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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Depois mandaram-no tirar a roupa do corpo (até ficou envergonhado...), examinaram-lhe as costas, o peito, as virilhas, e deram-lhe uma camisa azul de marinheiro.

No mesmo dia foi para a fortaleza, e , assim que a embarcação largou do cais a um impulso forte, o novo homem do mar sentiu pela primeira vez toda a alma vibrar de uma maneira extraordinária, como se lhe houvessem injetado no sangue de africano a frescura deliciosa de um fluido misterioso. A liberdade entrava-lhe pelos olhos , pelos ouvidos, pelas narinas, por todos os poros, enfim, como a própria alma da luz, do som, do odor e de todas as cousas etéreas... Tudo que o cercava: a planura da água cantando na proa do escaler, o imaculado azul do céu, o perfil longínquo das montanhas, navios balouçando entre ilhas, e a casaria imóvel da cidade que ficava para trás — os companheiros mesmo que iam remando igual, como se fossem um só braço —, e sobretudo, meu Deus!, sobretudo o ambiente largo e iluminado da baía: enfim, todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e vida, que até lhe vinha vontade de chorar, mas de chorar francamente, abertamente, na presença dos outros, como se estivesse enlouquecendo... Aquele magnífico cenário gravara-se-lhe na retina para toda a existência; nunca mais o havia de esquecer, ó, nunca mais! Ele, o escravo, o “negro fugido” sentia-se verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza, em toda a pujança viril da sua mocidade, e tinha pena, muita pena dos que ficavam na “fazenda” trabalhando, sem ganhar dinheiro, desde a madrugada té ... sabe Deus!

No princípio, antes de ir para bordo, foi-lhe difícil esquecer o passado, a “mãe Sabina”, os costumes que aprendera nos cafezais... Muita vez chegava a sentir um vago desejo de abraçar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa lembrança esvaía-se como a fumaça longínqua e tênue das queimadas, e ele voltava à realidade, abrindo os olhos, num gozo infinito para o mar crivado de embarcações...

A disciplina militar, como todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regimen terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”... Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias — o mesmo serviço, a mesma folga. — “E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d’amanhã!”

Amaro soube ganhar logo a afeição dos oficiais. Não podiam eles, a princípio, conter o riso diante daquela figura de recruta alheio às praxes militares, rude como um selvagem, provocando a cada passo gargalhadas irresistíveis com seus modos ingênuos de tabaréu; mas, no fim de alguns meses, todos eram de parecer que “o negro dava para gente”. Amaro já sabia manejar uma espingarda segundo as regras do ofício, e não era lá nenhum botocudo em artilharia; criara fama de “patesca”.

Nunca, durante esse primeiro ano de aprendizagem, merecera a pena de um castigo disciplinar: seu caráter era tão meigo que os próprios oficiais começaram a tratá-lo por Bom-Crioulo. Seu maior desejo, porém, sua grande preocupação, era embarcar fosse em que navio fosse, acostumar-se a viver no mar, conhecer, enquanto estava moço, os costumes de bordo, saber praticamente “amichelar uma verga, rizar uma vela, fazer um quarto na agulha...” Podia muito bem ser promovido logo... Invejava os que andavam no alto-mar, longe de terra, bordejando à solta por esses mundos de Deus. Como devia de ser bom para a alma e para o corpo o ar livre que se respira lá fora, sobre as águas!...

Divertia-se a construir pequenas embarcações de madeira imitando navios de guerra com flâmula no tope do mastro e portinholas, cruzadores em miniatura, iatezinhos, tudo à ponta de canivete e com a paciência tenaz de um arquiteto.

Mas, nada de o fazerem embarcar definitivamente! Ia para bordo, às vezes, em exercício, remando no escaler, mas voltava logo com a turma dos outros aprendizes, triste por não ter ficado, sonhando histórias de viagens, cousas que havia de ver, quando pela primeira vez saísse pela barra fora...

Chegou afinal esse dia. Bom-Crioulo estava nomeado para embarcar num velho transporte que seguia para o sul.

— Ora, até! fez ele, erguendo os braços com um gesto de maravilhosa surpresa. Até que enfim, graças a deus, lembraram-se do Bom-Crioulo!

E saiu por ali muito feliz, muito alegre, todo alvoroçado, anunciando seu destino. — Queriam alguma cousa do sul? Nem uma lembrançazinha do Rio Grande? Nada, nada ?...

— Traze uma paraguaia, ó Bom-Crioulo, gracejava um.

(continua...)

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