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#Contos#Literatura Brasileira

Um homem superior

Por Machado de Assis (1873)

— Vá, disse ela, que eu bem compreendo a grandeza de sua alma nesta separação. Mas prometa que voltará daqui a seis meses...

Juro.

VII

Pedira o comendador aquilo que os dois desejavam ardentemente.

Seis meses depois eram casados o jovem Clemente Soares e a gentil viúva; não houve nenhuma escritura de separação de bens, pela simples razão de que o noivo foi o primeiro que propôs a idéia. Verdade é que se a propôs, é porque tinha a certeza de que não seria aceita.

Não era Clemente homem que se encafuasse numa fazenda e se contentasse com a paz doméstica.

Dois meses depois de casado, vendeu a fazenda e os escravos, e veio estabelecer vivenda na corte, onde hoje foi conhecida a sua aventura.

Nenhuma casa lhe fechou as portas. Um dos primeiros que o visitou foi o negociante Medeiros, ainda em tristes circunstâncias, e por tal modo que chegou a lhe pedir algum dinheiro emprestado.

Clemente Soares fez a felicidade da mulher durante um ano ou pouco mais. Mas não passou daí. Dentro de pouco tempo, Carlotinha estava arrependida do casamento; era tarde.

Soube a moça de algumas aventuras amorosas do marido, e censurou-lhe esses atos de infidelidade; mas Clemente Soares motejou do caso, e Carlotinha recorreu às lágrimas. Clemente levantou os ombros.

Começou uma série de desgostos para a moça, que ao fim de três anos de casada estava magra e doente, e ao fim de quatro expirou.

Fez-lhe Clemente um pomposo enterro a que assistiram até alguns ministros de Estado. Vestiu-se de preto durante um ano, e quando acabou o luto foi viajar para se distrair da perda, dizia ele.

Quando voltou, encontrou os mesmos afetos e consideraqões. Algumas pessoas diziam ter queixas dele, a quem chamavam ingrato. Mas Clemente Soares não se importava do que a gente dizia.

Aqui acaba a história.

Como! E a moralidade? A minha história é isto. Não é uma história, é um esboço, menos que um esboço, é um traço. Não me proponho a castigar ninguém, salvo Carlotinha, que se achou bem punida de ter amado outro homem em vida do marido. Quanto a Clemente Soares nenhuma punição teve, e eu não hei de inventar no papel aquilo que se não dá na vida. Clemente Soares viveu festejado e estimado por todos, até que morreu de apoplexia, no meio de muitas lágrimas, que não eram mais sinceras do que ele foi durante sua vida.

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