Por Aluísio Azevedo (1884)
Amelinha revelava-se extremamente solícita. Andava no bico dos pés, a borboletear pelo quarto, arrumando os livros sobre a mesa, apanhando a roupa espalhada pelo chão, acudindo a qualquer movimento do estudante, que dormia entanguecido de baixo dos lençóis. Ele, coitado, parecia cada vez pior. Ardiam-lhe os olhos desabridamente; o hálito queimava; não podia suportar o cheiro do fumo e queixava-se de muita sede e comichão pelo corpo.
Amelinha, sempre irrequieta e passarinheira, preparava-lhe copos d’água com açúcar. Agachava-se à borda da cama, mexia e remexia com a colher o sacarífero calmante e, depois de o provar com a pontinha da língua, passava-o às mãos de Amâncio. Este, porém, mal bebia, voltava-se de novo para a parede, gemendo de olhos fechados.
Pelas duas horas da tarde, Lúcia pediu licença para lhe fazer uma visita. Entrou cheia de cerimônia, e assentou-se gravemente em uma cadeira, à cabeceira do leito.
O doente voltou-se logo e agradeceu aquela fineza com um olhar muito triste e injetado de sangue.
Ela mostrava-se interessada; pedia informações a respeito da moléstia.
Amâncio respostava com dificuldade. Parecia moribundo.
Mas, quando Amélia saiu e desceu ao primeiro andar, ele tomou rapidamente as mãos da outra e cobriu-as de beijos que a febre tornava mais ardentes e mais queimosos.
— Eu te amo! Eu te amo! dizia ele.
— Bem, mas fique quieto! Isso lhe pode fazer mal! Retrucava a suposta mulher do Pereira. — Nada de tolices! Deite-se! Deite-se!
Amâncio libertou os braços do cobertor, apoderou-se da cabeça de Lúcia , e começou a beijar-lhe os olhos, a boca e os cabelos, numa sofreguidão irracional.
As lunetas da “ilustrada senhora” haviam caído, e ela encarava o rapaz , sem dizer palavra, a lhe cravar os seus grandes olhos de míope, alterados pelo abuso do vidro de graduação.
Tiveram de disfarçar, porque alguém se aproximava.
O enfermo voltou logo aos lençóis e pôs-se novamente a gemer.
Era o Coqueiro quem vinha. Desde a entrada mostrou-se contrariado com a presença de Lúcia. Transpareciam-lhe no rosto os sintomas da desconfiança. Dir-seia um ciumento a penetrar de chofre nas recâmaras da amante.
— Aquela mulher não podia estar ali com boas intenções!...
E foi de mau humor que o Coqueiro respondeu a uma pergunta dirigida por ela a respeito da moléstia.
Lúcia, também não deu mais palavra e, logo depois saiu muito enfiada.
* * *
À noite apresentou-se o Campos, a quem o Coqueiro, de passagem, prevenira dos incômodos de Amâncio; trazia consigo um médico.
Este declarou incontinente que o rapaz tinha bexigas; mas antes que fizessem espalhafato, afiançou que eram benignas. “Bexigas doídas, cataporas, como vulgarmente chamavam por aí. Ficassem tranqüilos , que o caso não era grave; convinha , porém, ter algum cuidado com o doente: — evitar a ação do vento e muita limpeza com a roupa da cama.”
Receitou e saiu, prometendo voltar no dia seguinte. Campos seguiu-o até à escada do e tornou ao segundo andar.
A mulher do Paula Mendes, que abrira a porta do quarto para escutar o que dizia o médico, rompeu logo a falar dobre o abuso de consentirem ali “um bexigoso!”
Daquela forma, em breve a casa se transformava num hospital! Já lá tinham um tísico, que à noite não a deixava dormir com o gogo; agora era um bexiguento; amanhã seria a febre amarela e depois a lepra! – Arre! Em chegando o marido havia de mostrar o que faria!
Lambertosa, a pretexto de que sentia muito calor, empacotou o que tinha no quarto e lá se foi moscando à francesa.
— Nada! segredou ele embaixo ao Fontes, que jogava o dominó com a mulher na sala de jantar. — Tenho medo disto que me pélo; em pequeno vi morrer três sujeitos de pancada com as tais cataporas! Vou para a chácara de um amigo nas Laranjeiras! E, se a madame não tratar de pôr fora o doente, eu também aqui não porei mais os pés!
E, vendo que o Fontes parecia impressionado com as suas palavras:
— Pois não acha o amigo que não tenho razão?...Pode-se lá admitir um varioloso dentro de uma casa como esta, cheia de hóspedes?...
— Está claro! Disse a mulher do Fontes, empurrando as pedras do dominó. – Eu também aqui não fico! Ou o doente se mudas ou então mudo-me eu! E logo o quê! — bexigas! Deus nos defenda! Até parece que já sinto um formigueiro por todo o corpo...Credo!
— Sim, disse o marido, — mas não acredito que Mme. Brizard esteja disposta a ficar com ele dentro de casa!
O gentleman havia desaparecido, como se levasse uma fera atrás de si; os dois outros ergueram-se conversavam assustados sobre o grande fato; enquanto Nini, que, desde às cinco horas jazia estendida em uma cadeira ao canto da varanda, com um lenço amarrado na cabeça, escutava-os silenciosamente, os olhos pendurados no vago
Depois daquela cena violenta com Amâncio, a pobre criatura se quedara mais apreensiva e mais triste. Eram suspiros sobre suspiros e nem uma palavra durante o dia inteiro; às vezes dava-lhe para chorar e não havia meio de a conter.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.