Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

Antônio José

Por Machado de Assis (1879)

Nisto, menos que em nenhuma outra cousa, imitaria ele o grande mestre. Não lhe fossem propor graves problemas, nem máximas profundas, nem os caracteres, nem as altas observações que formam o argumento das comédias de outra esfera, nem sobretudo as melancolias de Molière e Shakespeare. O nosso judeu era a farsa, a genuína farsa, sem outras pretensões, sem mais remotas vistas que os limites do seu bairro e do seu tempo. Certo, eu posso hoje, à na força, arrancar alguma ideia inicial das óperas do judeu; por exemplo, ao ver nos Encantos de Medeia a dedicação da feiticeira de Colchos, que trai os deveres liais e põe todas as suas artes ao serviço de Jason, ao ponto de lhe entregar o velocino e ao ver que, apesar de tudo isto, o príncipe foge com Creusa, posso, digo eu, atribuir ao poeta a intenção de que o reconhecimento não é caminho do amor e que um coração pode ser legitimamente ingrato. Seria lógico, seria bem deduzido da ação, mas não passaria de obra da crítica, inteiramente alheia à intenção do poeta, que achou no assunto uma farsa de tramoias e nada mais. Esta é a última conclusão que rigorosamente se pode tirar do poeta. Ele não imitou, não chegaria a imitar Molière, ainda que repetisse as transcrições que fez no Antrião; tinha originalidade, embora a inuência das óperas italianas. Convenhamos que era um engenho sem disciplina, nem gosto, mas característico e pessoal.

Notas

1 Publicado originalmente com o título “Relógio Parado”.

2 Publicado originalmente com o título “Antônio José e Molière”.

3 Criados.

123456
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →