Por Machado de Assis (1862)
Muito feia.
PINHEIRO
Não há de ser, dize.
LULU
Demais, posso parecer indiscreta.
PINHEIRO
Ora, qual. É alguma coisa de meu interesse?
LULU
Se é!
PINHEIRO
Pois, então, não és indiscreta!
LULU
Então, quantas caras tem a indiscrição?
PINHEIRO
Duas.
LULU
Boa moral!
PINHEIRO
Moral à parte. Fala, o que é?
LULU
Que curioso! É uma simples observação; não lhe parece que é mau desamparar a ovelha, havendo tantos lobos, primo?
PINHEIRO
Onde aprendeste isso?
LULU
Nos livros que me dão para ler.
PINHEIRO
Estás adiantada! E já que sabes tanto, falarei como se falasse a um livro. Primeiramente, eu não desamparo; depois, não vejo lobos.
LULU
Desampara, sim!
PINHEIRO
Não estou em casa?
LULU
Desampara o coração.
PINHEIRO
Mas os lobos?...
LULU
Os lobos vestem-se de cordeiros, e apertam a mão ao pastor, conversam com ele, sem que deixem de olhar furtivamente para a ovelha mal guardada.
PINHEIRO
Não há nenhum.
LULU
São assíduos; visitas sobre visitas; muita zumbaia, muita atenção, mas lã por dentro a ruminarem coisas más.
PINHEIRO
Ora, Lulu, deixa-te de tolices.
LULU
Não digo mais nada. Onde foi Venâncio Alves?
PINHEIRO
Não sei. Ali está um que não há de ser acusado de lobo.
LULU
Os lobos vestem-se de cordeiros.
PINHEIRO
O que é que dizes?
LULU
Eu não digo nada. Vou tocar piano. Quer ouvir um noturno ou prefere uma polca?
PINHEIRO
Lulu, ordeno-lhe que fale!
LULU
Para quê? Para ser indiscreta?
PINHEIRO
Venâncio Alves?...
LULU
É um tolo, nada mais. (sai. Pinheiro fica pensativo. Vai à mesa e vê o álbum)
Cena XII
PINHEIRO, ELISA
PINHEIRO
Há de desculpar-me, mas, creio não ser indiscreto, desejando saber com que sentimento recebeu este álbum.
ELISA
Com o sentimento com que se recebem álbuns.
PINHEIRO
A resposta em nada me esclarece.
ELISA
Há então sentimentos para receber álbuns, e há um com que eu devera receber este?
PINHEIRO
Devia saber que há.
ELISA
Pois... recebi com esse.
PINHEIRO
A minha pergunta poderá parecer indiscreta, mas...
ELISA
Oh! Indiscreta, não!
PINHEIRO
Deixe minha senhora esse tom sarcástico, e veja bem que eu falo sério.
ELISA
Vejo isso. Quanto à pergunta, está exercendo um direito.
PINHEIRO
Não lhe parece que seja um direito este de investigar as intenções dos pássaros que penetram em minha seara, para saber se são daninhos?
ELISA
Sem dúvida. Ao lado desse direito, está o nosso dever, dever das searas, de prestar-se a todas as suspeitas.
PINHEIRO
É inútil a argumentação por esse lado: os pássaros cantam e as cantigas deleitam.
ELISA
Está falando sério?
PINHEIRO
Muito sério.
ELISA
Então consinta que faça contraste: eu rio-me.
PINHEIRO
Não me tome por um mau sonhador de perfídias; perguntei, porque estou seguro de que não são muito santas as intenções que trazem à minha casa Venâncio Alves.
ELISA
Pois eu nem suspeito...
PINHEIRO
Vê o céu nublado e as águas turvas: pensa que é azada ocasião para pescar.
ELISA
Está feito, é de pescador atilado!
PINHEIRO
Pode ser um mérito a seus olhos, minha senhora; aos meus é um vício de que o pretendo curar, arrancando-lhe as orelhas.
ELISA
Jesus! Está com intenções trágicas!
PINHEIRO
Zombe ou não, há de ser assim.
ELISA
Mutilado ele, que pretende fazer da mesquinha Desdêmona?
PINHEIRO
Conduzi-la de novo ao lar paterno.
ELISA
Mas afinal de contas, meu marido, obriga-me a falar também seriamente.
PINHEIRO
Que tem a dizer?
ELISA
Fui tirada há meses da casa de meu pai para ser sua mulher; agora, por um pretexto frívolo, leva-me de novo ao lar paterno. Parece-lhe que eu seja uma casaca que se pode tirar por estar fora da moda?
PINHEIRO
Não estou para rir, mas digo-lhe que antes fosse uma casaca.
ELISA
Muito obrigada!
PINHEIRO
Qual foi a casaca que já me deu cuidados? Porventura quando saio com a minha casaca não vou descansado a respeito dela? Não sei eu perfeitamente que ela não olha complacente para as costas alheias, e fica descansada nas minhas?
ELISA
Pois tome-me por uma casaca. Vê em mim alguns salpicos?
PINHEIRO
Não, não vejo. Mas vejo a rua cheia de lama e um carro que vai passando; e nestes casos, como não gosto de andar mal asseado, entro em um corredor, com a minha casaca, à espera de que a rua fique desimpedida.
ELISA
Bem. Vejo que quer a nossa separação temporária... até que passe o carro. Durante esse tempo como pretende andar? Em mangas de camisa?
PINHEIRO
Durante esse tempo não andarei, ficarei em casa.
ELISA
Oh! Suspeita por suspeita! Eu não creio nessa reclusão voluntária.
PINHEIRO
Não crê? E por quê?
ELISA
Não creio, por mil razões.
PINHEIRO
Dê-me uma, e fique com as novecentas e noventa e nove.
ELISA
A primeira é a simples dificuldade de conter-se entre as quatro paredes desta casa.
PINHEIRO
Verá que posso.
ELISA
A segunda é que não deixará de aproveitar o isolamento para ir ao alfaiate provar outras casacas.
PINHEIRO
Oh!
ELISA
Para ir ao alfaiate é preciso sair; quero crer que não fará vir o alfaiate à casa.
PINHEIRO
Conjecturas suas. Reflita, que não está dizendo coisas assisadas. Conhece o amor que lhe tive e lhe tenho, e sabe de que sou capaz. Mas, voltemos ao ponto de partida. Este
livro pode nada significar e significar muito. (folheia) Que responde?
ELISA
Nada.
PINHEIRO
Oh! que é isto? É a letra dele.
ELISA
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O protocolo: comédia em um ato. Rio de Janeiro, 1862.