Por Machado de Assis (1869)
Valia-lhe, porém, que, apesar dos receios, a sua imaginação trabalhava sempre; e era de ver o quadro que ela desenhava no futuro, os castelos que construía no ar; credores pagos, casas magníficas, salões, bailes, carros, cavalos, viagens, mulheres enfim, porque nos sonhos do dr. Antero havia sempre uma ou duas mulheres.
O criado veio enfim chamá-lo.
A sala do jantar era pequena, mas ornada com muito gosto e simplicidade. Quando o doutor entrou não havia ninguém; mas pouco depois entrou o major, já vestido com uma sobrecasaca preta abotoada até o pescoço e contrastando com a cor branca dos seus cabelos e bigodes e a tez pálida do rosto.
O major sentou-se à cabeceira da mesa, e o doutor à esquerda; a cadeira da direita estava reservada para a filha do major.
Mas onde estava a moça? O doutor quis fazer a pergunta ao velho; mas reparou a tempo que a pergunta seria indiscreta.
E sobre indiscreta, seria inútil, porque alguns minutos depois abriu-se uma porta que ficava fronteira ao lugar em que o doutor estava sentado, e apareceu uma criada anunciando a chegada de Celestina.
O velho e o doutor levantaram-se.
A moça apareceu.
Era uma figura delgada e franzina, nem alta nem baixa, mas extremamente airosa. Não andou, deslisou da porta à mesa; seus pés deviam ser asas de pomba. O doutor ficou profundamente surpreendido com a aparição; até certo ponto contava com uma rapariga nem bonita nem feia, uma espécie de fardo que só podia ser carregado aos ombros de uma fortuna. Pelo contrário, tinha diante de si uma verdadeira beleza. Era, com efeito, um rosto angélico; transluzia-lhe no semblante a virgindade do coração. Os olhos serenos e doces pareciam feitos para a contemplação; os cabelos louros e caídos em cachos naturais assemelhavam-se a uma auréola. A tez era alva e finíssima; todas as feições eram de uma harmonia e correção admiráveis. Rafael podia copiar dali uma das suas virgens.
Vestia de branco; uma fita azul, presa à cintura, delineava-lhe o talhe elegante e gracioso. Celestina dirigiu-se ao pai e beijou-lhe a mão: depois cumprimentou sorrindo ao dr. Antero, e sentou-se na cadeira que lhe estava destinada.
O doutor não tirava os olhos dela. No espírito superficial daquele homem entrava a descobrir-se uma profundidade.
Pouco depois de sentar-se, a moça voltou-se para o pai e perguntou-lhe:
— Este senhor é o que vai ser meu marido?
— É, respondeu o maior.
— É bonito, disse ela sorrindo para o rapaz.
Havia tanta candura e simplicidade na pergunta e na observação da moça, que o doutor voltou instintivamente a cabeça para o major, com ímpetos de perguntar-lhe se devia acreditar nos seus ouvidos.
O velho compreendeu o espanto do rapaz, e sorriu maliciosamente. O doutor olhou outra vez para Celestina, que o contemplava com uma admiração tão natural e tão sincera, que o rapaz chegou... a corar.
Começaram a jantar.
A conversa começou tolhida e esquerda, por causa do doutor, que caminhava de espanto em espanto; mas dentro de pouco tornou-se expansiva e franca.
Celestina era a mesma afabilidade do pai, realçada pelas graças da juventude, e mais ainda por uma singeleza tão agreste, tão nova, que o doutor se julgava transportado a uma civilização desconhecida.
Quando acabaram o jantar passaram à sala da sesta. Chamava-se assim uma espécie de galeria de onde se descortinavam os arredores da casa. Celestina deu o braço ao doutor sem que este lhe oferecesse e seguiram os dois adiante do major, que ia resmungando uns salmos de Davi.
Na sala da sesta sentaram-se os três; era a hora do crepúsculo; as montanhas e o céu começavam a despir os véus da tarde para vestir os da noite. A hora era propícia aos enlevos; o dr. Antero, posto que educado em outra ordem de sensações, sentia-se arrebatado nas asas da fantasia.
A conversa versou sobre mil coisas de nada; a moça disse ao doutor que tinha dezessete anos, e perguntou a idade dele. Depois, contou por menor todos os hábitos da sua vida, as suas prendas e seu gosto pelas flores, o seu amor às estrelas, tudo isso com uma graça que tirava um pouco da juventude e um pouco da infância.
Voltou-se ao assunto do casamento, e Celestina perguntou se o rapaz tinha dúvida em casar com ela.
— Nenhuma, disse ele; pelo contrário, tenho sumo prazer... é uma felicidade para mim.
— Que lhe disse eu? perguntou o pai de Celestina. Eu já sabia que bastava vê-la para
ficá-la amando.
— Então posso contar que seja meu marido, não?
— Sem dúvida, disse o doutor sorrindo.
— Mas o que é marido? perguntou Celestina, depois de alguns instantes. A esta pergunta inesperada, o rapaz não pôde reprimir um movimento de surpresa. Olhou para o velho major; mas este, encostado na larga poltrona em que se achava sentado, começava a adormecer.
A moça repetia com os olhos a pergunta feita com os lábios. O doutor envolveu-a com um olhar de amor, talvez o primeiro que teve em sua vida; depois pegou docemente na mão de Celestina e levou-a aos lábios.
Celestina estremeceu toda e soltou um pequeno grito, que fez acordar sobressaltado o major.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O anjo Rafael. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1869.