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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

Em princípio, encontrou em Rezina a sorte adversa, porém, com energia e ambição soubera poupar e avultar um pecúlio, que, emprestado a juros e especulações mais altas, em pouco tempo se multiplicara. A economia rigorosa concluiu a obra, crescendo na razão direta do engrandecimento do capital.

Outros atribuíam a um princípio ilícito essa riqueza; aqui diziam que roubara; ali, que a fortuna o protegera, fazendo-lhe achar dinheiro nas escavações.

Sabemos que em Herculano não apareceu muito dinheiro, porque a população tivera tempo de fugir, quando a cidade foi submergida; também sabemos que em Nápoles ninguém se queixava de Maffei como ladrão, mas o que era patente e real é que o pai de Rosalina voltava rico, mais ambicioso e necessariamente pior de coração.

Luzia-lhe agora com mais intensidade a cobiça vermelha e sinistra, como um farol no meio da tempestade.

E não havia porventura uma tempestade naquela cabeça?

Sim! porém toda interior.

Não se ouviam os trovões nem os vendavais, a revolução ia-lhe por dentro e só chegava à superfície da fisionomia desfeita em espuma biliosa nos cantos arqueados da boca e em sangue mau no vítreo dos olhos.

Isso era nos momentos de cólera.

À monotonia bondosa da casinha branca sucedeu a tristeza, espécie de pavor, que cerca o homem de má catadura.

Contra ele principiavam já a murmurar, na ilha, e, se até ali tinha tido poucos amigos, nenhum desses lhe restava agora. Em geral, malqueriam-no davam-lhe a paternidade de coisas horríveis; crimes medonhos, maldades atrozes, tudo servia para explicar a sua imprevista fortuna.

Todavia, se bem que contrariado e só, ia ele vivendo, falava menos e com mais indelicadeza; durante o sono, balbuciava palavras singulares. Frenético e aborrecido, agitava-o sempre a mesma impaciência e o mesmo cogitar.

Quais seriam as suas intenções?...

Não o sabiam as mulheres, nem se animavam a pergunta-lho.

Com todas essas coisas ia aviltando a tristeza na casinha branca. Rosalina já não era a mesma cotovia alegre e jubilosa, cantadora e risonha; se cantava agora, era triste e suspirando. E as suas notas e suspiros iam, repassados de muita saudade, em busca de Miguel, que, ao chegar o seu velho inimigo, arrancara-se dali, como o galho partido que o furacão arremessa com estrondo ao longe.

Ângela, cada vez mais devota, passava agora a maior parte do tempo a rezar.

Desconsolado se tornara esse lar, que já nalgum tempo fora vivo quadro de paz e felicidade.

Agora, o quadro era sombrio.

Três únicas figuras formavam o primeiro plano. — Um velho áspero, que cisma — uma devota, que reza — uma filha, que suspira; e lá, no último plano, meio escondido nas névoas do poente, um velho esbatido nas meias-tintas do horizonte um homem, que chora abraçado a uma rabeca. Ah! Ainda no quadro uma forma negra, mais um borrão que uma figura — o cão.

Também vivia triste e chorava o animal, que em noites de luar soltava uns uivos tão arrastados e queixosos, que enterneciam o coração da gente.

CAPÍTULO IX

Assim decorreram duas estações, impregnadas, com a vinda de Maffei, de aborrecimento e marasmo.

Uma noite, estavam todos reunidos em volta da mesa; era a hora da ceia.

Rosalina servia, preocupada, um prato de peixe com lentilhas, reverberava-lhe nessa ocasião uma esperança na alma, tinha de todo resolvido falar ao pai a respeito de Miguel.

Ângela conhecia os planos da pupila e prestava-se se fosse necessário a ajudá-la.

A refeição passou-se silenciosa; ao terminarem-na, quedaram-se por meiahora, imóveis nos seus lugares, mudos.

Ouvia-se lá fora bater o vento nas oliveiras, ouviam-se o as cantigas longínquas dos pescadores nas praias opostas.

Rosalina, com as mão frias, trouxe a Maffei o cachimbo.

O velho pôs-se a fumar voltado para o lado da rua e a seguir com a vista no caminho, que lhe nascia à porta. Estava sombrio como nunca.

Faltava a Rosalina ânimo de falar ao pai; finalmente, tomando uma resolução extrema foi-se-lhe encostar ao grosseiro espaldar da cadeira.

O homem de tão preocupado não se apercebera disso; um beijo da filha despertou-o, porém, não o comoveu. Refratário à ternura, continuava secamente a fumar.

Rosalina, cujo coração pulsava cada vez mais impetuosamente, passou-lhe um braço em volta do pescoço, e com a mão livre messando-lhe os cabelos; entre o receio e o desejo, mais medrosa que terna:

— Estou triste!

— Por quê? Interrompeu indiferentemente o pescador.

Ângela ouvia com interesse este diálogo.

— Tenho medo de pedir-lhe uma coisa...

— E por quê tens medo? Insistiu o velho, sempre a fitar maquinalmente a estrada.

— Porque vai ralhar comigo.

— Então, queres pedir-me alguma tolice?...

— Não senhor!...

— Então pede...

— Promete não se zangar?...

— Sim !

— E quando souber que tenho um namorado? Disse abaixando os olhos Rosalina, porém, agora mais terna do que medrosa.

Ao ouvir as últimas palavras da filha, Maffei tirou vagarosamente o cachimbo da boca e voltou-se, cravando nela os olhos vivos e interrogadores.

(continua...)

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