Por Machado de Assis (1877)
— Bom pai de família... Não, senhor, não me arrependo do benefício que lhe fiz. Seixas, entretanto, andava cogitando nos meios da fazer uma viagem à Europa. Não se pode dizer que José Marques fosse a causa disso; mas nas vantagens da viagem, entrava a da ausência deste. Uma só dificuldade havia; era o casamento de Elvira. Elvira, a filha de Seixas, era na verdade uma herdeira graciosíssima, que ainda não sabia haver-se com as cassas e as sedas de que a vestiam, ela, que passara os primeiros anos envolvida em chita, algumas vezes rota. Mas era mulher, bonita e vaidosa; depressa se acostumou às exigências da nova posição. Tinha uns olhos e uns cabelos, negros como a noite escura, uns olhos que traziam desvairados outros da mesma e de outras cores. Mas só dois olhos eram felizes; eram os olhos do novo guarda-livros da casa do pai. Este empregado amava tanto a filha do patrão, como o leitor ama a rainha Pomaré; a faculdade mestra de sua organização era a do negócio. Viu em Elvira uma herdeira bonita, e atirou-se a ela; nada mais.
Seixas percebeu o namoro e aprovou-o mentalmente; esperava que o rapaz a pedisse para consentir logo; mas este hesitava ainda, ou receoso do resultado, ou desejoso de fortalecer mais a sua posição. Não foi ele, porém, o único ferido pela seta do amor. José Marques sentiu-se igualmente tocado da misteriosa arma. Velhote ainda fresco e bem disposto, não pôde nem quis resistir ao ferimento, nem levou a autora à polícia; rendeu se-lhe aos pés. Elvira deu pela vítima antes mesmo que esta desse por si. É privilégio comum a todas as mulheres. Um homem, quando acontece ser amado por uma senhora, sem iniciativa dele, quase precisa que lhe vão levar a notícia à casa; a mulher é a primeira que vê incêndio na casa do vizinho.
Viu Elvira o incêndio e deixou-o arder. José Marques, porém, foi pedir à moça um pouco de aguada da sua benevolência para atalhar o mal. Vê a leitora que estamos em pleno pays du tendre. Não lhe pediu ele com a boca, mas com os olhos; Elvira entendeu e riu. Ele pensou que o riso era afirmação e levantou as mãos ao céu.
— Quem diria que aquela santa seria tão cedo substituída! exclamou José Marques dentro de si.
Depois cogitou. Cogitou e hesitou. Hesitou, mas venceu, isto é, dispôs-se a casar.
— Dirão muita coisa de mim, pensou ele; mas hão de levar em conta as verduras de uma mocidade prolongada.
Verduras!
Assim disposto, convencido e resoluto, foi José Marques ter com o Seixas.
— Tenho uma coisa para te pedir, disse ele.
— Fala.
— Uma coisa séria.
— Pois fala!
— Muito séria. Que pensas de mim?
— O que penso?
— Sim; que te parece a minha idade?
— Respeitável.
— Justamente: uma idade respeitável, isto é, não caio de maduro.
— Oh! nem eu!
— Nem tu. De maneira que se te dissessem que eu me ia casar, não te admiravas?
— Casar!
— Responde.
Seixas hesitou um instante.
— Não me parece, disse ele, que a coisa fosse de todo desarrazoada. Devo, contudo, dizer-te que não posso ser padrinho... Ando agora muito ocupado.
José Marques sorriu à socapa.
— Nem é para isso que te convido.
— Ah!
— Convido-te para coisa melhor; convido-te para pai.
— Pai!
— Pai da noiva.
— Pai da noiva!
José Marques abriu os braços.
— Dá cá esses ossos! exclamou. Eu restituí-te a vida um dia; tu vais restituir-me a felicidade doméstica.
Seixas começava a ter umas suspeitas da realidade.
— Explica-te! disse ele.
— Peço-te a Elvira.
Seixas não caiu das nuvens, porque já vinha a meio caminho; mas ficou consternado. A consternação era uma prova de simpatia, a última que ele lhe podia dar. A idéia de José Marques parecia-lhe que frisava com a demência. Depois da consternação teve vontade de rir; mas conteve-se. Conteve-se, levantou os ombros, e não respondeu ao pretendente; nem o poderia fazer se quisesse, porque este entregara-se todo a uma descrição vivíssima do afeto que a moça lhe inspirava, e da ambição que tinha de a fazer feliz.
— Meu caro Marques, disse enfim o pai de Elvira, serei franco. Não te posso dar minha filha.
— Não?
— Não posso.
— Mas por quê?
— Tenho outras idéias.
— Será possível? Parece-me contudo que... Estás brincando, decerto.
— Não estou; destino-a a outro.
— Quem quer que seja, meus direitos são anteriores aos dele, porque esse com certeza não te deu nunca provas de amizade, pelo menos do quilate das que te dei. Seixas, levantou os ombros segunda vez, com tal expressão, que não havia duvidar. José Marques ficou abatido. Murmurou um queixume, que o outro ouviu assobiando, e despediu-se.
— Um homem a quem dei o pão! dizia ele ao entrar em sua casa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um almoço. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.