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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

O moço tinha deixado cair a cabeça até encostar a barba na mão esquerda, apoiando-se com o cotovelo sobre a mesa: parecia esquecido de si mesmo e só entregue a um profundo cogitar de recônditos pensamentos; pesadas idéias como que se lhe exalavam d’alma, e se lhe iam encrespar em sua fronte elevada, cujas rugas horizontais poderiam dizer-se ondas de um ânimo em tempestade.

A cena de concentração e de silêncio se foi prolongando mais e mais, sem que o mancebo pudesse arrancar-se dos braços de um pensamento em que, talvez a pesar seu, se achava embebido; e sem que também a velha ousasse despertar o moço daquele completo sono da matéria, que deixa a alma livre toda entregue a esse vivíssimo trabalho, que os homens chamam meditação.

O toque de recolher veio despertar o mancebo. O som dos bronzes pareceu tocar dolorosamente sua alma; e ele erguendo-se imediatamente, e sacudindo a cabeça como para espalhar o enxame de tristes idéias, que a pejavam, corou, olhando para Irias, e disse:

– É tarde: boa-noite, minha mãe.

Tomou então uma vela, acendeu-a, e sumiu-se por um corredor estreito e úmido, no fim do qual encontrou a escadinha do sótão, que vagarosamente galgou.

A velha em silêncio o abençoou, e duas lágrimas grossas e brilhantes vieram pendurar-se das pálpebras de seus olhos verdes, semelhantes a gotas de orvalho prestes a tombar do ápice de duas folhas de uma árvore secular.

Mas quem era esse mancebo?...

Chegado a casa de Irias apenas há dois meses, fora recebido como um extremosamente amado filho; e logo após sua vida correu triste e misteriosa, desconhecida e abafada, como alguns desses lúgubres pensamentos noturnos, que no leito concebem, e que no leito se deixam até o repousar da seguinte noite.

Sem um único amigo; só, Cândido (este o nome do mancebo) deixava o pequeno sótão do “Purgatório-trigueiro” pouco depois do amanhecer, e voltava de novo a ele quando a noite desdobrava o manto das trevas sobre a cidade do Rio de Janeiro.

E ninguém tinha até então notado naquele mancebo, que duas vezes por dia passava triste e silencioso o limiar da porta do “Purgatório-trigueiro”. Apenas o par terrível o observava cuidadoso: Jacó o tinha seguido por vezes, mas parara vendo-o entrar em uma muito freqüentada rua da corte na casa de um advogado. Jacó, que fora escrivão, detestava a justiça agora, e tinha medo de quem com ela estava em relação; e portanto, mesmo para os dois maldizentes e curiosos vizinhos, a vida de Cândido era um mistério... o pesadelo de Jacó... o tormento de Helena.

E o resto de sua vida, à noite, era ainda um novo segredo até para a velha Irias; era um segredo sepultado dentro de antigo sótão.

E a filha de Paulo Ângelo, ao romper de todas as auroras, passeava negligente e descuidada pelo seu jardim, e mal podia adivinhar que a essas horas a janeleta fechada do triste sótão do “Purgatório-trigueiro” encerrava um mancebo em toda força dos anos, que então ali descansava, ou... quem sabe o que ele fazia?

Mas quem era esse mancebo?...

É meia-noite. Uma luz pálida e fraca alumia uma rude câmara, cujas paredes mal rebocadas, e já aqui e ali fendidas, ameaçam desabar bem cedo. Tábuas já meio apodrecidas, e que rangem ao pisar de um pé menos leve, fazem o assoalho dessa câmara, que nem ao menos é forrada. No fundo vê-se uma pequena janela, e iguais a esta duas outras, que se abrem uma para cada lado. Todas três se acham fechadas. Mas naquela, que fica à direita, uma fenda larga de três dedos deixa passar os raios da lua, que vem inundar o interior daquele aposento resfriado incessantemente pelas brisas da noite, que entram pela fenda da janela.

Vê-se ao lado esquerdo uma mesa pequena, e sobre ela tudo o que é de mister para escrever. Defronte dessa uma outra muito maior coberta de livros, de papéis e de estampas; não longe desta um leito baixo e estreito; a um canto uma harpa, cujas cordas, pela maior parte rebentadas, atestam o esquecimento de seu dono.

Eis o sótão do “Purgatório-trigueiro” todo completo.

Na hora em que fizemos a descrição da câmara desse sótão, a qual era o sótão inteiro, à meia-noite, um mancebo achava-se sentado junto da mesa pequena, e tinha o rosto caído sobre um livro, onde acabara de escrever algumas linhas. Seu braço direito estendia-se sobre a mesa, e ele apertava ainda a pena entre os dedos.

Cândido havia involuntariamente adormecido.

Quem se tivesse então colocado por trás do mancebo e lhe afastasse um pouco a cabeça, poderia ler uma página do livro da vida daquele homem. Este livro era o seu diário, a urna onde sepultava os pensamentos de cada um de seus dias.

Uma página apenas se oferece a saciar nossa curiosidade. Eis, pouco mais ou menos, o que estava escrito:

(continua...)

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