Por Machado de Assis (1865)
Fernando não pôde afrontar a presença da moça. Correu para a janela e saltou para o jardim.
Lúcia, que ouvira as últimas palavras dos dois, correu a abraçar a amiga, exclamando: — Muito bem! muito bem!
Dias depois Mendonça e Carolina saíram para uma viagem de um ano. Carolina escrevia o seguinte a Lúcia:
Deixo-te, minha Lúcia, mas assim é preciso. Amei Fernando, e não sei se o amo agora, apesar do ato covarde que praticou. Mas eu não quero expor-me a um crime. Se o meu casamento é um túmulo, nem por isso posso deixar de respeitá-lo. Reza por mim e pede a Deus que te faça feliz.
Foi para estas almas corajosas e honradas que se fez a bem-aventurança.
IV
Carlota e Hortência
Uma fila de cinqüenta carros, com um coche fúnebre à frente, dirigia-se para um dos cemitérios da capital.
O carro funerário conduzia o cadáver de Carlota Durval, senhora de vinte e oito anos, morta no esplendor da beleza.
Os que acompanhavam o enterro, apenas dois o faziam por estima à finada: eram Luís Patrício e Valadares.
Os mais iam por satisfazer a vaidade do viúvo, um José Durval, homem de trinta e seis anos, dono de cinco prédios e de uma dose de fatuidade sem igual. Valadares e Patrício, na qualidade de amigos da finada, eram os únicos que traduziam no rosto a profunda tristeza do coração. Os outros levavam uma cara de tristeza oficial. Valadares e Patrício iam no mesmo carro.
— Até que morreu a pobre senhora, disse o primeiro ao fim de algum silêncio. — Coitada! murmurou o outro.
— Na flor da idade, acrescentava o primeiro, mãe de duas crianças tão bonitas, amadas por todos... Deus perdoe aos culpados!
— Ao culpado, que foi só ele. Quanto à outra, essa se não fora desinquietada... — Tens razão!
— Mas ele deve ter remorsos.
— Quais remorsos! É incapaz de os ter. Não o conheces, como eu? Ri e zomba de tudo. Isto para ele foi apenas um acidente; não lhe dá maior importância, acredita. Este pequeno diálogo dá já ao leitor uma idéia dos acontecimentos que precederam à morte de Carlota.
Como esses acontecimentos são o objeto destas linhas destinadas a apresentar o perfil desta quarta mulher, passo a narrá-los mui sucintamente.
Carlota casara com vinte e dois anos. Não sei por que apaixonara-se por José Durval, e menos ainda no tempo de solteira, de que depois de casada. O marido era para Carlota um ídolo. Só a idéia de uma infidelidade da parte dele bastava para matá-la. Viveram algum tempo no meio da mais perfeita paz, não que ele não desse à mulher motivos de desgosto, mas porque eram estes tão encobertos que nunca haviam chegado aos ouvidos da pobre moça.
Um ano antes Hortência B., amiga de Carlota, separava-se do marido. Dizia-se que era por motivos de infidelidade conjugal da parte dele; mas ainda que o não fosse, Carlota receberia a amiga em sua casa, tão amiga era dela.
Carlota compreendia as dores que podiam trazer a uma mulher as infidelidades do marido; por isso recebeu Hortência com os braços abertos e entusiasmo no coração. Era o mesmo que se uma rosa abrisse o seio confiante a um inseto venenoso. Dai a seis meses Carlota reconhecia o mal que tinha feito. Mas era tarde. Hortência era amante de José Durval.
Quando Carlota descobriu qual era a situação de Hortência em relação a ela, sufocou um grito. Era a um tempo, ciúme, desprezo, vergonha. Se alguma coisa podia atenuar a dor que ela sentia, era a covardia do ato de Hortência, que tão mal pagava a hospitalidade que obtivera de Carlota.
Mas o marido? Não era igualmente culpado? Carlota avaliou de um relance toda a hediondez do proceder de ambos, e resolveu romper um dia.
A frieza que começou a manifestar a Hortência, mais do que isso, a repugnância e o desdém com que a tratava, despertou no espírito desta a idéia de que era preciso sair de uma situação tão falsa.
Todavia, retirar-se simplesmente seria confessar o crime. Hortência dissimulou e um dia recriminou a Carlota os seus modos recentes de tratamento.
Então tudo se clareou.
Carlota, com uma cólera sufocada, lançou em rosto à amiga o procedimento que tivera em casa dela. Hortência negou, mas era negar confessando, pois que nenhum tom de
sinceridade tinha a sua voz.
Depois disso era necessário sair. Hortência, negando sempre o crime de que era acusada, declarou que sairia de casa.
— Mas isso não desmente, nem remedia nada, disse Carlota com os lábios trêmulos. É simplesmente mudar o teatro das suas loucuras.
Esta cena abalou a saúde de Carlota. No dia seguinte amanheceu doente. Hortência apareceu para falar-lhe, mas ela voltou o rosto para a parede. Hortência não voltou ao quarto, mas também não saiu da casa. José Durval impôs essa condição. — Que dirá o mundo? perguntava ele.
A pobre mulher foi obrigada a sofrer mais essa humilhação.
A doença foi rápida e benéfica, porque no fim de quinze dias Carlota expirava. Os leitores já assistiram ao enterro dela.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Cinco mulheres. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1865.