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#Anedotas#Literatura Brasileira

O caminho de Damasco

Por Machado de Assis (1871)

D. Joaquina não deixou escapar a ocasião de fazer ao marido ásperas e merecidas censuras. O rapaz já não lhe obedecia; a boa senhora achou a causa desta resistência na docilidade com que Silvestre suportou os primeiros erros do filho. Eu poderia dar um extrato do discurso com que D. Joaquina descreveu esta situação perante o marido abatido e envergonhado; mas arriscava-me a não acabar o conto, do mesmo modo que ela não acabou o discurso, porque só se calou quando lhe faltou o ar.

VI

O CASAMENTO

Durante estes meses de loucuras de Jorge, a situação do dr. Marques pouco tinha adiantado, mas adiantara alguma coisa. O pretendente expusera à tia de Clarinha os seus desejos depois de dois meses de hesitação, e a boa senhora, aprovando as intenções do médico, só impôs a condição de que a sobrinha o amasse.

— Ah! minha senhora, disse Marques, a este respeito não posso afiançar nada. Não sei se sou ou não amado: D. Clarinha é tão acanhada que não deixa campo a investigações deste gênero..

— Pois bem; redargüiu D. Joaquina, eu tomo a mim a incumbência de consultar-lhe o coração. Imponho esta condição, porque conheço bem Clarinha; sei que é uma rapariga de muito juízo, e digna de escolher o seu próprio esposo. Em circunstâncias diversas, eu é que lhe havia de dar o noivo.

D. Joaquina cumpriu a palavra. Perguntou a Clarinha se ela nunca havia pensado em casar.

— Casar? eu? perguntou a sobrinha.

— Sim, tu.

— Não, nunca pensei.

Clarinha disse estas palavras em tom frio e indiferente; todavia, pareceu a D. Joaquina que esta idéia a entristecera.

— Dar-se-á caso que já o ame? disse a velha consigo mesma.

Correram alguns minutos de silêncio.

— Sabes que alguém deseja casar contigo? disse enfim a mulher de Aguiar.

— Casar comigo? perguntou a moça, abrindo muito os olhos.

— Sim, contigo.

— Titia está brincando.

— Brincando por quê? Não mereces ser pretendida por alguém?

Clarinha não respondeu.

— E essa pessoa, é muito nossa conhecida.

— Ah!

— Já reparaste?

Clarinha levou a mão ao coração.

— Não, murmurou ela.

— Não adivinhas quem seja?

— Não posso adivinhar.

— O dr. Marques.

Clarinha empalideceu. A boa velha não tirava os olhos dela para ver se lhe lia no rosto os sentimentos do coração. Mas verdade, verdade, D. Joaquina não sabia traduzir fisionomias. A comoção de Clarinha, qualquer que fosse a causa, pareceu-lhe que era de bom agouro para o médico.

— Ama-o, não tem dúvida, disse ela consigo. Tudo está arranjado.

Clarinha recobrou a palavra no fim de dez minutos.

— Titia, murmurou ela; a senhora sabe o que me convém, e eu estou às suas ordens.

— Ordens, não, disse D. Joaquina; isto não é uma ordem; é uma consulta.

— O dr. Marques, disse Clarinha, é um excelente homem...

— E um excelente marido? concluiu D. Joaquina rindo.

Clarinha não respondeu.

O silêncio da moça foi interpretado como um assentimento, e a esposa do comendador imediatamente deu parte ao médico do resultado da sua missão.

Clarinha, apenas ficou só, correu ao quarto e debulhou-se em lágrimas — lágrimas silenciosas e sufocadas, para que ninguém lhas ouvisse nem suspeitasse sequer. Depois, tirou de uma gaveta um retrato, contemplou-o longo tempo, e beijou-o repetidas vezes.

Quando reapareceu na sala tinham desaparecido os vestígios das lágrimas. Estava triste; mas como esse era o natural estado da moça, ninguém procurava saber-lhe a causa. Quando Marques soube do resultado da missão de D. Joaquina não pôde esconder o seu regozijo.

— Acho, porém, conveniente, disse a mulher de Aguiar, que o senhor ouça da própria boca de Clarinha a confissão, da qual eu só alcancei metade.

Não hesitou Marques em sondar por si próprio o coração de Clarinha. Era ele um homem honesto e de nenhum modo queria casar com ela sem ter a certeza de que ela não o faria obrigada.

O resultado desta nova experiência foi mais satisfatório ainda que o da primeira. A moça não lhe confessou amor com os termos de um coração apaixonado; mas teve palavras tão afetuosas para o médico, que o casamento foi logo decidido por parte da senhora D. Joaquina.

Silvestre Aguiar teve participação de que o casamento da sobrinha devia realizar-se dentro de um mês e meio. Pediu-se-lhe o consentimento apenas como uma formalidade, porque a decisão de D. Joaquina era bastante para o caso. Aguiar nada tinha que opor; aplaudiu, pelo contrário, a união.

— Eu sempre dizia, observou ele, que este doutor era um grande velhacão. Esta habilidade com que nos bifa a pequena é prova de que você nasceu com um sentido de mais.

Não ouviu tão alegremente o padre Barroso, que era considerado pessoa da família, esta notícia, que lhe foi dada com o pedido de aprovação.

— Eu não tenho nada que desaprovar, disse o padre, mas... a Clarinha gosta dele?

— Isso não se pergunta! exclamou D. Joaquina.

O padre olhou para a sobrinha do comendador; e no rosto dela leu uma satisfação tão pronunciada, que não fez mais do que encolher os ombros e dar os parabéns à noiva e aos tios.

Mas nessa mesma tarde, achando-se a sós com a moça, perguntou-lhe o padre:

(continua...)

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