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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Por um instante mais, toda a ventura

Que nos aguarda em breve. Tanta gente

Tem inveja de ti! Não sei, receio;

Fala-me o coração. . ." - Com voz macia,

Replica o namorado: "Importa pouco,

Ó minha bela Margarida, a inveja .

De tão frouxos rivais. Se for preciso,

Eu, que sou tão pacato, a todos eles

Darei uma lição de tanto peso

Que, inda depois de mortos e enterrados,

Lhes doerá nas abatidas costas.

Que queres? Minha força és tu; teus olhos

Para mim valem mais que cem espadas.

Com eles na memória, amada minha,

Nada temo na terra; um regimento,

Um touro bravo, cem medonhas cobras,

Uma horda guerreira de tapuias,

Tranqüilo afrontarei, se a tua vida,

Se o nosso amor, de os afrontar dependem".

XII

Assim falou o Freire; e despedidos

Um do outro com juras e protestos,

Depois de muitas e bonitas cousas,

Desapareceu a bela Margarida,

Enquanto o resoluto namorado

Para os lares inclina a ousada proa.

Não cuides tu, taful do tempo de hoje,

Que ao toque da alvorada à casa tornas,

Cantarolando uma ária que a Lagrange

Nos desvãos da memória te há deixado,

Que era fácil então, nas horas mortas,

Andar desertas ruas. Treva espessa

O caminho escondia,

Gás nem óleo,

Os passos alumiava ao caminhante

Que não trouxesse a clássica lanterna.[16]

E lanterna traria um namorado

Que andava às aventuras? Bom piloto

Da cidade natal, lá ia o Freire

Sem muito tropeçar buscando os lares.

Cem quimeras, batendo as asas leves,

Lhe revoavam na mente. Ele imagina

Que o velho pai da moça, perdoando

A secreta paixão, lhe entrega a filha

E seu genro o nomeia; que a cidade

De outro assunto não fala uma semana.

Já o casto véu de noiva lhe arrancava

Com as sôfregas mãos...

XIII

Confusas vozes

Ouve subitamente a poucos passos;

Dez vultos surgem, vinte braços se erguem,

E dez golpes de junco lhe desdouram

A descuidada espádua. O pobre Freire,

Para ameigar ou convencer os bárbaros,

Um discurso começa, mas sentindo

A cada frase dez protestos juntos,

A tangente procura das canelas,

E a correr deita pelas ruas fora.

Então, começa a tenebrosa e longa

Odisséia de voltas e re-voltas,

Que em suas vastas regiões etéreas

As lúcidas estrelas contemplaram

A rir à solta, a rir de tal maneira

Que todo o espaço foi sulcado logo

De lágrimas brilhantes, - meteoros

Lhes chama a veneranda astronomia.

Ei-lo que volta rápido as esquinas,

Os passos negaceia, aqui descansa,

Ali tenta ameaçar os seus algozes,

Vinte vezes tropeça e cai por terra,

Vinte vezes ligeiro se levanta,

Grita, voa, murmura, implora e geme,

Té que ofegante de cansaço e medo

Na Lagoa parou da Sentinela.

XIV

Com os ossos moídos, e vexado

Da triste posição em que se vira,

O miserável amador na cama

Foi lastimar os brios e as costelas

E já nas mãos de um benfazejo somo

O espírito entregava, quando a Ira

Com asas de cor de fogo, lhe aparece

E deste modo fala: “Que sossego,

Que covardia é essa que te embarga

A voz para punir tamanha injúria

De um rival?... Sim, rival, que em seu desforço

Dez homens apostou? Pois sabe, ó mísero,

Que o teu futuro do castigo pende;

A sentença que houver punido o infame

Caminho te abrirá para as venturas

Íntimas, conjugais. Fortuna é a dama

Que os corações medrosos aborrece.

Despe a modéstia que te peia os braços;

Vai ao Mustre falar; expõe-lhe a queixa,

E vinga de um só lance o amor e o brio!”

XV

Disse, o tecto rompeu, voou no espaço.

Era sonho ou visão? Por largo tempo,

Entre um grupo de pálidas estrelas,

A figura agitara as rubras asas,

Té que se ouviu um singular estrondo

Remoto prolongado. Ninguém soube

A causa disto, mas afirma um cabo

De ordenanças ter alguns minutos

Sôbre a Gávea chover enxofre e cinzas.

CANTO IV

I

Já sobre os tectos da cidade infante

Novembro as asas cálidas abria,

Que mil ásperos ventos intumescem

E outras tantas famosas trovoadas

Clássicas, infalíveis dos bons tempos,

Quando o leito buscando o forte Almada

A sesta foi dormir como costuma.

Cheio ainda dos gabos do Veloso,

Que num longo sermão daquele dia,

Com arte e jeito o nome seu alçara

Muito acima das nítidas estrelas;

Estende-se na cama; e a fantasia,

Naquele bruxulear em que não vela,

Nem dorme ainda a humanidade nossa,

Começa de pintar-lhe um vasto quadro

De grandezas futuras. Vê as águas ,

De Niterói rasgando a nau famosa

Que o levaria às águas da Ulisséia,

Para o bago empunhar do arcebispado.

Nem só isso, que o papa, desejando

De tal sujeito coroar os méritos,

Cede à insinuação da Companhia,

E lhe manda o chapéu cardinalício

Com mais duas fivelas de esmeralda.

II

Já mais dormido que acordado estava,

E na região das lúcidas quimeras

Todo se lhe engolfava o ânimo ardente,

Quando uma voz subitamente o acorda.

Era a terrível Ira, que tomando

A figura do Vasco, seu sobrinho,

Na alcova entrou bradando desta sorte:

“Oh que afronta, meu tio! que desonra! Quem tal dissera?

O tresloucado Mustre,

O ouvidor atreveu-se. . .” Isto dizendo

Numa cadeira cai; salta da cama

Aturdido o prelado e lhe pergunta

Que afronta, que ousadia, que mistério

Anunciar-lhe vem daquele modo.

Então a Ira, revolvendo os olhos,

Com voz surda lhe diz que o fero Mustre

Atrevera-se a abrir uma devassa

Entre os servos da Sua Senhoria.

III

Como a galinha, que travesso infante

(continua...)

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