Por Aluísio Azevedo (1895)
Ora, para o André, que morria de amores pelo silêncio, isto devia ser o ideal das palestras. Além do que, à sua morosa e arrastada compreensão só o livro podia convir. O professor sempre se impacienta, quando tem de explicar qualquer coisa mais de uma vez; o livro não, o livro exige apenas a boa vontade de quem estuda, e no Coruja a boa vontade era justamente a qualidade mais perfeita e mais forte.
Um dia, o diretor, descendo inesperadamente ao primeiro andar, encontrou-o tão embebido a espiar para dentro da biblioteca que se chegou a ele sem ser sentido e deulhe uma ligeira palmada no lugar que encontrou mais à mão.
O Coruja, trepado às costas de uma cadeira e agarrado à bandeira da porta, virou-se muito vermelho e confuso, como se o tivessem surpreendido a cometer um crime. - Que faz o senhor aí, seu Miranda?
- Olhava.
- Que olhava o senhor?
- Os livros.
O Dr. Mosquito encarou-o de alto a baixo, e, depois de medir um instante acrescentou:
- Vá lá acima e diga à mulher que mande as minhas chaves.
André saltou do seu observatório e apressou-se a dar cumprimento às ordens do diretor. Este, logo que chegaram as chaves, abriu a biblioteca e entrou. O pequeno, à porta, invadiu-a com um olhar tão sôfrego e tão significativo, que o Dr. Mosquito o chamou e perguntou-lhe qual era o livro que tanto o Impressionara.
André coçou a cabeça, hesitando, mas a sua fisionomia encarregou-se de responder, visto que o diretor, depois de lamentar com um gesto a grande quantidade de pó encamado sobre os livros, foi à fechadura, separou do molho de chaves a da biblioteca e disse, passando-lha:
- Durante o resto das férias, fica o senhor encarregado de cuidar destes livros e de fazer tudo isto arranjado e limpo. Quer?...
André sacudiu a cabeça afirmativamente e apoderou-se da chave com uma tal convicção, que o diretor não pôde deixar de rir.
Logo que se viu só, tratou de munir-se de um espanador e de um pano molhado, e, com o auxílio de uma escadinha que havia na biblioteca, principiou a grande limpeza dos livros.
Não abriu nenhum deles, enquanto não deu por bem terminada a espanação. Metódico, como era, não gostava de entregar-se a qualquer coisa sem ter de antemão preparado o terreno para isso.
Oh! Mas quão diferente foi do que esperava a impressão recebida, quando se dispôs a usufruir do tesouro que lhe estava franqueado.
Não sabia qual dos livros tomar de preferência; não conseguia ler de nenhum deles mais do que algumas frases soltas e apanhadas ao acaso.
E, toda aquela sabedoria encadernada e silenciosa, toda aquela ciência desconhecida que ali estava, por tal forma o confundiu e perturbou que, no fim de alguns segundos de dolorosa hesitação, o Coruja como que sentia libertar-se dos volumes a alma de cada página para se refugiarem todas dentro da cabeça dele.
Bem penosas foram as suas primeiras horas de biblioteca. O desgraçadinho quase que se arrependeu de havê-la conquistado com tanto empenho, e chegue a desejar que, em vez de tamanha fartura de livros, lhe tivessem franqueado apenas quatro ou cinco. Mas veio-lhe em socorro uma idéia que, mal surgiu, começou logo por acentuar-se-lhe no espírito, como uma idéia de salvação.
Era fazer um catálogo da biblioteca.
Esta luminosa idéia só por si o consolou de toda a sua decepção e de todo o seu vexame. Afigurava-se-lhe que, catalogando todos aqueles livros num só, vê-los-ia disciplinados e submissos ao seu governo. Entendeu que, por esse meio, tê-lo-ia a todos debaixo da vista, arregimentados na memória, podendo evocá-los pelos nomes, cada um por sua vez, como o inspetor do colégio fazia a chamada dos alunos ao abrir das aulas.
E o catálogo ficou sendo a sua idéia fixa.
Principiou a cuidar dele logo no dia seguinte. Mas, a cada instante, surgiam-lhe dificuldades: não sabia como dar começo à sua obra, como levá-la a efeito. Tentou arranjar a coisa alfabeticamente; teve, porém, de abandonar essa idéia, como inexeqüível; numerou as estantes e experimentou se conseguia algum resultado por este sistema; foi tudo inútil.
Afinal, depois de muitas tentativas infrutíferas, o acaso, no fim de alguns dias, veio em seu auxílio, atirando-lhe às mãos o catálogo de uma biblioteca da província.
Era um folheto pequeno, encadernado e nitidamente impresso.
Coruja abriu-o religiosamente e passou o resto do dia a estudá-lo. Na manhã seguinte, a sua obra achava-se começada, pela nona ou décima vez, é certo, mas agora debaixo de auspícios muito mais prometedores.
E em todo o resto das ferias foi o seu tempo sistematicamente dividido entre o trabalho da horta, o estudo de seus compêndios, as lições do Caixa-dóculos e a organização do famoso catálogo. Esta, porém, era de todas as suas ocupações a mais querida e desvelada; o que, entretanto, não impediu que ela ficasse por acabar depois da reabertura das aulas.
- Fica para mais tarde, pensou o Coruja, cheio de confiança na sua vontade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.