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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Levanta a cabeça, minha filha, disse emfim Cândida, concentrando a sua cólera; anima-te, consola-te : esse miseravel não te merecia : levanta a cabeça!

Juliana ergueu a fronte, e olhou tristemente para sua mãi, sem lhe dizer palavra; mas sua consciência lhe estava respondendo que não podia mais levantar a cabeça diante de Jorge de Almeida.

XXIII.

O projecto de casamento de Jorge de Almeida com a bella Juliana fora por alguns amigos sabido ; a noticia do triste desenlace da intriga infame forjada por um vil seductor correu logo de bocca em bocca, soffrendo muito por isso a reputação da victima.

As murmurações e as injurias levantadas pelas mais terríveis suspeitas marcavão já com o sello da reprovação a infeliz moça.

Cândida e Fábio comprehendêrão que era indispensavel que Juliana tornasse a apparecer nas sociedades e que assoberbasse a horrivel tormenta que contra ella se desfechava.

A situação era realmente tão dolorosa e difficil como positiva e irrecusavel.

Voltando ás assembléas que costumava frequentar, Juliana protestava ao menos com a sua presença e com a sua placidez contra as indignidades que a seu respeito erão espalhadas, e, no caso contrario, fugindo ao mundo elegante

e ás festas, e escondendo-se em um retiro, procurando um esquecimento que não estava nos seus habitos, deixava em pé e vigorando as suspeitas que lhe despedaçavão a coroa e o véo branco da pureza.

Juliana attendeu aos conselhos de Fábio e de sua mãi, e voltando aos bailes, ás festas e aos theatros, abraçou-se com a mentira.

Com a mentira, sim ; porque erão mentiras o brilho do seus olhos, o sorriso dos seus labios, a alegria do seu rosto e o encanto da sua conversação.

A verdade guardava-a ella no seio : a verdade era o arrependimento, era o remorso.

A mentira acompanhava-a ás sociedades, aos passeios, aos saráos, aos theatros : a verdade, que aliás não a deixava nunca, erguia-se terrivel no silencio da noite e na solidão do seu quarto ; erguia-se, e abrazava-lhe a face e os labios, lembrando-lhe beijos impuros ; erguia-se, e cantava-lhe aos ouvidos horas inteiras, e incessante e desesperadamente aquelle canto sinistro que marcara o momento da sua perda e do seu opprobrio.

E Juliana, que tinha horror a essas noites de indizivel martyrio, ainda mais se arreceiava de que viesse alguma vez sua mãi observal-a, temendo que por acaso então adormecida revelasse em um sonho traidor o segredo fatal da sua vergonha.

A misera jovem, que em horas de imprudencia e de loucura tinha calado aos pés os preceitos do dever e da virtude, já estava pois sendo severamente castigada.

Recebia um castigo, nas justas murmurações de um mundo sempre desapiedado da mulher que se avilta.

Recebia outro castigo nesse desassocego e medo que incessantemente sentia.

E mais que tudo a consciência, que é como um écho da voz de Deus, a castigava com as torturas horriveis do remorso.

XXIV.

O caracter de Juliana era capaz de emprestarlhe a audacia necessária para resistir á silenciosa, mas palpitante reprovação com que ella era recebida nas reuniões em que se apresentava.

Sua vaidade dava-lhe forças para impôr-se.

Quando ás vezes via suas rivaes sorrirem maliciosamente olhando para ella, encarava-as atrevidamente, ou dardejava sobre as inimigas um olhar de fingido desprezo, que chegava a confundil-as.

Sem tremer, sem corar e sem empallidecer, Juliana resistia aos olhos perscrutadores dos homens, que parecião querer penetrar em seu coração e ler ahi um segredo cruel e sinistro.

E apezar daquelles sorrisos, daquellas vistas dos olhos insolentes, apezar do murmurar injurioso que ás vezes sorprendia de passagem, a pobre moça dansava, ria, folgava como d'antes, trazendo no rosto o céo e na alma o inferno.

Em duas noites de reunião, porém, teve emfim Juliana de enfraquecer.

Em uma dellas, era um baile, ostentava a pobre moça toda a sua alegria artificial, e no momento em que acabava de levantar-se para aceitar o braço de um cavalheiro com quem ia dansar, vio de subito apparecer na sala Jorge de Almeida, que fixou sobre ella um olhar cheio de cruelissima ousadia.

Juliana estremeceu violentamente, recuou um passo, deixou-se cahir sentada na cadeira de que acabava de levantar-se, e desculpou-se com o seu cavalheiro, dizendo-lhe a tremer :

— Não posso... é impossivel.

Esta impressão tão forte e profunda, que recebera Juliana ao ver entrar na sala Jorge de Almeida, foi interpretada pelos curiosos e observadores de um modo muito maligno para a infeliz moça, quo logo depois retirou-se do baile.

Passados alguns dias, em outra e muito numerosa e brilhante reunião, depois de algumas horas dedicadas á dansa e á musica, estava Juliana com algumas jovens, não tão bellas, mas tão vaidosas como ella, descançando e conversando em uma pequena sala que communicava com o toucador.

Fallavão sobre musica.

Juliana sinha sido muito applaudida pouco antes cantando um romance, que pela primeira vez fora ouvido.

(continua...)

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