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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Agravar-me?! ... Não pensei nisso. Não quero que se sacrifique por mim, que já muito lhe devo – favores que só Deus pagará. Imagine a briga de dois homens, pancadas, ferimentos, um crime e o meu nome detestado passando de boca em boca., Luzia-Homem causadora de tudo... Não quero, não. Faça de conta que aquele mal-encarado homem não existe ... Não tenha receio, Alexandre, eu sei defender-me. De mais a mais. .. tudo passa ...

Luzia confiava na ausência, mãe do esquecimento, para conjurar o perigo; entretanto, um mês depois, recebeu uma carta de Crapiúna, transbordante de frases de amor, em prosa e verso – protestos lânguidos e trovas populares, escritas em péssima letra sobre papel de cercadura rendilhada, tendo, no ângulo superior, à esquerda, um coração em relevo, crivado de setas, desfechadas por travessos Cupidinhos alados. E leu-a com assombro e cólera, como se as letras disformes, enfileiradas em tortuosas linhas, e o pensamento sensual nelas expressado, lhe vergastassem cruelmente o rosto.

— Este homem será o causador da minha desgraça - murmurou ela com um soluce de pranto sufocado.

— Que tens, filha? — inquiriu a mãe... — Estás tão alterada? ... Que houve?

— Nada, mãezinha — respondeu Luzia, disfarçando a emoção que a conturbava – É este labutar constante, sem esperança de melhoria, e a sua doença que me apertam o coração ...

— Tu me encobres alguma coisa. Estás afrontada?

O peito de Luzia arfava descompassado, e seus rijos seios espetavam, em sacudidos golpes trêmulos, a delgada camisa.

— Tenho ouvido dizer – continuou ela – que banhos salgados são bons para reumatismo. Se pudesse levá-la para as praias... Bastava chegarmos com vida à Barra. Daí para os Patos é um pulo. Ficaríamos acostados à gente do meu padrinho José Frederico, que é rico e bom para os pobres.

— Tenho medo... Nunca vi o mar. Dizem que é bonito, perigo e traiçoeiro. Inda que fosse essa viagem a salvação. Como queres que me mexa? Não vês? Estou impossibilitada de andar neste quarto, quanto mais para fazer a travessia deste sertão inclemente! ... Ai! ... Deus não quer, filha. São os meus pecados, que me encaranguejam as pernas. Já fiz uma promessa a São Francisco das Chagas de Canindé para que ele me pusesse em estado de caminhar com os meus pés; e... nada ... Cada vez mais me incham as juntas e se me entortam os ossos. . .

Subjugada pelo impossível evidente, inelutável, a moça estraçalhou com as unhas pontudas a carta fatal. A mãe tinha razão. Deus não queria. Era forçoso ficar, amarrada àquele poste de amor e sacrifício, onde morria, em lento martírio, a mãe adorada, arrostar o perigo pressentido, o acinte da paixão do lúbrico soldado. Era formoso ficar exposta ao insulto daquela atrevida e grosseira insistência repugnante; e sucumbir, talvez, assoberbada de vilipêndio e ultrajada como as outras desditosas, arrastadas pela miséria à crápula abjeta.

Sob os músculos poderosos de Luzia-Homem estava a mulher tímida e frágil, afogada no sofrimento que não transbordava em pranto, e só irradiava, em chispas fulvas, nos grandes olhos de luminosa trevas

CAPÍTULO IV

Quando lhe serenou o ânimo atribulado, teve ímpetos de repelir o insulto com represálias violentas, castigando, ela mesma, o insolente, custasse-lhe isto, embora, muita vergonha, muito opróbrio, ou procurar auxilio na dedicação cega de Alexandre, com a qual sabia poder contar para a vida e para a morte; mas, demoveram-na desse passo, ponderações das conseqüências de escândalo, um crime possível e a punição. Não queria arriscar o moço, cuja alma impetuosa e forte, parecia adormecida sob aparências de mansidão e doçura, como a lâmina de uma faca acenada, escondida em bainha de veludo. Raulino era demasiado ardente; tinha o coração na goela e seria capaz de estripulias graves. Demais, por lhe haver catado valioso serviço, pareceria exigir a paga com o apelo ao seu concurso. Além desses, não tinha um coração amigo onde fosse haurir conselho e procurar o inefável alívio da confidência, válvula benéfica para o escoamento das mágoas, pesares e desgostos. As moças da mesma idade, ainda não contaminadas pelo vírus pecaminoso, que empestava o ambiente, evitavam-na com maneiras tímidas, discreto acanhamento, como não fossem iguais na condição e infortúnio. Muitas se afastavam dela, da orgulhosa e seca Luzia-Homem com secreto terror, e lhe faziam a furto figas e cruzes. Mulher que tinha buço de rapaz, pernas e braços forrados de pelúcia crespa e entonos de força, com ares varonis, uma virago, avessa a homens, devera ser um desses erros da natureza, marcados com o estigma dos desvios monstruosos do ventre maldito que os concebera. Desgraça que lhe acontecesse não seria lamentada; ninguém se apiedaria dela, que mais se diria um réprobo, abandonado, separado pela cerca de espinhos da ironia malquerente, em redor da qual girava o poviléu feroz a lapidá-la com chacotas, dictéríos e remoques. Tal se lhe figurava, através dos exageros pessimistas, a sua triste situação.

(continua...)

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