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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

EDUARDO - Mas com o coração pervertido!... Ouve, Azevedo. Estou convencido que há um grande erro na maneira de viver atualmente. A sociedade, isto é, a vida exterior, tem-se desenvolvido tanto que ameaça destruir a família, isto é, a vida íntima. A mulher, o marido, os filhos, os irmãos, atiram-se nesse turbilhão dos prazeres, passam dos bailes aos teatros, dos jantares às partidas; e quando, nas horas de repouso, se reúnem no interior de suas casas, são como estrangeiros que se encontram um momento sob a tolda do mesmo navio para se separarem logo. Não há ali a doce efusão dos sentimentos, nem o bem-estar do homem que respira numa atmosfera pura e suave. O serão da família desapareceu; são apenas alguns parentes que se juntam por hábito, e que trazem para a vida doméstica, um, o tédio dos prazeres, o outro, as recordações da noite antecedente, o outro, o aborrecimento das vigílias!

AZEVEDO - E que concluis desta tirada filosófico-sentimental?

EDUARDO - Concluo que é por isso que se encontram hoje tantos moços gastos como tu; tantas moças para quem a felicidade consiste em uma quadrilha; tantos maridos que correm atrás de uma sombra chamada consideração; e tantos pais iludidos que se arruinam para satisfazer o capricho de suas filhas julgando que é esse o meio de dar-lhes a ventura!

AZEVEDO - Realmente estás excêntrico. Onde é que aprendeste estas teorias?

EDUARDO - Na experiência. Também fui atraído, também fui levado pela imaginação que me dourava esses prazeres efêmeros, e conheci que só havia neles de real uma coisa.

AZEVEDO - O quê?

EDUARDO - Uma lição; uma boa e útil lição. Ensinaram-me a estimar aquilo que eu antes não sabia apreciar; fizeram-me voltar ao seio da família, à vida íntima!

AZEVEDO - Hás de mudar. (Toma o chapéu e as luvas.)

EDUARDO - Não creio!... Já te vais?

AZEVEDO - Tenho que fazer. Algumas maçadas de homem que se despede de sua vida de garçon. Janto hoje com minha noiva; amanhã parto para minha fazenda, onde me demorarei alguns dias, e na volta terei o prazer de te anunciar, com todas as formalidades de estilo, em carton porcelaine sob o competente enveloppe satinée et dorée sur tranche, o meu casamento com a Sra. D. Henriqueta de Vasconcelos.

EDUARDO - Henriqueta!... Ah! É com ela que te casas?

AZEVEDO - Sim. De que te admiras?

EDUARDO - Julguei que escolhesses melhor! É tão pobre!

AZEVEDO - Mas é bonita e tem muito espírito. Há de fazer furor quando a Gudin ajeitá-la à parisiense.

EDUARDO - Dizem que é muito modesta.

AZEVEDO - Toda a mulher é vaidosa, Eduardo; a modéstia mesmo é uma espécie de vaidade inventada pela pobreza para seu uso exclusivo.

EDUARDO - Assim, estás decidido?

AZEVEDO - Mais que decidido! Estou noivo já. Adeus, aparece; andas muito raro.

CENA XIV

EDUARDO, PEDRO

PEDRO - O jantar está na mesa.

EDUARDO - Não me maces! Vai-te embora.

PEDRO - Sr. não vem, então?

EDUARDO - Chega aqui. Tu sabias que D. Henriqueta estava para casar?

PEDRO - Sabia, sim, senhor; rapariga dela me contou.

EDUARDO - E por que não vieste dizer-me?

PEDRO - Porque V.Mce. me deu ordem que não falasse mais no nome dela.

EDUARDO - É verdade.

CENA XV

Os mesmos, CARLOTINHA

CARLOTINHA - Demorou-se muito, mano. Eu lhe esperei!... Agora vamos jantar.

EDUARDO - Não; não tenho vontade, deixa-me.

PEDRO - Sr. moço está triste porque sinhá Henriqueta vai casar!

EDUARDO - Moleque!

CARLOTINHA - Você sabia? Era dela mesmo que eu queria falar-lhe.

EDUARDO - Sabia; o seu noivo acaba de sair daqui.

CARLOTINHA - Um Azevedo, não é?

EDUARDO - Sim, um homem que, além de não amá-la, estima-a tanto como as suas botas envernizadas e os seus cavalos do Cabo!

CARLOTINHA - Mas você não sabe a razão desse casamento?

EDUARDO - Sei, Carlotinha. Um amor pobre possui tesouros de sentimentos, mas não é moeda com que se comprem veludos e sedas!

CARLOTINHA - Oh! mano, não seja injusto! Ela me contou tudo!

EDUARDO - Desejava saber o que te disse.

CARLOTINHA - Logo depois de jantar, no jardim. Venha, mamãe está nos esperando.

ATO II

Em casa de EDUARDO. Jardim.

CENA PRIMEIRA

EDUARDO, CARLOTINHA, D. MARIA

EDUARDO - Lembras-te do que me prometeste?

CARLOTINHA - Falar-lhe de Henriqueta?... Lembro-me.

EDUARDO - Que te disse ela?

CARLOTINHA - Muita coisa! Mamãe não nos ouvirá?

EDUARDO - Não; podes falar. Estou impaciente!

CARLOTINHA - Aí vem ela!

D. MARIA - Ora, Carlotinha, tu com as tuas flores tens tomado de tal maneira os canteiros que já não posso plantar uma hortaliça.

CARLOTINHA - Porém, mamãe... É tão bonito a gente ter uma flor, uma rosa para oferecer a uma amiga que nos vem visitar!

D. MARIA - É verdade, minha filha; mas não te lembras que também gostas de dar-lhes uma fruta delicada... Assim os meus morangos estão morrendo, porque as tuas violetas não deixam...

CARLOTINHA - É a flor da minha paixão! As violetas! Que perfume!

D. MARIA - E os meus morangos, que sabor! Não tenho mais um pé de alface ou de chicória...

(continua...)

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