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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

- Sim - disse-me o amigo. — Foi tratar-se de uma congestão hepática.

- Mas, como assim? — tornei a perguntar. — Ele parecia vender saúde e, segundo o que acabou de dizer aquele senhor (apontei para um outro dos amigos), o homem foi preso por ter sido pilhado a fazer desordens na Praça da Constituição.

- Esse ponto agora é que eu não lhe posso esclarecer - volveu o meu informante. — Apenas lhe digo que o Castro Matta não é lá grande coisa debaixo do ponto de vista da seriedade e da boa conduta.

O meu amigo e informante gostava em extremo de armar a frase com uma certa pompa de linguagem; sinto até não poder reproduzi-las mais fielmente, porque algumas delas são bem boas.

Mas não é disso que se trata agora, e não podemos perder tempo com similhante coisa.

- Então o sujeito, o tal Matta, é homem de maus costumes, hein? — perguntei ao amigo.

- Chi! — fez ele - nem lhe digo nada! Sem ir muito longe, ainda na véspera da desordem que ele fez na Praça da Constituição, foi visto a passear em Niterói com uma sujeita da vida airada, uma sujeitinha vestida de preto e com um grande chapéu de palha, que lhe escondia quase todo o rosto.

Imagine, Sr. Redator, a impressão que estas palavras me causaram, a mim que reconheci naquele vestido preto e naquele chapéu de palha a mulher a quem para sempre havia ligado meu nome e meu futuro.

Mal sabia eu quando te comprava na Notre Dame, pobre chapéu de palha!, que terias ocasião de entrar tão diretamente nas minhas dores e nos meus sobressaltos de marido atraiçoado!

Desconsolado, aflito e naturalmente com uma cara d’asno, ia a deixar a Detenção para tomar o caminho da Santa Casa da Misericórdia, quando um dos meus três amigos chamou-me de parte e disse-me:

- Tu me mereces toda a confiança e vou falar-te com franqueza. O Malta...

- Malta ou Matta?

- O Malta — sustentou ele -, o Castro Malta.

- Mas não é o Malta que eu procuro, é o Matta.

- É tudo uma e a mesma cousa. Digo-te mais: o sujeito não é só Matta e Malta, é também Mattos. - Hein?

- É o que te digo. O velhaco usa e abusa desses três apelidos, conforme a situação econforme o plano de suas velhacadas. É Malta quando quer comprar a crédito qualquer cousa; é Mattos quando se mete em desordens e arruaças e só é Matta nas aventuras amorosas.

- Então é o mesmo — disse eu. — É justamente por causa de uma questão amorosa que eu ando em busca do tratante.

- Aposto que se trata da Jeannite!

- Da Jeannite? Uma Francesa, de cabelos loiros?

- Isso! É a amante dele.

- Dele quem?

- Do Matta, Malta ou Mattos.

- Que me dizes, homem?

- Pois não. Olha, vou mostrar-te uma carta que ainda hoje ela me escreveu.

E o meu amigo, tirando do bolso uma folha de papel, marca pequena, leu pouco mais ou menos o seguinte, entre outras cousas, as quais não prestei a mesma atenção.

“Aquele miserável pagou-me tudo, vinguei-me dele (o miserável era o Matta); logo que tive as provas da sua traição, procurei o marido da mulher com quem ele me traía, obriguei-o a vir a minha casa, prendi-o, fingi-me apaixonada por ele e vinguei-me durante sessenta horas.”

Eu soltei um suspiro; — que me estaria ainda reservado?!

O amigo, depois de guardar a carta, acrescentou:

- Foi ela, a Jeannite quem arranjou a prisão do maroto...

- Pois a Jeannite tem essa influência na Polícia?

- Então não sabes do que há, homem de Deus?

Eu confessei que não sabia, e o amigo passou então a fazer-me a delicada revelação que na minha última carta expus a V. Sª. e que V. Sª. resolveu guardar para mais tarde.

- Mas enfim — disse eu ao meu obsequioso informante —, disseste que ias me falar com franqueza a respeito do tal Matta e ainda não declaraste o que é feito dele.

- O que é feito dele? Eis justamente o que te vou dizer em confiança...

E depois de observar se n~o nos escutavam:

O Malta não foi para a Misericórdia!

Não foi? Mas então onde está ele?

Está aqui, escondido. Temos ordem superior para não consentir que ele se comunique com pessoa nenhuma e para declarar que ele foi para a Misericórdia. Amanhã hás de ver isso justamente nas notas policiais.

De sorte que o homem está aqui? — perguntei ainda.

Está — disse o amigo. — E estará por muito tempo!

E a mulher com quem o viram a passear em Niterói? Sabes porventura me dizer que fim levou?

Também cá está e tem de responder a processo por crime de roubo.

Roubo?! E presa?! Oh!

Admiras-te de quê?!

Desgraçado! essa mulher é minha...

Tua, quê?

... esposa!

Oh! Desculpa! Eu não sabia...

E é permitido ir ter com ela?

Pois não. Acompanha-me.

E dizendo isto, o meu amigo tomou a direção do lugar onde se achavam os presos. Acompanhei-o.

Ao chegarmos à célula em que se achava a amante do Malta, senti que o suor me caía em bagos pela fronte; uma vertigem me escondeu por instantes a luz dos olhos, quis avançar e as pernas afrouxaram-se-me a tal ponto que o amigo amparou-me nos seus braços e exclamou:

Então, fulano! Que é isso? Nada de fraquezas! Sê homem, meu amigo!

Eu concentrei todas as minhas forças e respondi:

Estou às tuas ordens! Vamos!

(continua...)

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