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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Ana Rosa compadecia-se da amiga e escutava-lhe de boa-fé as frioleiras. Na sua ingênua e comovida sinceridade facilmente se identificava com a história singular daquele casamento tão infeliz e tão simpático.. Por mais de uma vez chegou a chorar pela morte do pobre moço oficial de infantaria.

D. Eufrasinha instruiu a sua nova amiga em muitas coisas que esta mal sonhava; ensinou-lhe certos mistérios da vida conjugal; pode dizer-se que lhe de amor: falou muito nos “homens”, disse-lhe como a mulher esperta devia lidar com eles; quais eram as manhas e os fracos dos maridos ou dos namorados; quais eram os tipos preferíveis; o que significava ter “olhos mortos, beiços grossos, nariz comprido”.

A outra ria-se. “Não tomava a sério aquelas bobagens da Eufrasinha!”

Mas intimamente ia, sem dar por isso, reconstruindo o seu ideal pelas instruções da viúva Fê-lo menos espiritual, mais humano, mais verossímil, mais suscetível de ser descoberto; e, desde então, o tipo, apenas debuxado ao fundo dos seus sonhos, veio para a frente, acentuou-se como uma figura que recebesse os últimos toques do pintor; e, depois de vê-lo bem correto, bem emendado e pronto, amou o ainda mais, muito mais, tanto quanto o amaria se ele fora com efeito uma realidade.

A partir daí, era esse ideal, correto e emendado, a base das suas deliberações a respeito de casamento; era a bitola, por onde ela aferia todo aquele que a requestasse. Se o pretendente não tivesse o nariz, o olhar, o gesto, o conjunto enfim de que constava o padrão, podia, desde logo, perder a esperança de cair nas graças da filha de Manuel Pedro.

Eufrasinha mudou-se para a cidade; Ana Rosa já lá estava. Visitaram-se.

E estas visitas, que se tomaram muito íntimas e repetidas, serviram mutuamente de consolo, ao afincado celibato de uma e a precoce viuvez da outra.

Havia, empregado no armazém do pai de Ana Rosa, um rapaz português, de nome Luís Dias; muito ativo, econômico, discreto, trabalhador, com uma bonita letra, e muito estimado na Praça. Contavam a seu favor invejáveis partidas de tino comercial, e ninguém seria capaz de dizer mal de tão excelente moço.

Ao contrário, quase sempre que falavam dele, diziam “Coitado!” e este coitado — era inteiramente sem razão de ser, porque ao Dias, graças a Deus, nada faltava: tinha casa, comida, roupa lavada e engomada, e, ainda por cima, os cobres do emprego. Mas a coisa era que o diabo do homem, apesar das suas prósperas circunstâncias, impunha certa lástima, impressionava com o seu eterno ar de piedade, de súplica, de resignação e humildade. Fazia pena, incutia dó em quem o visse, tão submisso, tão passivo, tão pobre rapaz — tão besta de carga Ninguém, em caso algum, levantaria a mão sobre ele, sem experimentar a repugnância da covardia.

Elogiavam-no entretanto: “Que não fossem atrás daquele ar modesto, porque ali estava um empregadão de truz!”

Vários negociantes ofereceram-lhe boas vantagens para torná-lo ao seu serviço; mas o Dias, sempre humilde e de cabeça baixa, resistia-lhes a pé firme. E, tal constância opôs as repetidas propostas, que todo o comércio, dando como certo o seu casamento com a filha do patrão, elogiou a escolha de Manuel Pedro e profetizou aos nubentes “um futuro muito bonito e muito rico”.

— Foi acertado foi! diziam com o olhar fito.

Manuel Pedro via, com efeito, naquela criatura, trabalhadora e passiva como um boi de carga e econômico como um usuário, o homem mais no caso de fazer a felicidade da filha Queria-o para genro e para sócio; dizia a todos os colegas que o “seu Dias” apenas retirava por ano, para as suas despesas, a quarta parte do ordenado.

— Tem já o seu pecúlio, tem! considerava ele. A mulher o quisesse, levava um bom marido! Aquele virá a possuir alguma coisa... é moço de muito futuro!

E, pouco a pouco foi se habituando a julgá-lo já da família e a estimá-lo e distingui-lo como tal; só faltava que a pequena se decidisse... Mas qual! ela nem queria vê-lo! Tinha-lhe birra; não podia sofrer aquele cabelo à escovinha, aquele cavanhaque sem bigode, aqueles dentes sujos, aquela economia torpe e aqueles movimentos de homem sem vontade própria.

— Um somítico! classificava Ana Rosa franzindo o nariz.

Uma ocasião, o pai tocou-lhe no casamento.

— Com o Dias?... perguntou espantada.

— Sim.

— Ora, papai!

E soltou uma risada.

Manuel não se animou a dizer mais palavra; a noite, porém, contou tudo em particular ao compadre, um amigo velho, intimo da casa — o cônego Diogo.

— Ótima soepè desperta! sentenciou este. P preciso dar tempo ao tempo, seu compadre! A coisa há de ser... deixe correr o barco!

No entanto, o Dias não se alterara; esperava calado, pacificamente, sem erguer os olhos, cheio sempre de humildade e resignação.

CAPÍTULO II

Assim era, quando Manuel Pedro, na varanda de sua casa, pedia a filha uma resposta definitiva a respeito do casamento. Já lá se iam três meses depois da estada na Ponta d'Areia.

Ana Rosa continuou muda no seu lugar, a fitar a toalha da mesa, como se procurasse ai uma resolução. O sabiá cantava na gaiola.

(continua...)

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