Por Inglês de Sousa (1891)
A bordo, Macário foi o primeiro que falou com o vigário de Silves. Era um rapaz alto, de boas cores, cabelos e olhos negros, muito novo ainda. Vestia uma batina nova, muito bonita, e tinha na mão grande chapéu de três bicos, novidade em Silves.
Mas o Macário não podia examinar S. Rev.ma bem à sua vontade. O tombadilho estava cheio de gente, não só passageiros, homens de fraque preto e chapéu de pele de lebre, mulheres de casaquinha branca rendada e saias de lã ou de seda; como ainda marinheiros com largas jaquetas de pano azul e boné de galão. Ora, toda esta gente olhava para os homens da terra, como se estivesse vendo bichos, e tornava-se incômoda afinal. Macário estava em brasas, não por si, afinal era filho de Manaus, duma capital, estava costumado a ver gente, mas pelos companheiros — coitados! que não sabiam como evitar aqueles olhares curiosos e impertinentes!
Felizmente uma sineta deu o sinal convencionado de que a demora do vapor não seria longa. As malas de S. Rev.ma já estavam no escaler da Agência, que as devia levar para a terra. O comandante, em tom de bonomia grosseira, declarou que o vapor ia largar, pois não podia demorar-se naquela tapera, por ter necessidade de chegar cedo a Serpa, onde desembarcaria muita carga para o Madeira.
- Para a terra quem for de terra! concluiu com um gesto largo de despedida. Quando o vigário passou, acompanhado por muita gente, pela loja do Costa e Silva, o Chico Fidêncio pôs-se na pontinha dos pés, para melhor apreciar a saída do paquete, afetando não prestar atenção ao fato que agitava a população toda. Os rapazes da sua roda imitaram-no, falando cm voz alta da manobra do navio.
Então o professor Aníbal, pardo, de cabelo à escovinha e óculos de tartaruga, saiu da comitiva do vigário, e, amparado pelo escudo moral do coleguismo, aproximou-se do grupo do Chico Fidêncio, sorrateiro, quase sem ser visto, e quando se achou entre o colega e os rapazes, perguntou-lhes, para entabular conversa, se sabiam da história, contada pelo imediato do vapor, relativa á preferência dada a Silves sobre S. Sulpício, uma coisa soberba, uma prova da desinteresse e da virtude do novo vigário. Era de bom agouro, e fora a notícia desse fato que o levara, a ele Aníbal Brasileiro, a bordo do paquete. O colega bem sabia, ele também não era lá muito amigo de padres. Mas uma coisa assim! Deixar S. Sulpício e vir para Silves! É dum patriotismo! exclamou gesticulando e cuspindo longe.
— Brocas da padraria, resmungou Chico Fidêncio, pondo-se a assoviar a Marselhesa, sem retirar os olhos do vapor, que se ia desaparecer por trás dum estirão de terra.
Macário apressou o passo para alcançar a comitiva do senhor vigário, murmurando:
— Cambada!
CAPÍTULO II
Os amigos despediram-se afinal. Padre Antônio ficou só, sentindo necessidade de repouso. Seriam três horas da tarde. O calor era intenso.
Erguera-se aquele dia antes do romper da aurora e mal fundeara o vapor, tivera de receber os seus paroquianos, que se apresentavam em maioria de sobrecasaca de lustrina, calças de ganga amarela, mostrando em grandes manchas claras os chapéus de palha da Bolívia, vistosos e baratos, fingindo Panamás.
Quem primeiro lhe falara fora o sacristão, um tal Macário de Miranda Vale, moço corpulento, com uma belida e um lombinho, todo cheio de si dentro da comprida sobrecasaca de grandes pregas duras. Dera-se a conhecer como o destinatário da carta que o padre, por informações que o Filipe do Ver-o-peso colhera do seu correspondente Costa e Silva, havia escrito para Silves. Em primeiro lugar, o Macário vinha agradecer a S. Rev.ma as expressões delicadas que usara na missiva, e, em segundo lugar, cientificá-lo de que a casa estava pronta e mobiliada. E tudo baratinho e decente. Depois o sacrista apresentara as principais pessoas da terra com muita cerimônia, e na intenção de informar a S. Rev.ma, em poucas palavras, das distintas qualidades daqueles cavaleiros: Fora uma enfiada:
— O tenente Valadão, subdelegado de polícia, muito boa pessoa, incapaz de matar um carapanã.
Era um sujeito magro, esgrouviado, tísico. Tinha um comprido cavanhaque grisalho, e usava óculos.
— O senhor capitão Manoel Mendes da Fonseca, coletor das rendas gerais e provinciais, negociante importante, traz aviamentos de contos de réis. O Elias tem muita confiança nele. É influência política e dispõe de muitas relações boas.
Este era barrigudo e reforçado. Usava a barba toda e trazia a camisa muito bem engomada. Parecia um homem de toda a consideração.
— O senhor presidente da Câmara, alferes José Pedreira das Neves Barriga, que alugou a casa a S. Rev.ma.
Descendente de espanhóis, muito boa pessoa, mora no sítio, ao Urubus, quase nunca vem à vila. Cara de carneiro com largas ventas cheias de PauloCordeiro.
— O escrivão da coletoria, Sr. José Antônio Pereira moço de muito bons costumes.
Baixo, magro, mal barbado. Dentinhos podres, olhinhos mal abertos.
— O senhor vereador João Carlos, íntimo do senhor capitão Fonseca.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.