Por Martins Pena (1844)
Capitão — Espero que não penses mais nisso, e que farás somente o que te eu peço. Sim?
Maricota (à parte) — Pateta, que não percebe que era um pretexto para lhe não dizer que não, e tê-lo sempre preso.
Capitão — Não respondes?
Maricota — Pois sim. (A parte) Era preciso que eu fosse tola. Se eu fugir, ele não se casa.
Capitão — Agora quero sempre dizer-te uma cousa. Eu supus que esta história de dinheiro era um pretexto para não fazeres o que te pedia.
Maricota — Ah, supôs? Tem penetração!
Capitão — E se te valias desses pretextos é porque amavas a...
Maricota — A quem? Diga!
Capitão — A Faustino.
Maricota — A Faustino? (Ri às gargalhadas) Eu? Amar aquele toleirão? Com olhos de enchova morta, e pernas de arco de pipa? Está mangando comigo. Tenho melhor gosto. (Olha com ternura para o Capitão)
Capitão (suspirando com prazer) — Ah, que olhos matadores! (Durante este diálogo Faustino está inquieto no seu lugar)
Maricota — O Faustino serve-me de divertimento, e se algumas vezes lhe dou atenção, é para melhor ocultar o amor que sinto por outro. (Olha com ternura para o Capitão. Aqui aparece na porta do fundo José Pimenta. Vendo o Capitão com a filha, pára a escuta)
Capitão — Eu te creio, porque teus olhos confirmam tuas palavras. (Gesticula com entusiasmo, brandindo a espada) Terás sempre em mim um arrimo, e um defensor! Enquanto eu for capitão da Guarda Nacional e o Governo tiver confiança em mim, hei-de sustentar-te como uma princesa. (Pimenta desata a rir às gargalhadas. Os dous voltam-se surpreendidos. Pimenta caminha para a frente, rindo-se sempre. O Capitão fica enfiado e com a espada levantada. Maricota, turbada, não sabe como tomar a hilaridade do pai)
CENA VII
Pimenta e os mesmos.
Pimenta (rindo-se) — O que é isto, Sr. Capitão? Ataca a rapariga... ou ensina-lhe a jogar à espada?
Capitão (turbado) — Não é nada, Sr. Pimenta, não é nada... (Embainha a espada) Foi um gato.
Pimenta — Um gato? Pois o Sr. Capitão tira a espada para um gato? Só se foi algum gato danado, que por aqui entrou.
Capitão, querendo mostrar tranqüilidade — Nada; foi o gato da casa que andou aqui pela sala fazendo estripulias.
Pimenta — O gato da casa? É bichinho que nunca tive, nem quero ter.
Capitão — Pois o senhor não tem um gato?
Pimenta — Não senhor.
Capitão (alterando-se) — E nunca os teve?
Pimenta — Nunca!... Mas...
Capitão — Nem suas filhas, nem seus escravos?
Pimenta — Já disse que não.... Mas...
Capitão (voltando-se para Maricota) — Com que nem seu pai, nem a sua irmã e nem seus escravos têm gato?
Pimenta — Mas que diabo é isso?
Capitão — E no entanto... Está bom, está bom! (Ã parte:) Aqui há maroteira!
Pimenta — Mas que história é essa?
Capitão — Não é nada, não faça caso; ao depois lhe direi. (Para Maricota:) Muito obrigado! (Voltando-se para Pimenta:) Temos que falar em objeto de serviço.
Pimenta (para Maricota) — Vai para dentro.
Maricota (à parte) — Que capitão tão pedaço de asno! (Sai)
CENA VIII
Capitão e José Pimenta. — Pimenta vai pôr sobre a mesa a barretina. O Capitão fica pensativo.
Capitão (À parte) — Aqui anda o Faustino, mas ele me pagará!
Pimenta — As suas ordens, Sr. Capitão.
Capitão — O guarda Faustino foi preso?
Pimenta — Não, senhor. Desde quinta-feira que andam dous guardas atrás dele, e ainda não foi possível encontrá-lo. Mandei-os que fossem escorar à porta da repartição e também lá não apareceu hoje. Creio que teve aviso.
Capitão — É preciso fazer diligência para se prender esse guarda, que está ficando muito remisso. Tenho ordens muito apertadas do comandante superior. Diga aos guardas encarregados de o prender que o levem para os Provisórios. Há-de lá estar um mês. Isto assim não pode continuar. Não há gente para o serviço com estes maus exemplos. A impunidade desorganiza a Guarda Nacional. Assim que ele sair dos Provisórios, avisem-no logo para o serviço, e se faltar, Provisório no caso, até que se desengane. Eu lhe hei-de mostrar. (A parte:) Mariola!... Quer ser meu rival!
Pimenta — Sim senhor, Sr. Capitão.
Capitão — Guardas sobre guardas, rondas, manejos, paradas diligências — atrapalhe-o. Entenda-se a esse respeito com o sargento.
Pimenta — Deixe estar, Sr. Capitão.
Capitão — Precisamos de gente pronta.
Pimenta — Assim é, Sr. Capitão. Os que não pagam para a música, devem sempre estar prontos. Alguns são muito remissos.
Capitão — Ameace-os com o serviço.
Pimenta — Já o tenho feito. Digo-lhes que se não pagarem prontamente, o senhor Capitão os chamará para o serviço. Faltam ainda oito que não pagaram este mês, e dous ou três que não pagam desde o princípio do ano.
Capitão — Avise a esses, que recebeu ordem para os chamar de novo para o serviço impreterivelmente. Há falta de gente. Ou paguem ou trabalhem.
Pimenta — Assim é, Sr. Capitão, e mesmo é preciso. Já andam dizendo que se a nossa companhia não tem gente, é porque mais de metade paga para a música.
Capitão, assustado — Dizem isso? Pois já sabem?
Pimenta — Que saibam, não creio; mas desconfiam.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. O Judas em Sábado de Aleluia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17002 . Acesso em: 28 jan. 2026.