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#Contos#Literatura Brasileira

Quinhentos contos

Por Machado de Assis (1859)

— Creio na sinceridade do interesse que toma por mim, disse o coronel parando e encostando-se a uma palmeira. Dir-lhe-ei em poucas palavras o que é. Há um fato na minha família que eu não posso recordar sem lágrimas e sem ódio. Meu filho foi assassinado em 1842, em Minas. Essa morte ficou impune; a sociedade esqueceu o crime, não eu. Fazem hoje anos que se deu esse triste acontecimento. Helena não sabe que faz anos com a morte do pai; mas eu sei, e devoro em silêncio a minha dor.

Batista mostrou um rosto compungido, e apertando a mão do velho, exclamou:

— Coronel!

— Não acha que é um motivo suficiente?

— Demais.

— Estou alquebrado; mas se eu hoje achasse o assassino de meu filho creio que o mataria eu próprio!

— Afaste essas idéias de si, coronel, disse Batista. O crime é sempre crime. Perdoá-lo é ser digno de Deus!

— Perdoar, nunca!

Pouco depois os diversos grupos encontraram-se no mesmo ponto, isto é, debaixo de um pequeno caramanchão, onde foi servido o café.

Luís e Carlos lutavam de amabilidade e de solicitude. Helena sorria para ambos, com uma bondade aparente e um latente desdém. Tê-los-ia compreendido? Parece.

A noite começou a cair. Helena, que era a heroína do dia, o objeto da pequena festa doméstica, convidou as senhoras e os rapazes a irem para a sala tocar um pouco e conversar. Entraram todos com efeito, Helena de braço com Máximo, que, longe de ter-lhe oferecido, fora convidado por ela, em alta voz, a conduzi-la para dentro.

Nesse dia era a terceira prova de distinção que a neta do coronel dava ao dr. Máximo. Nenhuma delas escapou a Carlos Batista. Daí em diante não os perdeu de vista.

Baldado esforço! Máximo, que era de hábitos reservados, raras vezes olhava para Helena, posto que esta de quando em quando procurasse o jovem médico com os olhos. Era fortuito? era de propósito?

A nuvem desta dúvida assomou no fundo do espírito do moço, que sem mais detença entendeu-se com o pai.

— Se é verdade isto, disse ele, é preciso pôr-lhe um termo.

— Sem dúvida alguma.

A hipótese de um terceiro pretendente reconciliou por alguns momentos os dois campos. Os dois mancebos, comunicando as suas observações, foram de acordo que era conveniente reunir todos os esforços contra o inimigo comum.

— Se é ele quem pretende, dizia um, é preciso que desista.

— Se é amado por ela, acrescentava o outro, é preciso separá-los.

— Mas o meio? dizia Carlos. Eu estou disposto, e há de haver algum meio; mas qual?

Esta conversa, que era tida enquanto Carlos simulava folhear um álbum de retratos que estava em cima da mesa, ninguém podia ouvi-la, porque nesse momento Helena tocava piano, e todos mais ou menos grupavam-se no fundo da sala.

— Toda a questão, insistia Carlos, é ter um meio útil, rápido, conveniente.

Apenas dizia ele isto, uma pessoa que ouvira a conversa por trás deles, e que era nada menos que o sr. Antônio Alves das Antas, soltou estas enérgicas palavras, em voz igualmente baixa:

— O meio? Há um: sou credor dele.

Os dois voltaram-se dando um pequeno grito.

Nesse momento os aplausos coroavam a jovem pianista, que acabava de tocar umas variações de Thalberg.

CAPÍTULO IV

São passados dois dias depois do jantar de anos de Helena.

A neta do coronel estava na sala de recepção, lendo e relendo um papelinho que tirara do seio.

Eram versos.

Anunciou-se o dr. Máximo.

O dr. Máximo, com quem já travamos rápido conhecimento, não se podia dizer que era um belo homem, mas era profundamente simpático, e a fisionomia severa coberta de um certo (3) melancólico que dispunha o espírito dos outros a estimá-lo e amá-lo. Havia um perfeito acordo entre a sua aparência e o seu caráter. Máximo era um homem de bem, na elevada acepção desta frase.

Quando ele entrou na sala da viúva, esta estremeceu ligeiramente, e levantando-se foi ao encontro do doutor.

— É milagre, doutor! disse ela. Raríssimo aparece aqui de tarde... mas eu agradeço aos céus o ter compreendido que a sua presença nesta casa é sempre um motivo de satisfação.

— Se é, lamento que hoje seja um motivo de desgosto.

— Por quê? perguntou Helena empalidecendo.

— Porque é de despedida.

Houve um silêncio entre ambos.

— De despedida! repetiu Helena.

— Embarco para o Sul.

— Algum negócio urgente?

— Talvez.

— Quando volta?

— Não sei.

Helena sentou-se, talvez por não poder ter-se de pé; e com um gesto convidou Máximo a sentar-se também.

— Que mal lhe fizemos nós?

— Oh! nenhum! respondeu Máximo; e se eu contasse os males da minha vida pelos bens destes últimos três meses, tinha motivos para abençoar o meu destino.

— Que mal lhe fiz eu? perguntou Helena timidamente.

— A pergunta é cruel; bem sabe que nunca me fez mal algum.

— Mas sabe que esta partida é uma dor para mim?

— Agradeço-lhe a sua amizade.

Helena abaixou os olhos, e calou-se; mas daí a alguns minutos levantou-se, e disse-lhe rapidamente, buscando o caminho da porta:

— O meu amor, deve dizer!

— Amor! exclamou Máximo.

E travando da mão de Helena reteve-a ao pé de si, dizendo:

— Amor! Ah! repita-me essa palavra que é toda a felicidade da minha vida...

(continua...)

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