e eu... (João chega à janela, observa Júlio, fazendo esforços para reconhecê-lo.)
JOÃO – Vejo um vulto. Não posso conhecer quem é. Deixei os meus óculos lá dentro. Parece-me que está de saia e lenço à cabeça... Saia escura! É ela, não tem dúvida; é a minha ilhoazinha. Psiu, psiu! (Chamando com precaução.)
JÚLIO, surpreendido – Quem me chama?
JOÃO – Psiu, psiu, vem cá!
JÚLIO – É dali da janela. (Vai-se chegando para a janela. Nesse momento acende-se defronte da porta da casa, no fundo, uma composição mítica de fogo colorido que alumie fortemente a cena. Ao clarão do fogo os dois se reconhecem.)
JOÃO, recuando para dentro – Ai!
JÚLIO – O Sr. João! (Chegando-se para a janela:) Que faz Vossa Senhoria no quarto da ilhoa?
JOÃO, um pouco de dentro – Nada, nada. Vim ver uns pintinhos que estavam no choco?
JÚLIO – Pintos no choco?
JOÃO – Sim, sim, pois nunca viu?
JÚLIO – Mas Vossa Senhoria... (Desata a rir e caminha um pouco para a frente da cena, rindo-se sempre.)
JOÃO, chegando à janela – Psiu, psiu! Venha cá; não ria-se tão alto!
JÚLIO, rindo-se – Qual pintos! É pela ilhoa.
JOÃO – Cale-se, pelo amor de Deus! Venha cá, venha cá.
JÚLIO – Enganou-se com o meu capote! (Ri-se.)
JOÃO – Ó homem, venha cá! Olhe que minha mulher pode vir.
JÚLIO, chegando – Pois Vossa Senhoria tem medo que a Sra. D. Clara o ache tirando pinto do choco?
JOÃO – Deixemos de graça e fale baixo.
JÚLIO – Então é certo, a ilhoa? Ah, ah, ah! Vou contar isto lá dentro. (À parte:) Tu me pagarás.
JOÃO – Oh, não, meu amiguinho; minha mulher, se sabe que eu estou aqui, é capaz de arrancar-me os olhos.
JÚLIO – Há pouco era eu que rogava e Vossa Senhoria dizia não. Agora é Vossa Senhoria que roga, e eu também digo não. (João debruça pela janela e consegue agarrar em Júlio.)
JOÃO – Escute. Não tome a coisa tão em grosso; não o quis ofender.
JÚLIO – Correr-me de sua casa!
JOÃO – Não há tal.
JÚLIO – Negar-me com insultos a mão de sua filha!
JOÃO – Não neguei.
JÚLIO – Não negou?
JOÃO, à parte – Diabo!
JÚLIO – Não negou, diz o senhor. Então concede-me?
JOÃO – Não digo isso. Mas se...
JÚLIO – Ah! Sr.a D. Clara, Sra. D. Clara?
JOÃO, querendo tapar-lhe a boca – Pelo amor de Deus!
JÚLIO – Vossa Senhoria não negou-me a mão de sua filha?
JOÃO – Seja razoável.
JÚLIO – Sra. D. Clara?
JOÃO – Cale-se, homem. Cale-se com todos os milhões de diabos!
JÚLIO – Nada. Quero que ela aqui venha para ver se pode explicar-me a razão por que Vossa Senhoria nega-me a mão de sua filha. Sra. D. Clara?
JOÃO – E eu já lhe disse que lhe negava?
JÚLIO – Não? Então concede-ma?
JOÃO – Amanhã falaremos.
CLARA, no fundo – Ah, sô João, sô João?
JÚLIO – Sua senhora aí vem.
JOÃO – Vá-se embora. (Abaixa e esconde-se.)
JÚLIO, para dentro do quarto – Concede-ma?
JOÃO, dentro – Concedo.
JÚLIO – Palavra de honra?
JOÃO, dentro – Palavra de honra. (Neste tempo Clara está no meio da cena.)
CLARA – Sô João? (Júlio quer caminhar para sair pelo fundo.) Quem é?
JÚLIO – Sou eu, minha senhora.
CLARA – Ah, é o Sr. Júlio. Sabe-me dizer onde está o meu homem?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.