Por José de Alencar (1875)
- Já vê que sou exato e escrupuloso na execução do contrato. Conceda-me ao menos este mérito. Vendi-lhe um marido; tem-no à sua disposição, como dona e senhora que é. O que porém não lhe vendi foi minha alma, meu caráter, a minha individualidade; porque essa não é dado ao homem alheá-la de si, e a senhora sabia perfeitamente que não podia jamais adquiri-la a preço de ouro.
- A preço de que então?
- A nenhum preço, está visto, desde que o dinheiro não bastava. Se me der o capricho para fingir-me sóbrio, econômico, trabalhador, estou em meu pleno direito; ninguém pode proibir-me esta hipocrisia, nem impor-me certas prendas sociais, e obrigar-me a ser à força um glutão, um dissipador e um indolente.
- Prendas que possuía quando solteiro.
- Justamente, e que me granjearam a honra de ser distinguido pela senhora.
- É por isso que desejo revivê-las.
- Neste ponto sou livre e a senhora não tem sobre mim o menor poder. O fausto de sua casa exige que tenha um palácio, mesa lauta, carros e cavalos de preço, que viva no meio do luxo e da grandeza. Não a contrario no mínimo detalhe; moro nessa casa, sentome a essa mesa, entrarei nesses carros para acompanhá-la; não serei nos esplêndidos salões um trate indigno de emparelhar com os outros móveis. Quanto ao mais, ter por exemplo, apetite para suas iguarias e prazer para suas festas, eis ao que não me obriguei. E porventura será defeito que rebaixe o homem de sua posição social, de seus méritos, o fastio ou o hábito de andar a pé?
- Porventura, pergunto-lhe eu, será agradável a alguma senhora ter um marido que serve de tema à risota dos criados, e passa por trancar o sabonete? E veja quanto se desmandam, que já chegaram a meus ouvidos os chascos dessa gente.
- Compreendo que se ofenda com isso o seu orgulho. Mas há um remédio; deixar que roubem esses objetos, ou dá-los sob qualquer pretexto, contanto que eu não me sirva deles. Aurélia fez um gesto de impaciência.
- Não contesto-lhe o direito que pretende haver sobre o que chama sua alma e seu caráter. Ideou este meio engenhoso de contrariar-me: não lhe roubarei o prazer; mas se deseja saber o que penso...
- Tenho até o maior empenho. Sua opinião é para mim como um farol; indica-me o parcel.
- O que não impediu seu naufrágio. Mas não gastemos o tempo em epigramas. Que necessidade temos nós destes trocadilhos de palavras, quando somos a sátira viva um do outro? Há neste mundo certos pecadores que depois de obtidos os meios de gozar a vida, arranjam umas duas virtudes de aparato, com que negoceiam a absolvição e se dispensam assim de restituir a alma a Deus.
O aspecto de Seixas denunciava a cólera que sublevava-se em sua alma e não tardava a prorromper. Mas desta vez ainda conseguiu domar a revolta de seus brios:
- Acabe.
- Já tinha acabado. Mas, para satisfazê-lo, aí vai o ponto do i; sua economia e sobriedade são do número daquelas virtudes oficiais dos pecadores timoratos.
- A senhora tem uma sagacidade prodigiosa! Bem mostra que é sobrinha do sr.
Lemos.
Aurélia que seguira adiante voltou-se como se uma víbora a tivesse picado no calcanhar. Tão eloqüente foi o assomo de dignidade ofendida que vibrou a fronte da formosa moça, e tal o império de seu olhar da rainha, que Seixas arrependeu-se.
- Desculpe!... disse ele com brandura. Sua ironia às vezes é implacável.
Aurélia não respondeu. Adiantando-se, entrou em casa e recolheu-se ao toucador.
Era a primeira noite depois de casados, que ela não voltava do jardim na companhia e pelo braço do marido.
VI
Fazia um luar magnífico.
Seixas conversava com D. Firmina na calçada de mármore de frente, que a folhagem das árvores cobria de sombra.
À direita do marido estava Aurélia reclinada em uma cadeira mais baixa de encosto derreado, cômodo preguiceiro para o corpo e o espírito que deseja cismar.
Desde a tarde da explicação relativa ao toucador, as relações dos dois companheiros dessa grilheta matrimonial se tinham modificado.
Como se houvessem naquela ocasião exaurido toda a dose de fel e acrimônia, acumulada nesse primeiro mês de casados, desde o dia seguinte suas palavras correspondendo à amenidade e apuro das maneiras, perderam a ponta de ironia, de que anteriormente vinham sempre armadas, como as vespas de seu dardo sutil e virulento.
Conversavam menos de si; falando sobre coisas indiferentes ou banais, acontecialhes durante muitas horas esquecerem-se da fatalidade que os tinha unido em uma eterna colisão para se dilacerarem mutuamente a alma.
Seixas descrevia naquele momento a D. Firmina o lindo poema de Byron, Parisina. O tema da conversa fora trazido por um trecho da ópera que Aurélia tocara antes de vir sentar-se na calçada.
Depois do poema ocupou-se Fernando com o poeta. Ele tinha saudade dessas brilhantes fantasias, que outrora haviam embalado os sonhos mais queridos de sua juventude. A imaginação, como a borboleta que o frio entorpeceu e desfralda as asas ao primeiro raio do sol, doudejava por essas flores d'alma.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.