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#Contos#Literatura Brasileira

Um ambicioso

Por Machado de Assis (1877)

José Cândido tinha apreendido a palavra apócrifa, nas lutas eleitorais; o pai, que nunca entrara nelas, ignorava absolutamente o sentido da palavra e teve vergonha de o pedir. Felizmente o boticário defronte tinha um dicionário, que lhe emprestou, e ele pôde ler a definição do termo, e com certo custo aplicou-o ao caso.

Infelizmente, no dia seguinte era publicada uma circular política recomendando a lista que se dizia apócrifa; e dessa vez não era lícito duvidar, salvo se a circular fosse também apócrifa, o que José Cândido não teve ânimo de dizer. Confessou tudo; acrescentou que por motivos políticos ele não fora incluído na lista, mas que o partido o ajudaria por trás da cortina.

— Mas o dinheiro? bradou o pai, que ia achando apócrifos tanto o partido como a cortina.

— O dinheiro...

— Sim, onde está?

— O dinheiro é necessário à luta, disse José Cândido com um ar ingênuo. Quando duas facções de um mesmo grupo de interesses...

— Qual, interesses! Vai buscar o dinheiro.

Era difícil obedecer. Parte dele estava já em jantares, charutos, paletós, empréstimos, pagamento de dívidas. Demais, José Cândido não cederia nunca. Disse-lhe que o dinheiro tinha seguido o seu destino.

O sr. Mateus sentiu alguma coisa semelhante a um tiro na boca do estômago. Caiu numa cadeira, bufou, espumou, declarou a José Cândido, que saísse e nunca mais lhe pusesse os pés em casa. José Cândido não fez grande esforço para ficar; aceitou a solução e saiu.

— Nunca mais! bradou o pai. Ouviste? nunca mais!

E vendo-o sair sem dizer palavra, sem tentar abrandá-lo, sem um remorso aparente, o sr. Mateus sentiu uma comoção superior à da perda dos quatro contos. A paternidade falou mais alto que o dinheiro.

Meia hora depois voltou à loja com os olhos vermelhos.

Tinha chorado.

José Cândido não chorou; saiu teso, até risonho, com os olhos na estrela eleitoral, certo de que o pai lhe abriria a porta e os braços no dia em que o visse aparecer triunfante. Foi dali ao barbeiro, contou-lhe o caso e as esperanças, que não perdera de abrandar a cólera do pai, quando fosse eleito. O barbeiro, dentro em si, reprovou o incidente; mas a esperança de um triunfo à custa do dinheiro de José Cândido, fê-lo calar todos os escrúpulos. Ele aprovou de boca o procedimento de José Cândido, que achou digno sem ser desrespeitoso. Esta opinião, que o envergonhava, foi dita ao mesmo tempo que ele afinava a rabeca; meio de se não ouvir a si próprio.

A notícia da expulsão de José Cândido caiu como uma bomba em casa da sra. Inácia. Esta deu um salto ao xale e precipitou-se para casa do primo, a saber do que havia, enquanto Emília, a namorada de José Cândido, se desfazia em lágrimas amargas. No meio das lágrimas apareceu-lhe José Cândido.

— Será verdade? perguntou a moça.

— O quê?

— Que você foi posto fora de casa.

José Cândido ergueu os ombros. Emília soltou um dilúvio de novas lágrimas.

— Mas por que chora você? perguntou José Cândido exasperado.

— Por quê? perguntou a moça indignada.

— Sim, por quê?

Emília disse que ele era um ingrato, e intimou-o a reconciliar-se com o pai; insinuou-lhe mesmo que o fato da expulsão podia demorar ou tornar impossível a aliança conjugal que os dois ambicionavam. Sou obrigado a dizer que este era o motivo secreto das lágrimas de Emília.

José Cândido respondeu com um repelão, declarou que tudo estava acabado entre eles, e saiu, sempre com os olhos na estrela eleitoral. O barbeiro teve igualmente notícia deste rompimento; e secretamente achou que era complicar a situação já melindrosa; mas de viva voz confessou que os sentimentos de segunda ordem não podem impedir a expansão dos altos interesses e das nobres paixões cívicas. Seu estilo foi menos levantado, mas a idéia foi aquela.

José Cândido concordava com tudo; animava-o a idéia de que não há arrufos diante de um candidato vencedor, e vivia com os olhos nas urnas. Uma dúzia de sujeitos trabalhava em favor dele; dois viviam dia e noite a copiar cédulas. José Cândido, vendo quinhentas, mil, duas mil cédulas manuscritas, imaginara que eram outros tantos votos, e figurava já o efeito de seu nome impresso com o algarismo dos votos adiante. Nunca mais fora à casa do capitão. Este duas ou três vezes mandou-o chamar; uma vez chegou a procurá-lo, mas não o encontrou; deixou um recado, inútil.

Os dois caudilhos estavam divorciados.

E à proporção que os quatro contos iam fugindo, a aurora esperada vinha a aproximar-se de José Cândido; o barbeiro e mais dois ou três férvidos partidários faziam esforços hercúleos. José Cândido chegou a sacrificar alguns mil-réis, nos jornais, em mofinas deste gênero:

ELEITORADO

Recomendamos o nome de um jovem cheio de serviços e de incontestável aptidão: o sr. José Cândido.

Um do Povo

Ou assim:

AO POVO!

Votemos no sr. José Cândido, uma das esperanças da mocidade e um dos fluminenses mais dignos por seus serviços e modéstia.

Justus

Ou assim:

À URNAS!

(continua...)

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