Por Aluísio Azevedo (1882)
Não se encontravam ali as fantasias baratas do luxo moderno; não havia as fragilidades douradas da falsa opulência; tudo era bom e sincero. O biscuit não substituía o mármore, o gesso pintado não tomava o lugar do bronze e o cromo litográfico não fazia as vezes da aquarela e da pintura a óleo. Cada objeto dizia sinceramente a sua espécie e a sua qualidade.
Predominava em tudo a mesma singeleza bem educada. Nada de arrebiques, nada de frisos de pinho envernizado, nada de guarnições impertinentes. As boas gravuras inglesas e as magníficas águas-fortes destacavam-se perfeitamente da nudez austera das paredes. Os móveis de madeira sem lustro tinham cada um a sua utilidade imediata. Não havia os preguiçosos divãs que conduzem à volúpia e ao dolce far niente; não havia as dúbias cadeiras que obrigam o corpo a uma posição enervante e sem-cerimônia.
Gregório transpôs a porta daquele santuário, inteiramente penetrado pela alma misteriosa que daí se evaporava, como o perfume religioso de um templo.
A condessa, assentada junto à mesa, lia um grosso volume de capa azul à luz vermelha de um candeeiro de alabastro. Vestia uma roupa inteira e afogada de casimira indiana, e tinha a cabeça resguardada por uma touca de renda de Valença. Não se lhe via luzir uma jóia. Ao lado dela, em urna cadeira mais baixa, bordava a filha, toda preocupada com o leu trabalho.
Maria Luísa, é este o nome da menina, teria dezessete anos, não travessos e ruidosos, mas angélicos e tranqüilos, como tudo o que a cercava. À luz do candeeiro destacava-se bem a sua cabecinha loura, redonda, encimada pelas tranças, que a envolviam à moda das velhas estátuas. Sentia-se o azul dos seus olhos por debaixo das pálpebras abaixadas sobre o trabalho.
Não houve o menor alvoroço com a entrada de Gregório. A condessa marcou com uma fita a página que lia, e pousou devagar o livro sobre a mesa; depois estendeu a mão para o moço e, com um sorriso muito amável, ofereceu-lhe um lugar perto de si, enquanto o conde o apresentava às duas senhoras.
— Minha mulher e minha filha, disse o velho, indicando as duas.
Gregório cumprimentou-as, possuído de um forte sentimento de respeito, e foi sentar-se ao lado da condessa.
— Até que afinal o temos conosco, disse ela, descansadamente. E, voltando-se mais para ele, acrescentou, fazendo um ar sério: Fui muito amiga de sua mãe! Era uma excelente pessoa; entre outros obséquios, devo-lhe a vida!
— O Sr. conde já teve a bondade de contar-me isso mesmo, sustentou Gregório um pouco perturbado.
— Sim, volveu a condessa, eu própria lhe havia recomendado que o fizesse.
E depois de dar a entender à filha que se retirasse:
— Não temos tempo a perder. O conde naturalmente já lhe falou sobre a herança de seu pai, não é verdade?
— Sim, minha senhora.
— E está disposto a partir?
— Amanhã mesmo.
— Bem, neste caso darei daqui a pouco as providências para a viagem; por enquanto falemos do senhor...
CAPÍTULO III
POLICIA E CÓCEGAS
Justamente no dia do malogrado casamento de Gregório, o Dr. Ludgero, então chefe de polícia da Corte, acabava de entrar na casa de sua residência à rua da Ajuda, quando o ordenança lhe entregou, por mandado do ativo delegado Benevides, a parte de um grande crime, que nessa mesma tarde se havia cometido nos armazéns ~e rapé do popular fabricante Paulo Cordeiro.
Ludgero levantou-se incontinenti da mesa, tomou apressado o chapéu e a bengala, meteu-se no carro e disse ao cocheiro que tocasse para a ladeira da Conceição.
O carro parou à entrada de uma espécie de corredor, que conduzia sinistramente a um lugar apertado, sujo e abafado pelo teto. Era aí que a polícia detinha os cadáveres complicados em qualquer crime. Ainda não existia o Necrotério.
Fazia péssima impressão entrar naquela pocilga da morte, cujo aspecto repulsivo dizia todos os mistério da miséria humana. Constava de um pequeno quarto, estreito e úmido, com duas mesas de pau. Havia também, na parede do fundo, urna cruz negra, que abria na sombra os braços, muito triste, como se estivesse em vão à espera do seu crucificado.
Sobre uma das mesas, jazia, glacial e rígido, o corpo ensangüentado de um homem branco. Ao lado, dentro de um caixão de forma especial e com as tábuas ensebadas pelo hábito de carregar os despojos das autópsias, viam-se matérias informes, de uma cor estranha e repugnante, dentre as quais sobressaíam vísceras humanas gordas e brancas como carne de porco, e um crânio, cerrado ao meio, deixando transbordar a massa compacta dos miolos. Em torno de tudo isto zumbiam moscas.
Veio à porta receber o chefe de polícia um homenzinho magro e amarelo, tão feio e tão morto de fisionomia, que lembrava os próprios defuntos que lhe cabia vigiar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.