Por Adolfo Caminha (1893)
A seca dizimava populações inteiras no sertão. Famílias sucumbiam de fome e de peste, castigadas por um sol de brasa. Centenas de foragidos, arrastando os esqueletos seminus, cruzavam-se dia e noite no areal incandescente dos caminhos — abantesmas da desgraça gemendo preces ao Deus dos cristãos, numa voz rouquenha, quase soluçada. Era um horror de misérias e aflições.
Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na pista de socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem por sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas.
Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo quarenta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente, puro e abundante sangue português. Nunca sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma família de Furtados da Telha. Até então só tivera três filhos, um dos quais, o mais velho, chamado Lourenço, fora recrutado para o exército por peralta incorrigível. Outro, o Casimiro, mais rude e também mais obediente, vivia com os pais, era mesmo o vaqueiro de Mendonça que descobrira nele especial vocação para esse inglório trabalho de andar atrás das boiadas — ecô! ecô! — metido em couros, chapinhando açudes e lagoas, galopando à brida solta nas várzeas, ao ar fresco das manhãs do norte, identificado, por assim dizer, com o mugir nostálgico e penoso do gado. Desde menino, o pai acostumara-o à vida alegre do campo, e agora aí vinha também, Deus o sabe, triste e apreensivo, caminho da capital cearense, no seu pedrês choutão, escanchado entre dois grandes alforjes de farinha e carne salgada.
Por último nascera Maria do Carmo, o último filho de Mendonça, a caçula. Em 1877 completava seis anos, e, para felicidade dos pais, era uma criança verdadeiramente encantadora, com seu arzinho ingênuo e meigo de sertaneja. A cor, os olhos, os dentes, o cabelo — tudo nela era um encanto: olhos puxando para negros, dentes miudinhos e de uma brancura de algodão em rama, cabelos negros e luzidios como a asa da graúna — morena-clara. Crescia sem outra educação a não ser a que lhe davam os pais, de modo que, naquela idade, mal soletrava a Doutrina Cristã.
Mendonça abalara de Campo Alegre quando de todo lhe tinham fugido as esperanças de inverno seguro, depois de ter visto estrebuchar a última rês no solo duro e estéril.
Todas as tardes, invariavelmente, da janela que dizia para o poente, ou em pé na varanda, consultava o tempo, os horizontes cor de cinza, o céu de um azul diáfano de safira, procurando bispar na inclemência da atmosfera imóvel a sombra fresca de uma nuvem, um indício qualquer de chuva.
Surpreendia às vezes, crivando a transparência do ar, revoadas de aves de arribação. Recolhia-se animado. Mas os dias passavam quentes e secos.
Outras vezes, à noitinha, clarões rápidos e lívidos abriam-se no poente como reflexos de luz elétrica; ouvia-se rolar a trovoada muito ao longe. Mendonça punhase a escutar calado, sentia um como arrepio bom, e lá tornava a iludir-se alimentando, toda uma noite, a doce esperança de ver pela manhã o solo úmido e a rama brotando verde e pujante da “fornalha”. Mas qual! As manhãs sucediam-se cada vez mais tépidas, sem pingo de água, uma aragem leve, de cemitério, arrepiando a folhagem do arvoredo. Um céu muito alto, varrido, monótono, indecifrável como um dogma.
E pouco a pouco aquele estado de coisas foi atuando forte no espírito do sertanejo, como as vibrações de um clarim que dá sinal de marcha; pouco a pouco foi-se convencendo de que aquilo era uma situação impossível em que ele não devia absolutamente permanecer.
Os açudes estorricavam mostrando os leitos gretados pelo sol, duros como pedra; juritis encandeadas iam espapaçar ofegantes no chão, defronte da casa, cascavéis chocalhavam no alpendre, ocultas, invisíveis, e todas as coisas tinham um aspecto desolado e lúgubre que se comunicava às criaturas.
Passava gente todo santo dia, a pé, de trouxa ao ombro, arrastando-se pesadamente.
Uma vez ele próprio, Mendonça, vira de perto a agonia lenta de uma mulher asfixiada pela elefantíase — pernas inchadas, ventre inchado, rosto inchado — horrível!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.