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#Contos#Literatura Brasileira

O segredo da Augusta

Por Machado de Assis (1868)

- Promete, meu tio, que há de convencer a papai?

- Hei de vencê-lo ou convencê-lo, não importa; tu não te hás de casar. Teu pai é um tolo.

Lourenço subiu ao gabinete de Vasconcelos, exatamente no momento em que este se dispunha a sair.

- Vais sair? perguntou-lhe Lourenço.

- Vou.

- Preciso falar-te.

Lourenço sentou-se, e Vasconcelos, que já tinha o chapéu na cabeça, esperou de pé que ele falasse.

- Senta-te, disse Lourenço.

Vasconcelos sentou-se.

- Há dezesseis anos...

- Começas de muito longe; vê se abrevias uma meia dúzia de anos, sem o que não prometo ouvir o que me vais dizer.

- Há dezesseis anos, continuou Lourenço, que és casado; mas a diferença entre o primeiro dia e o dia de hoje é grande.

- Naturalmente, disse Vasconcelos. Tempora mutantur et...

- Naquele tempo, continuou Lourenço, dizias que encontraras o paraíso, o verdadeiro paraíso, e foste durante dois ou três anos o modelo dos maridos. Depois mudaste completamente; e o paraíso tornar-se-ia verdadeiro inferno se tua mulher não fosse tão indiferente e fria como é, evitando assim as mais terríveis cenas domésticas.

- Mas, Lourenço, que tens com isso?

- Nada; nem é disso que vou falar-te. O que me interessa é que não sacrifiques tua filha por um capricho, entregando-a a um dos teus companheiros de vida solta...

Vasconcelos levantou-se:

- Estás doudo! disse ele.

- Estou calmo, e dou-te o prudente conselho de não sacrificares tua filha a um libertino.

- Gomes não é libertino; teve uma vida de rapaz, é verdade, mas gosta de Adelaide, e reformou-se completamente. É um bom casamento, e por isso acho que todos devemos aceitá-lo. É a minha vontade, e nesta casa quem manda sou eu.

Lourenço procurou falar ainda, mas Vasconcelos já ia longe. "Que fazer?" pensou Lourenço.

Capítulo V

A oposição de Lourenço não causava grande impressão a Vasconcelos. Ele podia, é verdade, sugerir à sobrinha idéias de resistência; mas Adelaide, que era um espírito fraco, cederia ao último que lhe falasse, e os conselhos de um dia seriam vencidos pela imposição do dia seguinte.

Todavia era conveniente obter o apoio de Augusta. Vasconcelos pensou em tratar disso o mais cedo que lhe fosse possível.

Entretanto, urgia organizar os seus negócios, e Vasconcelos procurou um advogado a quem entregou todos os papéis e informações, encarregando-o de orientá-lo em todas as necessidades da situação, quais os meios que poderia opor em qualquer caso de reclamação por dívida ou hipoteca.

Nada disto fazia supor da parte de Vasconcelos uma reforma de costumes. Preparava-se apenas para continuar a vida anterior.

Dous dias depois da conversa com o irmão, Vasconcelos procurou Augusta, para tratar francamente do casamento de Adelaide.

Já nesse intervalo o futuro noivo, obedecendo ao conselho de Vasconcelos, fazia corte prévia à filha. Era possível que, se o casamento não lhe fosse imposto, Adelaide acabasse por gostar do rapaz. Gomes era um homem belo e elegante; e, além disso, conhecia todos os recursos de que se deve usar para impressionar uma mulher.

Teria Augusta notado a presença assídua do moço? Vasconcelos fazia essa pergunta ao seu espírito no momento em que entrava na toilette da mulher.

- Vais sair? perguntou ele.

- Não; tenho visitas.

- Ah! quem?

- A mulher do Seabra, disse ela.

Vasconcelos sentou-se, e procurou um meio de encabeçar a conversa especial que ali o levava.

- Estás muito bonita hoje!

- Deveras? disse ela sorrindo. Pois estou hoje como sempre, e é singular que o digas hoje...

- Não; realmente hoje estás mais bonita do que costumas, a ponto que sou capaz de ter ciúmes...

- Qual! disse Augusta com um sorriso irônico.

Vasconcelos coçou a cabeça, tirou o relógio, deu-lhe corda; depois entrou a puxar as barbas, pegou uma folha, leu dous ou três anúncios, atirou a folha ao chão, e afinal, depois de um silêncio já prolongado, Vasconcelos achou melhor atacar a praça de frente.

- Tenho pensado ultimamente em Adelaide, disse ele.

- Ah! por quê?

- Está moça...

- Moça! exclamou Augusta, é uma criança...

- Está mais velha do que tu quando te casaste...

Augusta franziu ligeiramente a testa.

- Mas então... disse ela.

- Então é que desejo fazê-la feliz e feliz pelo casamento. Um rapaz, digno dela a todos os respeitos, pediu-ma há dias, e eu disse-lhe que sim. Em sabendo quem é, aprovarás a escolha; é o Gomes. Casamo-la, não?

- Não! respondeu Augusta.

- Como, não?

- Adelaide é uma criança; não tem juízo nem idade própria... Casar-se-á quando for tempo.

- Quando for tempo? Estás certa se o noivo esperará até que seja tempo?

- Paciência, disse Augusta.

- Tens alguma cousa que notar no Gomes?

- Nada. É um moço distinto; mas não convém a Adelaide.

Vasconcelos hesitava em continuar; parecia-lhe que nada se podia arranjar; mas a idéia da fortuna deu-lhe forças, e ele perguntou:

- Por quê?

- Estás certo de que ele convenha a Adelaide? perguntou Augusta, eludindo a pergunta do marido.

- Afirmo que convém.

- Convenha ou não, a pequena não deve casar já.

- E se ela amasse?...

- Que importa isso? esperaria!

(continua...)

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