Por Machado de Assis (1866)
Que fez, porém, o sr. Anselmo? A proposta de Chico Tobias abriu-lhe os olhos. Por que não seria ele candidato? A sua folha tinha influência, era a de maior circulação. Os jornais do Rio de Janeiro tinham mesmo transcrito alguns dos seus artigos. Ele não tinha compromissos oficiais; era independente. Resolveu, pois, ser candidato e furar a chapa ministerial.
Assim ficaram as coisas, quanto às eleições políticas.
Restavam, porém, as eleições municipais, e Teles viu desde logo que havia a maior vantagem em dar esse primeiro golpe, o mais importante de todos, em Manoel Tobias; Manoel Tobias por seu lado compreendeu que da primeira batalha dependia a sua influência na vila, e reuniu todas as suas forças.
Quando faltavam quinze dias apenas para as eleições municipais, a vila tomou um novo aspecto: era tudo eleição. Rolava o dinheiro, choviam os empenhos, as folhas saíam recheadas de louvores e invectivas. Reunião e banquetes não faltavam. Era uma confusão.
Surgiu finalmente o dia da eleição.
Nessa manhã dizia o Farol:
Hoje a vila de *** vai mostrar se possui ou não as virtudes do amor e da gratidão. O benemérito sr. Manoel Tobias, juiz de paz há tantos anos, amigo do povo, levantado pela opinião pública, caráter verdadeiramente romano, adoçado pelas mais puras virtudes patriarcais, apresenta-se de novo ao povo para lhe pedir o batismo eleitoral.
Nenhuma compressão, nenhuma influência indébita será exercida contra o votante; fica-lhe livre o voto, mas se ele quer que o voto seja digno é votar no ilustrado e integérrimo juiz de paz.
Votantes, às urnas! às urnas!
Chico Teles não se descuidara de imprimir um contra-veneno, e disse na Atalaia desse dia:
Depois de uma opressão de longos anos, apresenta-se hoje aos votantes desta vila uma nova lista para juizes de paz.
Votar nessa lista, e dar derrota à lista contrária, é decretar e felicidade do povo, é mostrar que desde 1789 caíram os tiranos, e que as cabeças fumantes dos déspotas são as lições das populações que se prezam.
O desprezível Manoel Tobias não pode continuar a dominar esta vila, e os homens livres devem protestar contra ele, apeando-o do cargo.
Um lavrador, que era assinante das duas folhas, leu os dois artigos, e disse para a mulher:
— Ó Teodora, em quem devo votar? Um diz que vote no sr. comendador Tobias, outro diz que não. Que devo fazer?
— Antônio, o melhor é não te meteres nisso...
— Mas eu devo votar...
— Então vota em ti.
— Dizes bem, mulher. Em mim, no Antônio, no Arruda, e no Ezequiel.
— Aí está.
Fez-se a eleição, e ambos tiveram vitória. Como? A chapa de Tobias venceu por um voto.
Nenhum deles ficou contente.
Tobias não pôde mesmo assistir à vitória; quando se ia ler a última cédula, que era a decisiva, o juiz de paz desmaiou.
CAPÍTULO VIII
O filho de Chico Teles andava todo cheio com a eleição. Já se estava a se ver na câmara, diante das galerias apinhadas, e dominando com o olhar o ministério assustado e receoso de si.
Esta perspectiva política fez apagar muito a imagem da filha do Tobias; e a pobre menina, que até então se carteava com o candidato, às ocultas, começou a duvidar do amor dele, desde que as missivas começaram a rarear. Ato contínuo, teve uma febre intermitente.
O médico chamado a ver a doente, ou porque soubesse do fato, ou porque tivesse a ciência de adivinhar, o certo é que declarou ao juiz de paz que o verdadeiro motivo da moléstia da moça era o amor por Alfredo.
— E nesse caso, disse o médico, julgo melhor casá-los.
— Não! não! clamou Tobias, atirando com os óculos pela janela fora, isso nunca! Há de haver algum remédio em substituição a esse.
— Paliativos, disse o médico.
— Casar com ele é unir minha família à daquele biltre! O que não haviam de dizer os meus correligionários políticos?
— Deixe-se disso, sr. Tobias. Os seus correligionários não têm direito a impedir que o senhor case sua filha.
— Mas a honra do partido!
— Qual, partido!
— Cale a boca, doutor! Lembre-se de que eu tenho uma folha, e posso...
— Uma folha de que eu sou assinante.
Tobias que já contava ameaçar o médico, ficou macio quando este lhe lembrou a circunstância da assinatura, e foi pouco e pouco moderando o seu ardor político.
A conversa morreu sem que Tobias tomasse decisão alguma.
Entretanto, de um lado, e do outro, ativavam-se os elementos para a grande batalha campal da eleição.
Teles tinha um irmão rico, cuja fazenda distava dez léguas da vila; escreveu lhe pedindo uma remessa de dinheiro para auxiliar a liberdade do voto. Alfredo lembrou-se de ter lido alguma coisa a respeito de meetings ingleses, e disse ao pai que era um excelente meio de consolidar a sua candidatura. O pai aceitou a idéia; mas para que não argüíssem de cumplicidade nesse fato, Teles retirou-se da vila durante dois dias, e deu assim tempo a que o filho pudesse pôr em prática o meio eleitoral.
Não custou pouco ao rapaz reunir gente para o meeting, mas afinal conseguiu. O local era o largo da matriz. Uma espécie de tribuna erguia-se no centro da praça, e era o lugar destinado ao orador.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O Teles e o Tobias. Semana Ilustrada. Rio de Janeiro, 1866.