Por Aluísio Azevedo (1895)
Não! Não podia amá-la mais do que a amei no meu noivado, do que a amei depois nos intervalos da cólera, do que a amo hoje principalmente, nesta irremediável viuvez da nossa fatal desunião. Todavia, antes de nos separarmos, só a desejei deveras como mulher, além daquela época, uma vez em que tivemos de afastar-nos um do outro por oito meses seguidos; de resto foi sempre o mesmo tédio e os mesmos enfastiamentos na comunhão da cama. Muita vez o perfume dos seus belos cabelos, o cheiro do seu corpo, aliás sempre limpo e bem tratado, o contacto macio da sua pele e a frescura de seus lábios relentados no delíquio amoroso, me fizeram repugnância.
Por quê? Não achei nunca a explicação. Mas a verdade é que, antes mesmo da nossa primeira contenda doméstica, quando éramos ainda um para o outro, só afagos e sorrisos, eu, apesar de amá-la muito, mas, se por condescendência ficava um dia inteiro ao seu lado, depois de passarmos a noite juntos, como de costume, sentia certo prazer estranho, sentia um inconfessável gozo de alívio, se me vinham anunciar que algum amigo, mesmo dos mais insignificantes, estava à minha espera na sala de visitas.
Quantas vezes não detive perto de mim pessoas que o não mereciam, só porque, enquanto estivesse eu com elas conversando, não estaria conversando ou procurando o que conversar, com a minha querida esposa?... só porque, enquanto eu estivesse abrigado naquela visita, não sentiria no meu corpo o calor do corpo de minha mulher, e não lhe sentiria o cheiro penetrante das carnes e dos cabelos!...
E como todo esse contraditório martírio cresceu depois do nascimento do nosso primeiro filho? Como fiquei eu amando moralmente muito mais minha esposa e desejando muito menos possuí-la como mulher?
Depois do nascimento de Palmira, nunca mais o meu espírito amou minha mulher associado com o meu corpo. Meu espírito continuava a amá-la, como sempre, meu corpo continuava, também como sempre, a unir-se ao dela para o matrimônio; mas espírito e corpo completamente alheios e separados durante o ato conjugal. O amor do meu espírito nada tinha de comum com o amor do meu corpo, como aliás sucedia dantes, na primeira fase do casamento; e ai! só nesse irrecuperável período o nosso amor foi completo, e foi amor, porque nos unia de corpo e alma! O amor de meu espírito era um sentimento insexual, respeitoso, nobre, feito de uma ternura de amigo, de irmão mais velho, um sentimento baseado na proteção do mais forte que se dedica pelo mais fraco. Havia nele um quê de mística doçura, de sagrado voto cumprido lealmente, um quê da consoladora satisfação do desempenho de um dever honroso, um quê de religião e de ideal. Ao passo que o amor de meu corpo era quase inconsciente, irresponsável até, nem merecia o nome de amor, porque, no fim de algum tempo era, por bem dizer, preenchido sem o menor concurso do coração.
E pensar que o abuso deste segundo falso amor prejudicou o primeiro, o verdadeiro, a ponto de privar-nos da sua doçura e do seu enlevo!
Com minha mulher devia suceder a mesma coisa que sucedia comigo, porque certas vezes, despertei-a à noite para o fim genésico, e mais dormindo que acordada deixava indiferentemente, com os olhos fechados, que eu saciasse nela o meu desejo material. Tanto o nosso espírito já por fim não tomava parte no desempenho da função matrimonial, que em muitas ocasiões, enquanto nos dispúnhamos para cumpri-la, conversávamos de vários interesses domésticos, alheios ambos ao supremo destino que naquele instante nos aproximava um do outro.
Não! isso não era amor; isso era instinto somente; isso era brutalidade! Entretanto, hoje, que já não possuo minha mulher; hoje, que me acho para sempre incompatibilizado com ela, e me vejo na mesquinha contingência de recorrer, para satisfação das minhas necessidades fisiológicas, a essas pobres máquinas vaginais que se alugam por instantes, quanto não daria em tais momentos para poder tê-la ao alcance de meus braços? Quanto não daria para dispor então daquela valiosa criatura, ao lado de quem não consegui viver, e ao lado de quem, ainda hoje, me seria impossível suportar a existência, apesar de desejá-la tanto?
Sim! ainda aplaudo e compreendo a nossa separação, e ainda a amo. E se agora, neste instante, por um efeito maravilhoso, me dessem a escolha de uma mulher, entre todas as mais sedutoras e formosas que tenho visto, reclamaria, sem hesitação, a minha própria esposa, e juro que a amaria com o mesmo arrebatamento do primeiro desejo que ela me inspirou.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.