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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Era o prior do convento do Carmo. Veio de propósito – vê lá tu como as coisas se ajuntam – com uma carta, antes ordem da recoleta do Recife, exigindo que eu sem perda de tempo me dirija a Paraíba, a fim de levantar os ânimos do capitão-mór João da Maia, que começam a resfriar. Esta providencia foi resolvida pelo padre João da Costa, a quem devo grandes benefícios, e pelos Drs. Ferreira Castro e Mendes de Aragão, conselheiros do governo dos mascates. Não contentes com incumbir-me deste gravíssimo mister, exigem que eu me ponha a caminho de hoje para amanhã. Neste sentido recebi, à entrada da noite, nova carta de frei José de Monte Carmelo, que Antonio Coelho me mandou trazer por Pedro de Lima. entre as três e as quatro horas da madrugada hão de estar por aqui os meus companheiros de jornada à Paraíba. Oh, que colisão cruel, Marcelina?

- E seu padre vai fazer este serviço aos mascates? Perguntou a cabocla.

- Eu deixo o Cajueiro, mas, aqui em particular, que ninguém nos ouça, devo dizer-te: não vou nem para Paraíba, nem para Goianinha. Vou para... Nem sei para onde vou eu. Vou fugindo de mascates e de nobres.

- Mas, meu Deus, como há de ser isso? Pois vosmecê nos deixa assim?

Nem uns nem outros têm razão, Marcelina. São exagerados ambos em suas paixões. Cegou-os a vaidade, o interesse, o capricho condenável. Deviam estimar-se e auxiliar-se mutuamente como dantes; mas não; hostilizam-se, como se fossem dois povos bárbaros e inimigos, como se não tivessem laços comuns – a mesma nacionalidade, a mesma religião, a mesma língua, as mesmas leis. Porque é que brigam eles? Por um pedacinho de governo? Por uns vinténs de mais ou de menos? Por uma vila? Mas em uma terra imensa, como esta, que ainda por muitos séculos há de ser um mundo universo, onde poderão aposentar-se todas as nações da Europa, brigar por uma vila, por um engenho, um armazém, uma loja, um assento no senado da câmara, é dar testemunho de ter o entendimento obscurecido pelas trevas da ignorância ou da loucura. Querem destruir-se os dois loucos? Pois destruam-se, como querem; eu é que não hei de ir meter-me entre eles dois. Ambos são meus irmãos; mas como não posso nem mesmo com um só deles, quanto mais com ambos juntos? O recurso que tenho é deixá-los pegados até que, pela dor física, pelo sangue derramado, pela fome criem ambos medo à luta e volte um para a loja e o outro para o engenho a tratar, já com as paixões castigadas e o juízo claro, dos seus interesses particulares. O padre inclinou a cabeça, como quem meditava, e, passado um momento, voltando-se para Marcelina, disse-lhe com evidente desprazer e tristeza:

- Vou passar ao segundo ponto de minha confissão.

- Seu padre pode falar, que eu estou ouvindo com toda a atenção, respondeu a cabocla. E sentou-se para escutar melhor.

XXI

O padre prosseguiu assim a sua confidencia:

- Abro o livro da minha vida sacerdotal para ler a triste e vergonhosa historia que te quero confiar. Custa-me por extremo volver a folha negra em que está escrita, além desta historia, a minha própria condenação. Mas fio que serás indulgente para os culpados. Na juventude, Marcelina, são veementes e cegas as paixões, a carne obra como tirana; a fantasia, mais tarde estrela de branda luz, não passa então de chama afogueada – ilumina, mas queima. Quando chega a idade madura, e o entendimento, como magistrado intimo, examinando, apreciando e julgando os atos da mocidade, descobre os montões de cinzas a que o fogo da paixão juvenil reduziu sentimentos e princípios respeitáveis, e por baixo dessas cinzas fundos abismos e tenebrosas sepulturas; quando a razão, já educada pelos anos e fortalecida com o conhecimento exato das coisas, transmite à consciência suas severíssimas leis, e exige o preenchimento delas, a frágil personalidade humana não tem para sua defesa outra voz além desta: ‘Perdão, ó homens! Perdão, ó Deus!’ Presta atenção, Marcelina. É chegado o momento do terrível sacrifício. Vou enfim abrir a teus olhos o lugar mais recôndito do meu coração. Não te aterres com o espetáculo, nem digas a ninguém que debaixo das cinzas de minha velhice se aninha uma serpente que me prende, como anel de fogo, ao inferno.

- - Seu padre! exclamou a cabocla, profundamente abalada. Juro-lhe que lhe guardarei segredo até à morte. Houve aqui há anos uma terrível epidemia de bexigas desde o Recife até à Paraíba. Morreu gente sem conta por esses povoados e estradas afora. Tu hás de estar lembrada.

- Ainda me lembro dessa peste. Se eu estive às portas da morte...

(continua...)

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