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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

O criado. tonto de sono, porque o baile havia acabado pouco antes, ergueuse a roncar, resmungando, muito intrigado por ver o amo já tão cedo às voltas com ele e, o que era mais ainda, com a roupa da véspera e a dar ordens com uma tal impertinência, que não parecia o mesmo.

— Já vai! Já vai! respondeu, ouvindo novas reclamações do Borges. E pôsse em movimento, a parafusar no que diabo teria sucedido ao amo, para andar tão cedo à procura de banhos mornos, de roupas e cafés com bolachinhas! — Aquilo foi grande espalhafato lá por cima! resolveu ele, tratando de executar as ordens. Ora, queira Deus que este casamento ainda não lhe venha a dar na cabeça! ... Eu nunca achei grande coisa a tal senhora D. Filomena! Pode ser que me engane... mas aquela boneca de engonços há de dar água pela barba ao patrão!

Daí a pouco o Borges, já restaurado, metido numa fatiota de brim branco, a barbinha feita, o seu farto cabelo bem penteado, lia o Jornal do Comércio, no salão do segundo andar, à espera de que a mulher se levantasse.

Quando Filomena, às dez horas da manhã, saiu do quarto para o salão, encontrou-o repimpado na cadeira de balanço, dormindo de papo para o ar, a boca aberta, a barriga espipando por dentro do colete e do rodaque de brim, os braços soltos, e numa das mãos o jornal.

Schocking! exclamou ela, arrevesando um olhar de nojo.

O marido bocejou, despertado por aquela exclamação. E, ao dar com a mulher, endireitou-se atrapalhadamente, contendo os bocejos, as carnes a tremerem-lhe e os olhos sumidos na rápida congestão do estremunhamento.

Ela vinha formosa a mais não ser. O sono completo dera-lhe às feições a olímpica serenidade das Vênus antigas. Trazia a rastros um longo penteador de linho bordado; o cabelo preso ao alto da cabeça, como dantes, mas agora enriquecido, à moda japonesa, por um gancho encastoado de pedras preciosas. Em volta do mármore sem brilho de seu pescoço, reluziam pérolas e toda ela respirava um cheiro bom de saúde e de asseio.

— Como passou? disse, aproximando-se do marido e estendendo-lhe a mão.

Borges adiantou-se cerimoniosamente para cumprimentá-la. Um acanhamento espesso tolheu-o dos pés à cabeça. Quis responder e apenas gaguejou algumas palavras sem sentido. Naquele instante lhe passava pela idéia o receio de que a mulher desconfiasse do ressentimento, que porventura nele tivesse produzido o fato da véspera. — Como chegara a imaginar, pensou num relance — que aquela mulher, tão delicada e tão altiva, consentisse em recebê-lo ao seu lado, na sua cama, logo na primeira noite do casamento! — Onde tinha ele a cabeça para esperar semelhante coisa?!

Filomena, como se adivinhasse o pensamento do marido, expediu-lhe generosamente um sorriso de indulgência e disse-lhe, devagar, enfiando o seu braço no dele:

— O senhor seria muito amável se quisesse fazer-me companhia ao almoço...

E vendo um gesto de surpresa no Borges. — Isto significa que desejo almoçar aqui, no segundo andar, sozinha com o senhor, sem a presença de estranhos, nem mesmo a dos criados — um verdadeiro tête-a-téte... Não acha boa a idéia?

— Oh!... se acho!... Eu não ousava ambicionar tanto!... Sim, quero dizer... eu...

— Pois então tenha a bondade de dar as providências para isso. Quanto às nossas visitas de hoje — só me pilharão ao jantar.

E no fim de uma pausa, tocando-lhe no ombro:

— Então! Vá! Mexa-se!

O Borges, encolheu a cabeça e precipitou-se de carreira para o primeiro andar.

Só se tornaram a ver à mesa do almoço.

— É bom que esteja tudo à mão para não termos de chamar pelos criados, observou ela, acomodando-se na sua cadeira, defronte uma pilha de ostras cruas.

E desdobrando o guardanapo sobre o peito:

— É uma providência dispormos deste segundo andar; fica-se aqui perfeitamente à vontade. É tão desagradável mostrar-se a gente a visitas logo pela manhã, depois de um casamento!

O Borges sorriu. É desagradável... é! disse ele corando levemente.

— É brutal! emendou Filomena, passando o copo de vidro, para que o marido lhe servisse o Sauterne que tinha ao lado.

E depois de beber:

— Não compreendo como ainda se conservam na sociedade moderna certos costumes verdadeiramente bárbaros. As cerimônias do casamento estão nesse caso. Nada há mais grotesco, mais ridículo, do que essa espécie de festim pagão em que se celebra o sacrifício de uma virgem. Horroriza-me, faz-me nojo, toda essa formalidade que usamos no casamento — a exposição do leito nupcial, os clássicos conselhos da madrinha, o ato formalista de despir a noiva, e, no dia seguinte, os comentários, as costumadas pilhérias dos parentes e dos amigos... Oh! é indecente! Mas agora reparo: o senhor não come!...

De fato, enquanto Filomena falava, o marido era todo olhos sobre ela, não se fartava de contemplar aquele adorável busto que tinha defronte de si. Causavamlhe estranhos arrepios o modo desembaraçado, a graça natural, com que a mulher prendia uma ostra na pontinha dos dedos cor de rosa para levá-la à boca, numa riqueza de braços arremangados, onde tilintavam dois portebonheurs de metal branco.

(continua...)

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